Situada no sudoeste da Escócia, parte de um arquipélago a que se deu o nome de Hébridas Interiores, a ilha de Jura não é de todo a primeira coisa em que pensamos quando nos vem à mente aquela nação, hoje (e, por agora, ainda) parte do Reino Unido. Antes de Jura existirão sempre os kilts, o haggis, o Old Firm, o monstro do Lago Ness, a ideia de um nevoeiro espesso e de uma chuva constante ou, até, os Jesus & Mary Chain ou os Franz Ferdinand. Aquando de um censo realizado em 2011, a ilha – a oitava maior da Escócia – contava apenas 196 habitantes, e a sua maior ou talvez única aspiração à fama reside no facto de George Orwell ter ali vivido, durante alguns anos, completando em Barnhill o clássico “1984”, hoje novamente em voga.

Porém, mais que as histórias de clãs que ainda guarda, ou as histórias de governos distópicos às quais serviu de residência, Jura encontrou o seu lugar na história da cultura pop pela mão de Bill Drummond e Jimmy Cauty, dupla que desde que se conheceu nos anos 80 tem respondido por diversos nomes, nenhum deles tão sonante como aquele que é formado por três letras apenas: KLF. Um acrónimo, poder-se-ia pensar. Ao longo dos anos, KLF foi diversas coisas: “Kopyright Liberation Front”, “Kings of the Low Frequencies” ou, até, “King Lucifer Forever”, dependendo da pessoa a quem se pergunta o que significa “KLF”. Sendo que os próprios autores sabem menos que os seus muitos intérpretes. «Ainda não sabemos o que significa», afirmavam em 1991, no auge da sua fama.

A fama, e a ideia de fama, foram sempre pedras no sapato de Drummond e Cauty, formados no fértil período pós-punk britânico. Mais tarde, foram eles próprios pedra, mas basilar, no desenvolvimento da música eletrónica de dança do Reino Unido. E foram “padrinhos” do sampling, a arte de pegar em algo já feito e construir outra coisa nova a partir daí, com um significado que pode, ou não, ser o original. O sampling é, sabe-se, o motor do hip-hop. Há quem lhe chame “roubo”, “apropriação indevida”, “falta de criatividade”. Nesses casos, importa sempre recuperar uma das mais famosas frases de Lautréamont: «O plagiato é necessário. É o progresso que o implica».

All you need is... um disco 

Foi precisamente a partir do plagiato que Drummond e Cauty começaram a trabalhar num dos projetos pop mais fascinantes do século XX, talvez não tanto pela sua música (que ainda assim resiste ao teste do tempo), mas mais pelo que representaram durante os seus poucos anos de atividade musical. Quando decidiram unir esforços, no primeiro dia do ano de 1987, já ambos tinham mergulhado no vasto e, por vezes, pantanoso mundo da indústria musical. Bill Drummond, escocês, fundou a Zoo Records em 1978, inspirado pelo punk; depois, foi agente dos Teardrop Explodes e dos Echo & The Bunnymen, editou um álbum a solo (“The Man”, de 1986), e trabalhou como A&R da WEA, hoje WMG, ou Warner Music Group. Jimmy Cauty, inglês, tocou com grupos como os Angels 1-5, Brilliant ou Zodiac Mindwarp and the Love Reaction, sem no entanto ter obtido qualquer sucesso comercial ou crítico.

A ideia de se aliarem contra a indústria – ou a favor da loucura, porque nada é certo no trabalho dos KLF – partiu de Drummond, após uma epifania provocada pelo rapper norte-americano Schooly D, “pai” do chamado gangsta rap. A dupla iria formar um projeto hip-hop intitulado The Justified Ancients of Mu Mu, lançar um disco e ver no que a coisa dava. O nome não derivava de um qualquer sonho psicotrópico ou religioso, nem era uma amálgama incoerente de palavras: foi retirado a “Illuminatus”, trilogia publicada por Robert Shea e Robert Anton Wilson nos anos 70, e inspirada pela contracultura que precedeu essa década. Sobretudo pelo discordianismo, uma religião que é uma sátira, ou uma sátira que é uma religião; o caos domina na sua visão do mundo, e o caos obriga à incerteza. Sobre o que seja.

