«Nasci com um dom. Posso falar dos meus dons com pouca ou nenhuma modéstia, mas com uma enorme gratidão, precisamente por me terem sido dados, e não por serem coisas que criei». É assim que Joan Baez começa a sua autobiografia, “And a Voice to Sing With”, editada em 1987. E é também assim que poderemos perdoar qualquer ponta de arrogância presente nas suas palavras, porque Baez tem toda a razão e não precisa de se desculpar do que seja. Aquela voz que encantou milhões continua a fazê-lo, do alto dos seus 78 anos de vida, 78 anos de inúmeras histórias, peripécias, ativismos de todos os tipos.

78 anos: o número impressiona. A qualidade que ainda ali se encontra também. Seria de esperar que Baez ou, melhor dizendo, a sua garganta tivesse sucumbido perante a inexorável força do tempo. Nada disso. Continua ali, tão fenomenal como dantes – se é que somos novos o suficiente para nos lembrarmos do “dantes”. O Coliseu dos Recreios, quase cheio em noite de chuva intensa, parecia lembrar-se: poucos ou nenhuns eram aqueles com uma idade inferior a meio século. Mas isso também pouco importa. Nunca se é demasiado jovem ou demasiado velho para apreciar condignamente quem canta daquela forma.

Talvez aquela força ainda ali esteja porque a voz, apesar de sua, não é utilizada para seu próprio proveito. Baez nunca foi conhecida pelos seus talentos enquanto compositora (que existem), mas por aquilo que faz com as canções dos outros, de Bob Dylan a Pete Seeger, de Woody Guthrie a John Lennon. É como se dissesse: estou aqui para vos auxiliar, para vos imortalizar entre o povo. Porque tudo o que canta é do e para o povo, liberdade em verso e guitarra. Como se quisesse dar razão a Proudhon, cem anos depois deste o ter dito: a propriedade é um roubo.

Naquela que foi a primeira data europeia da sua última digressão de sempre (os 78 anos impressionam, mas também pesam; e ela também tem direito à sua reforma), Joan Baez apresentou-se sem os pés nus que a caracterizaram no início da década de 60 («a Madona dos pés descalços», chamaram-lhe), mas com o mesmo espírito do festival de Woodstock no qual participou. Ali, perante centenas de pessoas, estava a mulher que marchou lado a lado com Martin Luther King, a mulher que atuou no Vietname em tempo de guerra, a mulher que nunca se esqueceu dos mais desafortunados, a mulher que entre os seus amantes conta nomes tão díspares quanto Steve Jobs e Dylan.

Foi precisamente este último quem teve a honra de “abrir” o espetáculo, através de uma das suas canções mais icónicas: 'Don't Think Twice, It's Alright'. Não foi a única que se ouviu do Nobel da Literatura, ao longo de quase duas horas de concerto; afinal de contas, Dylan «compôs as melhores canções», conforme no-lo explica Baez. Subindo ao palco para «prestar homenagem a Portugal e ao público português», a cantautora trouxe consigo temas das mais diversas épocas e quadrantes, mesmo que o mote tenha sido a apresentação de “Whistle Down the Wind”, o seu derradeiro álbum, editado no ano passado. Saímos do Coliseu a pensar que acabámos de presenciar uma enorme aula de cançonetismo, a pensar que toda a história da música está interligada, que todos aqueles poetas de outrora escolheram a sua profissão por um bem comum: o de ensinar as novas gerações, que ensinarão as subsequentes.

Primeiro a solo, depois na companhia de Dirk Powell e do seu filho, Gabriel – do qual estava grávida quando atuou em Woodstock – Joan Baez foi circulando por temas ainda hoje tão capazes de emocionar como 'Farewell, Angelina', 'It Ain't Me Babe', 'Deportee' (a qual dedicou aos emigrantes e refugiados de todo o mundo, ela que é filha de pai mexicano) ou 'Diamonds & Rust', que mereceu um dos aplausos mais efusivos da noite, da parte de um público que mal ela entrou já a estava a aplaudir de pé. Com a ajuda de Grace Stumberg, que por momentos, blasfémia!, quase soou tão grande quanto a própria Baez, interpretou 'Me and Bobby McGee', da autoria de um mago da country, Kris Kristofferson. E não escondeu um sorriso irónico ao apontar 'Hello in There' como uma canção sobre... velhos.

O grande momento – porque nos toca invariavelmente, e demasiado – aconteceria pouco depois, ao interpretar «a única canção portuguesa» que conhecia: 'Grândola, Vila Morena'. Quer dizer: ela apresentou-a, mas quem a cantou foi o público, a uma só voz, possuído pela liberdade no mesmo dia em que uma manifestação anti-fascista juntou cerca de meio milhar de pessoas no Rossio. Tornou-se quase como que um cliché ver um artista “de fora” recuperar Zeca Afonso (já muitos o fizeram, do rock à eletrónica), mas é um momento sempre pungente. Seguir-se-ia 'A Hard Rain's A-Gonna Fall', que fez sentido se pensarmos no temporal que se abateu sobre o país esta sexta-feira, e 'The President Sang Amazing Grace', canção escrita por Zoe Mulford, do tempo «em que o [seu] país tinha um Presidente a sério», no caso Barack Obama.

Até final, ainda houve espaço para muitos pedidos do público (um dos quais, 'Gracias A La Vida', de Violeta Parra, deixou para o final), para a tradicional 'The House of the Rising Sun' (conhecida por todos os roqueiros deste mundo e mais alguns) e para dois encores, primeiro com 'Imagine', de Lennon e 'Here's To You', e depois com 'Forever Young' e 'The Boxer', de Paul Simon, outro artista que se reformou recentemente. O concerto terminaria com Baez a receber, em mãos, o ramo de flores oferecido por uma fã mais extremosa. E isso nem foi a única prenda que teve esta noite: também ganhou a nossa gratidão eterna. Até sempre.

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