Os sons vêm de todo o lado. Estados Unidos, Roménia, França ou Reino Unido. Portugal. E confluem aqui, no Parque da Pasteleira, reservatório de água e agora de cultura da cidade do Porto. O festival Elétrico, que nasceu em 2018, traz para a zona oeste da Invicta os ritmos da música eletrónica de dança — mas não só. Aqui, há ainda espaço para outras energias: as do corpo e as da mente.

O Elétrico não é para massas, mas quer ser uma massa — uma massa crítica, uma mistura entre pessoas de vivências díspares, unidas num espaço comum que permite o toque entre filosofias diferentes. Isto explica Vítor Magalhães, um dos organizadores. Assim, ao lado da música eletrónica surgem famílias, crianças a correr.

"Este ano conseguimos consolidar o conceito do festival", diz Vítor. Agora há que fazer com que o festival "não seja apenas para um tipo de pessoas, mas para uma mistura". A ideia surgiu das experiências de Vítor fora de Portugal, que se juntou aos sócios para as reinventar no Porto.

Som

Os graves ouvem-se ao longe. Lá chegando, sentem-se no chão, trovejando. As cadências vêm da Alemanha, com Marcel Dettmann; da Roménia, com Petre Inspirescu; do Reino Unido, com Matthew Herbert; dos Estados Unidos, com Moodymann. E outros, muitos outros que durante três dias trouxeram influências diversas ao relvado da Pasteleira.

“Isto é confortável. Normalmente nos festivais há muita coisa a acontecer; confusão”, conta Vicente Rodriguez. Está sentado ao sol, numa espécie de sofá encaixado no capim à beira das árvores, no cabeço que vigia o palco.

Com ele, vieram de Sevilha, no sul de Espanha, mais cinco amigos. Conduziram de lá até ao Porto de propósito para um festival que encontraram no Facebook. “Gosto da cidade e sou fã de alguns artistas”, conta, a justificar a jornada de 580 quilómetros.

Elogia a cidade, o festival — e até o Estado, “que apoia mais este tipo de iniciativas que noutros países”, parece-lhe.

Diante da cabine — que, apropriadamente, é a réplica de um elétrico — há os que baloiçam; há os desengonçados; os que têm uma espécie de espasmos nos membros inferiores. Uns vão equilibrando os líquidos nos copos. Outros seguram só os recipientes vazios.

Energia

Aqui à sombra, o sol acalma. O Porto tem as suas ilhas climáticas, fazendo-se arquipélago de calores e neblinas; de ventos e braseiros. Depois de uma manhã de chuva e nuvens, a tarde abre límpida, com uma calma luz a descer do céu, faiscando na relva.

Um punhado de gente põe-se aos esticões. Arrepiam os braços, afastam as pernas. Puxam à esquerda; à direita. Olham para o cimo, para as folhinhas verdes que os cobrem: e respiram.

À música, o festival Elétrico junta outra energia: a do espírito, do corpo, do bem-estar. Com sessões variadas — do yoga à meditação —, o festival convida a contemplar; a parar. É interessante o contraste: a um lado, a música de dança no seu frenético torpor; ao outro, os gestos vagarosos, ponderados, demorados.

Ali à beira, três pessoas. Vão e vêm. Vão e vêm. Vão e vêm. Estão as três sentadas num baloiço, à sombra, oscilando suaves para trás e para diante, enquanto ao lado a música vai na sua correria. Filipa, Sandra e a pequena Carlota não vieram pelos sons.

“Fazem falta festivais a pensar no bem-estar”, conta Sandra. “Talvez não só com esta componente, porque depois se podem tornar demasiado fechados”, vai pensando, enquanto balouça. “Se calhar faz falta é que os festivais convencionais integrem esta parte”.

Filipa, ao lado, concorda. “E mais”, acrescenta, “é um festival onde dá para os trazer”, diz, enquanto aponta para Carlota, sentada entre as duas no baloiço largo, que no natal passado há de ter estado enfeitando os Aliados.

Agora, despojados do aparato luminoso, enchem-se de crianças — e há aqui muitas. Até aos doze anos, a entrada é gratuita, “o que lhes permite ter contacto com este tipo de experiências”, diz Filipa.