O single de estreia dos Justified Ancients of Mu Mu, pastiche de 'All You Need Is Love', dos Beatles, não lhes forneceu o sucesso almejado, mas valeu-lhes algumas críticas positivas, mesmo que o disco em si nunca tenha sido colocado à venda por temor de que a dupla pudesse vir a ser processada por violação de direitos de autor. Obrigados a reescrevê-la sem os samples criminosos, Drummond e Cauty editaram a canção em maio de 1987, promovendo-a com recurso ao vandalismo: vários painéis publicitários, em Inglaterra, acordaram certo dia com os versos da mesma, escritos a graffiti. Um álbum, construído também à base de samples e intitulado “1987 (What the F**k is Going On?)”, sucedeu-lhe – e também ele foi retirado prontamente das prateleiras das lojas de discos, após os ABBA terem colocado Drummond e Cauty em tribunal por uso indevido de 'Dancing Queen'.

É fácil ser famoso

Talvez seja aqui – no período após a composição e subsequente retirada do mercado do seu primeiro álbum – que começa verdadeiramente a história dos KLF enquanto entidade. A dupla tornou-se popular pela sua música, mas esta nunca foi o totem pelo qual se avalia o trabalho que realizaram. A música era um meio, e não um fim, em si própria; e o que teremos que retirar dos KLF é tudo aquilo que os rodeia para além do som. Anárquicos, loucos, manipuladores: Bill Drummond e Jimmy Cauty foram tudo isso. E o primeiro exemplo de que eram manipuladores natos, situacionistas com máquinas de ritmos, surgiu ainda em 1987. Na companhia de um jornalista do NME e de um fotógrafo, os dois viajaram para a Suécia na tentativa de chegar à fala com os ABBA, explicar a um dos maiores monólitos da história da pop aquilo que de facto pretendiam ao usar 'Dancing Queen'. Esse encontro nunca se materializou e, na viagem de regresso, de barco, Drummond e Cauty lançaram às águas do Mar do Norte as cópias que tinham de “1987”, tendo queimado as restantes.

A ideia do fogo, ameaçador mas também purificador, iria permanecer na mente dos KLF durante a sua existência, e alcançaria o seu zénite mais tarde. Mas, primeiro, havia que alcançar a imortalidade. Que, no que concerne à pop mainstream, passa por vender discos. Muitos discos. Não álbuns, mas discos, objetos cujas características e/ou qualidades artísticas lhes permitem chegar às casas de milhões de pessoas por todo o mundo.

Em 1988, com recurso a um sample do tema-título da série “Doctor Who” (também ele parte da história da música eletrónica) e a um outro do hoje caído em desgraça Gary Glitter, os KLF, assinando como The Timelords, lançaram 'Doctorin' the Tardis', canção feita pelo gozo com o objetivo primário de chegar ao número um das tabelas de vendas do Reino Unido. O objetivo foi alcançado: 'Doctorin' the Tardis', e todas as suas referências a “Doctor Who”, passou exatamente uma semana no topo das tabelas, crucificado por praticamente todos os críticos (“agonizante” foi uma das expressões utilizadas para o descrever) mas amado por um público sempre predisposto a prestar atenção às obras mais insípidas desde que a dada altura tenham piada – e é exatamente isso que dá origem a fenómenos como “Crazy Frog”, o sapinho irritante do qual praticamente já ninguém se lembra ou quer lembrar.

'Doctorin' the Tardis' vendeu um milhão de cópias num país que estava prestes a entrar no “segundo verão do amor”, quando o LSD deu lugar ao Ecstasy, o rock n' roll deu lugar à música de dança eletrónica, e Woodstock deu lugar a Ibiza. E permitiu aos KLF juntar dinheiro suficiente para outros projetos, com diferentes graus de megalomania (e até melomania). Um deles foi “The Manual (How to Have a Number One the Easy Way)”, livro que explicava exatamente o que diz na capa: como compor uma canção e levá-la ao primeiro lugar das tabelas de vendas sem grande esforço, ainda que alguma criatividade e noções básicas de cultura e maneiras pop fossem necessárias. O livro pode ser, hoje em dia, um artefacto histórico – porque já não é assim tão difícil chegar a número um, até porque já raramente se compram discos – mas serviu de inspiração a ex-queridos do indie como os Klaxons, que em 2007 colocaram 'Golden Skans' nos ouvidos de (quase) todos.

