Quando chegámos ao hotel ao fim do dia de ontem, o nosso segundo na ilha do Corvo, meti-me a pensar sobre como é que ia contar estas últimas horas. Pela primeira vez tivemos de nos dividir. Os Pedros estiveram entre entrevistas e um mergulho no arquivo fotográfico do Ecomuseu, da parte da manhã, e à tarde numa ação de limpeza da costa. Eu, o Paulo e o Rodrigo fomos de boleia com Orlando Rosa, o carteiro da ilha, pelos trilhos mais desconhecidos do Corvo, aqueles que fogem aos turistas que na sua maioria chegam apressados num barco vindo das Flores e que em meia dúzia de horas não têm tempo para viver este mundo.

Mas cada uma destas histórias terá lugar próprio. Tenho de falar do melhor que o Corvo tem, a liberdade, a das pessoas e a da natureza, a de todos.

Desde que cá estou que esta foi, provavelmente, a palavra que ouvi mais vezes. Ouvi-a pela primeira vez quando o senhor José Maria me contava como era a ilha antes do 25 de Abril, uma vila de pés descalços, isolada do resto do mundo, uma época pobre em que se vivia somente do gado e do que a terra dava porque o barco podia ficar meses sem vir cá. Ele sim, sabe melhor do que ninguém o que é a liberdade.

Ouvi-a mais tarde pela Eva, professora de francês e português da escola, natural de Pombal, quando falava de como foi a mudança para os Açores e da filha que podia ficar a brincar na rua até às horas que fosse. Ouvi-a na cozinha comunitária, enquanto se limpava a carne de vaca para ser preparada para as sopas do Espírito Santo, quando uma senhora dizia que não se lembrava da última vez que tinha trancado a porta de casa. Ouvi-a quando se falava dos animais à solta lá em cima no monte, quando, entre sorrisos, me garantiam que as vacas dos Corvo são as mais felizes dos Açores.

Pode parecer paradoxal para quem está de fora que a ilha mais pequena dos Açores, em tamanho e população, seja sinónimo de liberdade. Mas o Corvo só é pequeno no mapa.

A natureza vive no seu estado bruto, praticamente a partir do ponto em que a estrada começa a subir em direção ao caldeirão, lá os animais vivem sozinhos, o gado, as cabras selvagens e os pássaros que nunca param de cantar, seja de dia ou de noite, são a banda sonora da ilha. A vegetação está intocada em muitos dos locais, os trilhos ainda são os mesmos que os que eram usados pelos pastores há 50 anos. Cá em baixo, na vila, as pessoas andam descansadas, seguras, conhecem-se todas, estão a cinco minutos de distância a pé de qualquer lugar.

Ouço as histórias de quem vive cá, numa calma que não está ao alcance de quem vem de fora, contrastam com a imagem de uma pequena ilha rodeada por um oceano imenso. Parece apertada, que não há por onde fugir, lá está, no mapa. Descemos o caldeirão, imergimos num silêncio absoluto, ensurdecedor, coordenado pelo cantar dos pássaros e o mugir das vacas. Levantamos a cabeça e vemos um céu repleto de estrelas. Saudamos todas as pessoas por quem passamos na rua. Desvíamo-nos das vacas na estrada. Vimos, ao fim do dia, o azul do oceano a confundir-se com o azul do céu, já não sabemos onde começa e acaba o quê e percebo que não sabia o que era liberdade até ter vivido o Corvo.

Raúl Brandão falou de um sítio onde "só as coisas eternas perduram". Era toda a natureza, sem amarras. Agora é toda a ilha.

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