Cada álbum dos Conjunto Corona é mais um capítulo na vida da personagem criado pelo grupo, e o quinto capítulo, que sai na sexta-feira, mostra Corona “numa época muito mediática e falada da noite do Porto”.

“Nos finais dos anos 1990, 2000, em que as discotecas eram aquelas discotecas de zona industrial, com seguranças à porta e etc.”, explica, em entrevista à Lusa, David Bruno.

Foi nessa altura que o produtor e o seu colega de banda, Edgar Correia, também conhecido por Logos, começaram a sair à noite.

“Guardámos o ambiente dessas discotecas, com seguranças a controlar, em que só podiam entrar homens acompanhados por mulheres, se não tinham de esperar, um ambiente que, felizmente, hoje não existe muito”, realçou.

Dessas memórias dos “anos dourados da noite”, nasce “G de Gandim”, que se inspira também musicalmente, com referências à música latina que surgiu na altura em Portugal.

Produzido já durante a pandemia de covid-19, a narrativa criada “foi uma mistura” de saudosismo e projeção, mas a música tenta dar um salto, adianta Edgar Correia.

“Estávamos a atravessar os dois um momento de alguma saturação, para não tornar a banda muito formulaica. Então, quando ouvi estes instrumentais que o David fez sem intenção nenhuma, quase como no primeiro álbum, aquilo fez sentido”, conta.

A mistura de ‘reggaeton’ com ‘techno’ “tem muito a ver com o Porto”, considera, e encaixa-se com o intuito com que foi criada a banda – “mexer um bocado as águas, não ficar presos a fórmulas”.

David Bruno confessa que sempre foi “um grande fã deste estilo” latino, lembrando que “os primeiros êxitos globais do ‘reggaeton’, como o Daddy Yankee, no Porto fizeram logo um grande furor”.

“Na altura, era visto como altamente chunga e nojento, e hoje é ‘mainstream’, pop. O que procurei fazer ali foram esses instrumentais de ‘reggaeton’ pesados, ‘lo-fi’, que se ouviam muito no início. Tinham sucesso comercial, mas não tinham tanta qualidade, era produzida de forma mais caseira”.

A epifania surgiu na sequência de uma promessa feita porque conseguiu recuperar o disco de um computador que tinha “’pifado’” e, com ele, dois álbuns que “tinham ido com o galheiro”. Pelo caminho, ia a ouvir aquele estilo musical e os instrumentais que construiu, sem recorrer a ‘samples’.

“Fui a pé ao Mosteiro de Santa Rita, em Ermesinde [concelho de Valongo], para cumprir uma promessa. Atravessei Gaia, o Porto, depois Ermesinde e a Maia. Atravessei a periferia toda a pé. Fui pelo caminho com os fones a ouvir ‘reggaeton’ e aqueles instrumentais. Olhava para as pessoas na rua, os carros quitados, e casava mesmo muito bem. A prova disso é que de cada vez que vou lavar o carro – sou esse tipo de português – o que não falta são pessoas a ouvir ‘reggaeton’. Casava bem”.

Para o produtor, aquele género combina tão bem com a cultura local, que “às vezes até parece que essa música foi inventada aqui, em Ermesinde, e não em Porto Rico”.

“O ‘reggaeton’ é de Rio Tinto e depois foi para lá, só pode ter sido”, brincam David e Edgar.

Para Edgar Correia, que constrói a narrativa, “independentemente da sonoridade e temática, havia uma base”, algo que “fosse o tema principal do início ao fim: o grande crescimento, muito rapidamente, da cidade do Porto”, com “turismo, multiculturalidade”.

Foi ainda antes da pandemia de covid-19 ter assolado o país que o álbum começou a ser criado, mas acabou por representar a vontade de voltar àqueles espaços.

“Fez todo o sentido. Por coincidência, fizemos um álbum sobre a ‘night’ e estivemos quase dois anos fechados sem poder ir à ‘night’. Até o videoclip [de “Sempre a Riffar”] mostra um bocado isso, continuar a vida normal e a pensar na ‘night’”, diz Edgar.

A pandemia atrasou também o lançamento do disco, que estava pronto para ser lançado “em maio ou junho de 2020”. Foi “ano e meio à espera” até ao lançamento, que acontece a 12 de novembro.

Lançar mais cedo “não fazia sentido, até fruto dos concertos”, explica Logos.

“Somos uma banda minimamente conhecida por concertos bastante movimentados, com moche, muito contacto, e não fazia sentido ser de outra forma”, prossegue.

Para já, têm marcadas quatro datas de apresentação de “G de Gandim”, a 03 e 04 de dezembro no Musicbox, em Lisboa, e 10 e 11 de dezembro no Pérola Negra, no Porto.

“G de Gandim” chega, como os outros discos de Conjunto Corona, num “formato físico completamente disruptivo e adequado ao conceito do álbum”, destaca David Bruno.

Sem revelar nada de concreto, deixa apenas uma pista: “é das primeiras coisas que tu associas a sair à noite”.

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