Dança, dança, dança

Com um grande sucesso, vem uma grande responsabilidade. Abandonando o hip-hop em nome das então emergentes raves, Drummond e Cauty viraram-se para a música eletrónica de dança, sobretudo para o house e o trance ainda em gestação. Apelidando tais registos de “Pure Trance”, os (agora sim) KLF editaram 'What Time Is Love?' e '3 A.M. Eternal', temas que remisturariam, regravariam, recriariam ao longo dos anos seguintes, e que se tornaram êxitos por discotecas de toda a Europa. E também nas raves, evidentemente. Em 1989, a dupla atuou num destes eventos, em Oxfordshire, lançando as mil libras do seu cachet (em forma de notas de uma libra) ao público. A mensagem contida em cada nota: “amamos-vos, crianças”.

Nem Drummond nem Cauty mostraram, em qualquer altura, ter grande apego pelo papel-moeda. Ao contrário do que diz o guião da pop, o que ganharam não foi gasto em grandes casarões, carros, roupas, objetos de luxo. O sucesso não era para os KLF uma marca de qualidade. Era o que faziam artisticamente com esse sucesso o que importava. 'Doctorin' the Tardis', 'What Time Is Love?' e '3 A.M. Eternal' permitiram-lhes gastar 250 mil libras na criação de “The White Room”, filme não editado que os mostra numa viagem sem palavras por Espanha e pelo Reino Unido, a bordo de um antigo Ford Galaxie, o carro de Cauty que figura na capa de 'Doctorin' the Tardis' e que outrora serviu a polícia norte-americana. Por não se importarem com o dinheiro, a falência esteve à espreita, e nem a nova tentativa de atingir o topo das tabelas, 'Kylie Said to Jason', os conseguiu salvar.

Valeram-lhes as discotecas e todos os DJs da Europa, que colocavam 'What Time Is Love?' ao lado de hoje clássicos como 'Sueño Latino' ou 'Pacific State'. E, se os DJs o diziam – isto é, se os colocavam nas suas playlists e transformavam as noites dos jovens de então –, então só poderia ser verdade: os KLF soavam melhor virados para a dança. 'Last Train to Trancentral', novo registo da série “Pure Trance”, surgiu em 1990, no mesmo ano da sua obra-maior no que a LPs diz respeito: “Chill Out”.

Construído a partir de samples, e tendo como pano de fundo uma viagem imaginária pelos Estados Unidos, com referências a Elvis e aos néones noturnos e ao nascer do sol numa qualquer pradaria, “Chill Out” era o disco perfeito para o período pós-rave quando, esgotados pela dança e pelas drogas, os fiéis desta religião eletrónica procuravam um espaço onde pudessem descansar e recuperar as suas energias após horas e horas de beats e movimentos de pernas. O conceito de “música ambiente” já tinha anos – foi Brian Eno o seu mentor – mas “Chill Out” parece sobrepor-se a todas essas experiências, passadas e presentes. Música não para respirar, mas para sonhar, dona de um psicadelismo sobretudo britânico, longe do ácido e do Vietname americanos. É hoje clássico e objeto de culto. E surgiu numa altura em que os KLF se preparavam para voltar a aumentar o volume e a parada.

O auge e o terror

Ainda em 1990, 'It's Grim Up North' recuperava o moniker The Justified Ancients of Mu Mu', estrondoso exemplar de techno industrial cuja letra mais não era uma lista de várias localidades a norte do Reino Unido (lá como cá, o “Norte” como sinónimo de um cinzento chuvoso e de fábricas a perder de vista). E, nesse mesmo ano, os KLF davam início à sua própria retromania, fechando o círculo do seu próprio métier: os seus novos singles mais não seriam que reconstruções dos temas já editados, dando à eletrónica de dança uma produção pop/rock. Como se essa música quisesse abandonar o negrume das discotecas para passar a ser escutada, e apreciada, em estádios. Como, portanto, acontece hoje em dia, com todos os DJs de renome a apresentarem espetáculos pomposos, estrelas pop de seu pleno direito.

'What Time Is Love?', '3 A.M. Eternal' e 'Last Train to Trancentral' ganharam, assim, uma nova vida – desta feita com a ajuda de divas soul, rappers pouco conhecidos e, até, de Glenn Hughes, antiga voz dos Deep Purple. Mais tarde, Hughes reconheceria que o seu trabalho em 'America: What Time Is Love?', junção do tema original com um riff dos Motörhead e uma batida techno, lhe salvou a vida, numa altura em que estava a braços com problemas de dependência de drogas. E o sucesso regressou: os KLF foram, em 1991, o grupo com mais singles vendidos por todo o mundo (isto num ano em que “explodiram” uns tais de Nirvana). Um sucesso que lhes abriu as portas de uma indústria que se alimenta, rapace, de tudo o que soe comercializável. Drummond e Cauty passaram, nesta altura, a assinar também remisturas de temas de artistas já consagrados como os Depeche Mode ou os Pet Shop Boys.

