Comecemos pelo vídeo de apoio à Seleção Nacional de Futsal. Como é que surgiu esta ideia?

Se não me engano, estávamos em viagem quando a minha agência recebeu a proposta. Precisavam de alguém que desse a cara e fosse a voz da seleção. Esta campanha é algo diferente daquilo que costumo fazer, um meio-termo entre a música e o spoken word. Só nos deram algumas ideias e o resto surgiu naturalmente. E fizemo-lo em tempo recorde, até porque já estávamos em cima dos timings. Passado uns dias fui ter com eles [com a Seleção] ao Centro de Estágios de Rio Maior e lá filmámos a peça.

Recorde o vídeo, “Futsal: A Nossa Seleção”

Como é que os jogadores o receberam?

Foi fixe, mas quando filmámos eles ainda não tinham ouvido a letra. Como tinham treinos no dia seguinte gravaram primeiro que eu. Deu para conhecer alguns deles e perceber o ambiente, que estava incrível. Na altura até falei um bocado com o selecionar e fiquei logo com a sensação de que iam fazer um brilharete no europeu. Felizmente, acabou mesmo por acontecer. 

O vídeo acaba por ser um hino à união. Pode ser transversal a outras modalidades?

Acho que até se pode aplicar a tudo. Neste acaso, aplica-se ao futsal mas pode bem ser utilizado por outras modalidades. E, indo um bocado mais longe, até a nós enquanto país. 

Como é que acompanhaste a final? Eu estava num restaurante e a cozinha veio toda para a sala para ver os últimos minutos do prolongamento. Acho que não foram servidos pedidos na meia hora seguinte...

Não consegui acompanhar. Também estava num jantar e num restaurante que não tinha televisão. Fui vendo pela Internet, mas não dá para ter a mesma reação quando vês um golo. Depois, quando cheguei a casa, puxei tudo para trás para ver o jogo. Fiquei muito feliz, até porque sinto que faço parte daquela conquista que fica para a história. 

És filho do internacional português Jorge Plácido, que passou pelo Sporting e pelo FC Porto. O teu histórico familiar ajudou em algum momento na concretização deste vídeo?

Sou mega apaixonado por futebol. Não propriamente por futsal, uma modalidade que não conheço em profundidade como conheço o futebol de onze. Para mim, este projeto, também foi uma oportunidade para me apaixonar pela modalidade. Se pensar bem, acho que nunca tinha visto um jogo de futsal do início ao fim. E os do Europeu vi quase todos.

Alguma vez pensaste em seguir as pisadas do teu pai?

Quando era mais novo, sim. Gostava de jogar futebol mas percebi que esse não era o meu caminho. Felizmente, percebi a tempo e desisti de jogar, quando ainda era miúdo, para fazer outras coisas. 

Trocaste as bolas pelas rimas?

Sim, se é que se pode dizer isso. Antes das rimas tive de estudar ou não me deixavam fazer música.

Então? O momento em que disseste que querias a música foi um momento importante no contexto familiar?

Foi um momento até bem delicado, para te dizer a verdade. Tinha acabado o meu curso e começado a trabalhar na minha área, Gestão e Marketing, e tinha um super emprego. Grande salário com todas as regalias, mas sempre a fazer música paralelamente. Por volta de 2009 ou 2010 decidi disponibilizar algumas músicas na Internet e percebi que estava a acontecer alguma coisa à volta daquilo. Juntei algum dinheiro e pensei: 'Se calhar era fixe arriscar tudo o que tenho nesta cena'. Investi todo o dinheiro que tinha a gravar, a fazer vídeos e a promover-me e felizmente os resultados acabaram por aparecer.

A Internet foi importante?

Sem dúvida. Embora a Internet nessa altura não tivesse o impacto que tem agora. Os resultados eram bem mais residuais...

Falamos de o quê, Myspace?

Ya, sou do tempo do Myspace. E do Hi-5. Ainda publiquei lá umas dicas. Venho dessa geração. Claro que sou um artista que se fez e cresceu na Internet, mas numa altura em que ter alcance e chegar às pessoas era mais difícil do que agora.

Mas não chegaste a contar qual foi a reação da tua família quando disseste: 'A música é o que quero’.

Isto é válido para toda a agente que faz música. Acho que as famílias, sobretudo os pais, têm alguma dificuldade em aceitar uma carreira nessa área. Porque é uma profissão que está associada a todo o tipo de ideias pré-concebidas.