“Nos outros festivais geralmente não podem entrar; os pais vão e dizem: ‘olha, tu ficas’”, explica. Sandra assente. “Sim, era também o que ia dizer”, afirma, destacando ainda a evolução do projeto Elétrico desde o ano passado. “Sobretudo a parte do bem-estar. Está mais estruturada”, conclui, sem parar de baloiçar.

Longe do palco, metidos à roda duma mesa, há miúdos a brincar com lixo. “Mãe, quero um pássaro”, diz uma pequena rapariga a olhar para as garrafas de plástico ali amontoadas.

Aquilo depois é pegar nas garrafas, pôr um adulto a cortá-las do jeito que é preciso, enrolar tudo com fita-cola de pintor — para segurar e dar força — e dar com a tinta. No caso, azul na asa esquerda, amarelo na direita.

Ideia

Sábado. A tarde vai no seu meio. À beira do lago, visões do futuro. Num festival dedicado a todas as energias, há também que guardar espaço para as forças motrizes que metem o mundo a mexer: as ideias. E essas nascem no Press Start, um palco dedicado ao empreendedorismo e à discussão de soluções mais sustentáveis.

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As conversas arrancaram com sapatilhas feitas de plástico trazido do mar pelos pescadores que inadvertidamente veem os resíduos agarrarem-se-lhes às redes — e passaram por nano-partículas magnéticas capazes de agarrar os efluentes que resultam da produção têxtil. Tudo isto, no primeiro dia.

“Para além de um negócio, somos uma causa”, explicam os promotores destas sapatilhas produzidas em São João da Madeira. Os pares, totalmente personalizáveis, ascendem a mais de cem euros, mas o projeto envolve não apenas a sensibilização de pescadores, mas também iniciativas em escolas e ações de limpeza das praias.

Dos laboratórios do INL, em Braga, ou do CIMAR, aqui no Porto, chegam os cientistas. O desenvolvimento de nano-partículas capazes de agarrar os resíduos microscópicos que poluem a água, mas também o estudo dessa praga dos microplásticos que poluem as águas e os seres.

E dos viveiros municipais do Porto vêm árvores: muitas árvores. 100 mil, para sermos mais precisos. É, aliás, esse o nome do projeto que nasceu do CREPorto, na Área Metropolitana do Porto, com o objetivo de plantar cem mil árvores nativas nas cidades que compõem esta estrutura.

Desde 2009, já foram plantadas na verdade mais de 106 mil árvores, a maioria delas criada nos viveiros portuenses.

É esta a deixa em que também pegou Filipe Araújo, vice-presidente da câmara do Porto, já no segundo dia. O autarca vem falar daquilo que a cidade anda a fazer para ser mais sustentável — até porque acredita que “as cidades podem liderar os movimentos de transformação”.

Para a Invicta, isso significa descarbonizar (menos 50% de emissões até 2030); apostar na energia renovável (e resolver desafios como carregar 40 carros ao mesmo tempo); e procurar uma circularidade para a economia (com uma recolha de resíduos mais inteligente).

É também a pensar nisso que Sofia Pera, arquiteta, tem um projeto para melhorar a relação do espaço urbano com a natureza. Chama-se reabilitação bioclimática de espaços exteriores e procura o melhor desenho dos espaços públicos para mitigar os efeitos do clima — aproveitando as potencialidades e dirimindo os desafios das tais ilhas meteorológicas: esses pontos com tempos diferentes que fazem o Porto ser uma Boavista cheia de sol e uma Pasteleira debaixo de carregadas árvores.

Ação

No relvado junto ao palco, a confluência: uma escultura enorme, feita de lixo. É a união das ideias com as execuções. Ali ao sol, o que antes foram pacotes de batatas fritas reluz, dançando com o tremor da música.

“A reciclagem deixa as pessoas com boa consciência para continuarem a consumir. Temos é de reduzir”, diz o autor desta forma disforme que interrompe o espaço, como se a gritar que a união das forças é a energia necessária: para dançar, contemplar — e mudar.

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