Mas há uma altura em que o sucesso pode engolir até mesmo quem se julgava imune aos seus encantos e desencantos. Os KLF viam-se saltitando de ideia em ideia, sem um rumo definido para aquilo que queriam, quanto mais para o que queriam fazer. Uma delas envolvia os Extreme Noise Terror, grupo que ajudou a disseminar o grindore, fusão extrema de punk com heavy metal, e escolha nada óbvia quando se é um grupo pop (manipulação, uma vez mais: um encontro destes resulta em mais atenção mediática que um dito “normal”). O álbum que resultaria da colaboração entre ambos, “The Black Room”, foi colocado na gaveta, não sem antes ter sido descrito por quem ouviu as sessões de gravação como “brilhante” e uma espécie de “Megadeth com máquinas de ritmos”.

Dessas sessões restou apenas a versão que os KLF e os Extreme Noise Terror fizeram de '3 A.M. Eternal', transformada de clássico house para clássico thrash. A mesma que, em 1992, apresentaram nos Brit Awards desse ano. O equivalente britânico aos Grammys, que todos os anos homenageia o que de melhor se faz na música do Reino Unido, não poderia sequer imaginar o que significaria a presença de Drummond e Cauty em palco; imaginar-se-ia que se limitariam a interpretar um dos seus êxitos e a aceitar o prémio para Melhor Grupo Britânico com um sorriso nos lábios e o tradicional agradecimento a Deus e à família. 

Puro engano. De kilt e metralhadora em punho, charuto na boca, Drummond, acompanhado por Cauty e pelos Extreme Noise Terror, espalhou o pânico no icónico Hammersmith Apollo ao despejar uma saraivada de cartuchos (sem as balas) sobre as cabeças de uma audiência insuspeita, antes de uma voz off anunciar que os KLF tinham, com aquela performance, abandonado a indústria musical. As reações não se fizeram esperar. Trevor Horn, mago da pop dos anos 80, descreveu a prestação dos dois grupos como “lamentável”. O maestro Georg Solti chegou a ameaçar abandonar a sala. E os jornalistas encarregues de noticiar o sucedido utilizaram palavras como “patético”. Mal sabiam eles das intenções originais de Drummond: serrar a sua própria mão (ideia riscada por motivos óbvios), despejar sangue sobre o público (ideia riscada pela BBC) ou desmembrar o cadáver de uma ovelha, em palco (ideia riscada pelos vegetarianos Extreme Noise Terror). O cadáver, no entanto, apareceria mais tarde no exterior do Hammersmith Apollo, com a mensagem “morri por vós – bom apetite”.

A banda que queimou um milhão de libras

A ovelha era um símbolo dos próprios KLF, figurando na capa de “Chill Out” e representando uma certa ideia de bucolismo britânico aliado ao espírito rave: estes eventos realizavam-se, sobretudo, longe das cidades, e uma das primeiras coisas com que um raver insuspeito se depararia pela manhã seria um animal de campo. O cadáver representava, assim, a morte do projeto, se bem que ninguém se tenha interessado pela declaração final. Não era possível que um grupo como os KLF abandonasse a música após ter tido o melhor ano da sua carreira. Era um ato incompreensível, como o foi a decisão de apagar todo o seu catálogo, impedindo reedições futuras; toda a música dos KLF, desde 1992 até ao primeiro dia de 2021, existia apenas em formato bootleg, pirateado e disseminado pelos fãs que deixaram.

Mas “incompreensível” talvez seja uma palavra demasiado branda para descrever a sua saída da indústria. As justificações abundaram. Os KLF estavam ou aborrecidos, ou deslumbrados, ou sem saber para onde partir a seguir. Ou Bill Drummond estava à beira de um colapso nervoso. Ou tudo não passava de uma nova partida, e dentro em breve se voltariam a ouvir canções compostas pela dupla. “Incompreensível”, porque a despedida final de Drummond e Cauty dos holofotes da fama surgiu sob uma forma que ainda o foi mais, merecedora de repúdio, nojo ou fúria.

Finda a sua atividade musical, os KLF criaram um novo projeto, a K Foundation, fundação virada para as belas artes, e através da qual criaram um “prémio” para o “pior artista do ano”. Foi sob essa designação que, na ilha de Jura, Drummond e Cauty cometeram o maior dos seus atos de manipulação mediática: queimando um milhão de libras em notas.