Como assim?

Que o pessoal é toda uma cambada de bons vivants e que que gosta de acordar tarde e não sei quê… Acho que nesta, como em qualquer outra profissão, para teres bons resultados, tens de ter disciplina, trabalhar e fazer acontecer. A maior parte da minha família só começou a perceber isso mais tarde, quando começaram a aparecer os resultados. Então perceberam: 'Ya, ele está a fazer vida desta cena'. A primeira reação não foi boa, tirando o meu pai que sempre me apoiou em tudo o que faço. Com a minha mãe foi tudo um bocado mais delicado. Ela queria mesmo que estudasse e que tivesse uma profissão... como tinha a determinada altura. Mas foi só até perceber que isto era mesmo sério.

E hoje como é que ela vive a tua música? Vai aos concertos?

Agora é diferente, é um motivo de orgulho. Ela teve oportunidade de me ver em palcos muito pequenos, mesmo no início dos inícios, e viu-me a fazer alguns dos maiores palcos que há no país.

O que é que ela te diz?

A minha mãe não é uma pessoa de elogiar muito. Faz todas as críticas que tem a fazer e depois é que elogia. 

Mãe é mãe...

Mas um tema recorrente nela é o da responsabilidade. Tendo em conta que grande parte do meu público é jovem, o grosso está entre os 18 e os 23 anos, ela diz-me sempre que tenho uma responsabilidade e que tenho de ter cuidado com o que digo e com o que veiculo.

Nasceste no Barreiro, mas já passaste por Paris, Luanda e, mais recentemente, pelo Porto, onde vives. Onde é que te sentes em casa?

No Porto. 

Porquê?

Não nasci nem cresci no Porto, e não sendo uma pessoa de lá acho que tenho a sensibilidade de olhar para a cidade como muitas pessoas não olham. Para além disso, o Porto foi onde me senti verdadeiramente acolhido quando vim de França. Tudo isto faz com que me sinta em casa. 

Algum destes sítios te influenciou musicalmente?

Todos eles. Eles [aponta para o grupo de amigos que está presente na sala] cresceram comigo e sempre ouvimos muito R&B; os clássicos, de TLC a Usher. Fui para Paris com 8 anos e voltei com 16; nesse período a malta ouvia ou hip-hop e R&B ou grunge, naquela febre dos Nirvana, dos Cranberreis ou dos Offspring. Então, fui um bocado apanhado por essa onda. Para além disso, os Fugees eram o grande hit do momento e foi o concerto deles o primeiro que vi — até hoje é o meu concerto preferido de sempre, no Zénith de Paris.

créditos: Jimmy P

E no hip-hop tuga, quem é que te chamou a atenção pela primeira vez?

O Boss AC. Quando vim viver para Portugal ofereceram-me o primeiro álbum dele, o “Manda Chuva". Também me deram outras coisas a ouvir. Mas tens de perceber, eu vinha de Paris onde tinhas grupos como NTM ou IAM, a geração de ouro do hip-hop francês, num estado onde já havia uma indústria super desenvolvida. Venho para Portugal onde o hip-hop ainda era um fenómeno embrionário, uma sub-cultura, então, para mim, as cenas que se faziam ainda eram muito amadoras. Para a qualidade a que estava habituado, começo a ouvir as cenas que o pessoal estava a fazer aqui... e não gostei de nada. Até que fui ouvir o álbum do AC. 'Atenção, este mano aqui está noutro nível'. Em comparação com os outros, estava muito à frente em tudo: musicalmente, métricas, flow, os temas. Foi o artista que ouvi que mais me surpreendeu. Depois continuei a acompanhar… Esse mano é mesmo a minha maior referência. O AC representa tudo aquilo que eu gostava de construir como artista, sobretudo a nível de progressão de carreira. Musicalmente não, porque as últimas coisas que ele fez já não me dizem muito. Em termos de progressão de carreira é aquilo que eu aspiro atingir.

Hoje como é que olhas para o hip-hop, ainda é uma sub-cultura?

Se calhar nunca se viveu um momento tão bom como agora. Nunca se consumiu tanta e boa música portuguesa, em particular rap, como nos últimos três anos. Aliás, eu tenho vivido essa experiência. Em pouco tempo, passei de ser o artista que fazia uns botecos no Porto, para um headliner de cartazes de festivais grandes.

O que mudou? Foi paradigma do hip-hop e do rap em Portugal ou é algo transversal?

Acho que o hip-hop passou a ser, involuntariamente, um fenómeno de massas. Isto vai sempre dar à Internet, que tem um papel incontornável aqui. Antes tinhas de lançar obrigatoriamente um disco para te fazeres ouvir e chegar às pessoas. Hoje em dia, com um single, podes tornar-te um artista que toda a gente conhece. Ou até mesmo só com um vídeo no YouTube. Não precisas de espoletar os mecanismos todos de antigamente, os canais de comunicação hoje são outros. As redes sociais permitem a fidelização de um público, por exemplo.

E já que falamos em redes sociais, como é que olhas para os recentes "beefs"?

Acho que isso faz parte da cultura. Se tu vires bem, a cena da competição está na génese do hip-hop, seja em que vertente for. E o rap, como forma de expressão musical, não é exceção. Aquilo que muitas pessoas não perceberam é que nunca se ganhou tanto dinheiro no rap como agora. Antigamente isso não acontecia. Logo, havendo mais dinheiro, a competição também é muito maior.

Sentes a necessidade de explorar nas tuas letras as vivências e os problemas do teu público?

Acho que a coisa funciona mais ao contrário. Antes de fazer música sou uma pessoa como outra qualquer, com vivências comuns a toda a gente. E aquilo em que tenho facilidade... ou aquilo que faço bem, que isso é que é importante, é transformar em música coisas que me dizem respeito. Coisas que gravitam à minha volta: a minha família, os meus amigos... Por serem coisas tão pessoais é que, talvez, as pessoas se consigam rever. Não estou a ficcionar ou a apropriar-me de realidades que não vivo.

Tu és um músico interventivo ou um cidadão participativo?

Acho que sou um bocado das duas coisas. Uma vez mais, lá está a questão da responsabilidade.

Mas estás envolvido em vários projetos...

Em dois projetos de cariz social. Um com a EDP, sobre diversidade e inclusão, e outro sobre a violência nas relações. O segundo deu origem a um livro [“Amar-te e Respeitar-te”], que vai já na segunda edição. O primeiro [“Tagga o teu Futuro”, que levou o músico às escolas de norte a sul] pretendia passar a mensagem, aos jovens, de que não há sonhos impossíveis. Só estando em contacto com as pessoas é que conseguimos perceber o desafio de um aluno que estuda numa escola de Lisboa, um grande centro urbano, em comparação com um aluno que está em Cinfães do Douro, numa escola do interior. Isto é apenas um exemplo. Perceber todos os preconceitos e todas as coisas a que esses jovens estão sujeitos, cada um na sua realidade, para mim foi brutal. Porque não tinha noção disso. Estar em contacto com eles e partilhar a minha experiência e o meu percurso... e saber que isso, de certa forma, pode trazer alguma inspiração, é super gratificante.

E tens posições políticas?

Tenho preocupações, como cidadão atento e que quer estar a par de tudo aquilo que acontece. Mas faço também os possíveis para não fazer política. Posso manifestar a minha opinião como cidadão ou até mesmo transformá-la em música, mas o meu papel aqui não é fazer política.

Estes projetos pelos quais dás a cara inserem-se nessas preocupações?

Por exemplo.

Alguma vez deixaste de ser Supremo?

Não deixei de ser, mas talvez tenha feito um upgrade. Não sei se vais perguntar isto ou não, mas posso já antecipar. Eu comecei a minha carreira a fazer música num grupo, os Crewcial, já há muito tempo, e nessa altura era o Supremo G. Mas houve um acontecimento na minha vida que me levou a recomeçar tudo outra vez e foi um bocado como nascer de novo. Daí decidir mudar de nome...

Que acontecimento foi esse?

Tive um acidente.

...

A partir desse momento comecei a olhar para as coisas de uma maneira diferente, incluindo a minha forma de fazer música. Sempre fui uma pessoa muito competitiva e pensei: 'Ya, não há necessidade de ser tão competitivo, vou fazer aquilo que curto e se as pessoas gostarem, ótimo'. O Supremo faz parte de um momento da minha vida.

Mas há quem diga que é esse Supremo que ouvimos na colaboração com a XL Cypher...