Registado para a posteridade, em vídeo, o ato foi apontado a diversas alturas como “tresloucado” ou “indecente”, quando não descrito com recurso ao calão. Alan Moore, o autor de “V de Vingança” ou “Watchmen”, descreveu-o como “mágico”. Mas o público em geral, alheio às grandes questões burguesas da arte, só tinha uma pergunta a fazer: com tanta gente a morrer à fome no mundo, com tanta pobreza ainda nas ruas, como é que estes gajos se atreveram a deitar fogo a um milhão de libras? 

Nem Drummond nem Cauty o souberam responder – não então, e não nos anos subsequentes, chegando mesmo a proibir-se de comentar o assunto durante 23 anos, sendo que o número 23 é também uma referência a “Illuminatus!”. Foi uma performance artística, uma cerimónia pagã, a destruição da forma-valor como definida por Marx? Mas a pergunta que poderemos fazer, enquanto sociedade, não é, no, entanto, “porquê?” e sim “porque não?”. Se permitimos que as grandes estrelas e os grandes multimilionários acumulem riqueza e a gastem da forma que bem entenderem, porque não lhes permitimos que a queimem?

Do alto desta pirâmide

O fogo marcaria para sempre a vida dos KLF. Amigos próximos contam que, nas semanas e meses após o ato, a dupla estava “irreconhecível”. Mas a história tratou de esconder essa página na carreira de ambos, e em 1997 – já depois de um par de singles em nome da paz, e com outros nomes – os KLF regressaram por uma noite apenas, sob a designação 2K, dando um espetáculo de 23 minutos com recurso a versões para sopros dos seus êxitos e apresentando-se como dois idosos em cadeiras de rodas – uma homenagem satírica a todos os grupos “de velhos” que voltam aos palcos para acumular mais algum dinheiro nas suas contas bancárias, como aliás os Sex Pistols, que marcaram a vida de Drummond e Cauty, fizeram em 1996.

Seguiu-se o silêncio. Até que, em 2017, Drummond e Cauty voltaram ao ativo para um festival intitulado “Welcome to the Dark Ages”, em Liverpool, onde anunciaram o seu plano de construir uma pirâmide com tijolos criados a partir das cinzas dos mortos (os interessados podem pagar pelo seu próprio tijolo, que só existirá quando falecerem), chamando-lhe “A Pirâmide do Povo”. Um novo livro, “2023: A Trilogy”, repleto de referências à cultura pop do presente, também foi editado. O regresso foi recebido com algum entusiasmo, e uma entrevista de Cauty à BBC mostrou que a dupla não perdeu o seu espírito anárquico: «é muito interessante estar numa banda que não produz discos, mas que constrói pirâmides a partir de gente morta».

Ainda assim, algo faltava: a música, a mesma entidade que os apaixonou ao ponto de a quererem fazer, a mesma que apaixonou os tantos que os escutaram. Nem um nem outro cessaram as suas atividades próprias nesse campo artístico, mas enquanto KLF não mais deram sinais de vida. Até ao passado dia 1, quando Drummond e Cauty disponibilizaram, pela primeira vez, as suas canções nos serviços de streaming, e os vários videoclips que realizaram no YouTube. “Solid State Logik 1” reúne os grandes clássicos dos KLF, de 'Doctorin' the Tardis' a 'What Time Is Love?', de '3 A.M. Eternal' a 'It's Grim Up North', numa compilação cujo único anúncio prévio foi um graffiti debaixo de uma ponte em Shoreditch, Londres.

Não será, segundo o que se sabe, um suspiro nostálgico; este é apenas o primeiro tomo de seis compilações previstas, sendo que estão prometidos alguns inéditos. “The Black Room” poderá, quem sabe, vir finalmente a conhecer a luz do dia. E, no entanto, o regresso laudatório dos KLF a um mundo pop que ajudaram a criar poderá esconder uma outra, ou várias, questões. Que quererão eles, desta feita? Que incêndios estão ainda por atiçar? Porquê o regresso a uma indústria musical hoje moribunda, onde o streaming é senhor dos destinos dos melómanos? Numa altura em que a pandemia levou a quedas brutais na economia mundial, faz algum sentido prestar atenção a dois homens que deitaram fogo a um milhão de libras? Numa altura em que as fake news estão na ordem do dia, devemos dar palco a uma dupla de manipuladores mediáticos natos? Ainda não sabemos. Mas, conhecendo os KLF como os conhecemos, podemos afirmar que o que quer que aconteça irá ser espetacular.

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