Estive em Luanda em novembro para dar um concerto e convidaram-me para participar numa plataforma, a XL Cypher, onde tu vais lá e, como dizemos no rap, "vais cuspir". E eu já não fazia esse tipo de sons já há muito tempo porque, sei lá, não tinha aparecido uma oportunidade ou algo que me puxasse para fazer aquilo. E essa foi uma ocasião para mostrar que esse indivíduo, o Supremo, ainda tinha qualquer coisa a dar...

créditos: Jimmy P

Vais frequentemente a Angola?

Vou com alguma frequência.

Notaste alguma diferença neste regresso?

Senti que o ambiente geral é diferente, que há menos crispação e algumas mudanças. Por exemplo, a cidade [Luanda] estava mais limpa e havia mais esperança nas pessoas. Agora vamos ver se isto é uma coisa duradoura ou não.

No início da tua carreira tinhas como objetivo lançar três álbuns seguidos. Saíram em 2013, 2015 e 2016 [“#1”, “FVMILY F1RST” e “Essência”, respetivamente]. Na fase na qual te encontras, tens algum plano?

Esta cena de lançar três álbuns em pouco mais de três anos, uma vez mais, tinha a ver com aquela necessidade de me mostrar ao público. E nessa altura não havia outra maneira a não ser fazer música. Precisava de construir a minha carreira, como um artista que faz determinado tipo de música e que tem aquele registo. E acho que ao fim de três álbuns finalmente as pessoas perceberam 'o Jimmy é um artista que faz isto'. Pensas em Jimmy e consegues visualizar um tipo de artista, que era esse o meu objetivo. Hoje em dia, não sinto a necessidade de planear as coisas dessa maneira porque me sinto confortável no espaço que construí. Sem sentir pressão ou necessidade de fazer um álbum para justificar o que quer que seja. Fiz estes três álbuns e acho que os resultados foram brutais em tão pouco tempo. Até ganhei uma série de prémios... Agora, estou numa fase em que quero experimentar, estar em estúdio e fazer coisas diferentes do que tenho feito.

É isso que vamos ouvir de futuro?

Não vai ser um álbum. Começou por o ser, mas cheguei a meio e percebi: 'Ya, isto é um ganda projeto. Podia ser um álbum? Podia, e era um ganda álbum. Mas se calhar não era o que agora gostava de lançar'. Continuei a gravar, gravei cerca de vinte e tal sons e escolhi alguns temas e compilei-os numa mixtape que irá sair no final de março [sai esta sexta-feira, 23 de março]. Que explora exatamente o que falava antes. Vão poder ouvir um Jimmy que se calhar ainda não ouviram em determinados registos.

Oiça aqui “Alcateia”

Que caminhos achas que já abriste para uma nova geração de músicos que possam ver em ti um exemplo ou uma influência?

Até pode parecer um bocado pretensioso, mas não é o caso. Sinto que até aqui, e sobretudo no hip-hop, havia um certo preconceito perante os artistas que queriam assumidamente ser artistas mainstream. Quando decidi que queria fazer vida disto, quando me sentei com o meu pessoal e disse 'vamos fazer isto, mas é para fazer palcos grandes', competir onde estão os grandes tubarões, jogar na liga dos campeões. Nunca me contentei com o facto de ser um artista para um nicho, sempre quis ser um artista de massas e fazer música para muita gente. Em Portugal há um bocado o debate do é underground vs é comercial. Apesar de achar que isso hoje em dia já nem é sequer uma discussão possível, tendo em conta a maneira como as coisas funcionam. Acho que fui, talvez à exceção do AC ou de alguns artistas deste segmento, um dos poucos a assumir isso abertamente. Porque era exatamente uma coisa que queria, a de fazer músicas que pudessem passar na rádio e que as pessoas pudessem cantar. Até agora havia uma certa ideia pejorativa em relação a esse tipo de artistas, hoje isso está a mudar um bocado. Falo especificamente do hip-hop, que ainda tem alguns bloqueios e algumas ideias pré-concebidas.

Como é que esses bloqueios e ideias se combatem?

É fazer isto, que referi até agora. Não ter receio de assumir aquilo que gostas de fazer, por muito que isso leve a críticas. Só tens de assumir e fazer o que gostas, que foi o que fizemos.

Ao longo da conversa referiste sempre um 'nós'. Quem são eles?

São os meus managers, o pessoal da agência que me representa, os meus músicos, a minha editora e a assessoria de impressa... porque isto é sempre um papel coletivo. Ninguém faz nada sozinho e tudo o que fiz teve ajuda de uma equipa à minha volta.

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