Trata-se do primeiro volume de uma coleção que a editora PIM! vai lançar até final do ano, dedicada a Reinaldo Ferreira, o mítico Repórter X, que teve uma única publicação em livro, em 1919, não sendo reeditado desde então, diz a editora.

A história desta história começa a 11 de junho de 1917, quando a edição da noite do diário “O Século” publicou na primeira página uma carta assinada por um lisboeta de nome Gil Góis - na verdade pseudónimo de Reinaldo Ferreira - a dar conta de um “facto misterioso” que testemunhara na madrugada anterior.

“Três homens completamente embuçados saíam de um velho prédio desabitado que há na Rua Saraiva de Carvalho, transportando, com a dificuldade que denuncia o peso, um grosso volume de forma humana embrulhado em panos”, lia-se na carta.

Este Gil Góis apresentava-se como um detetive amador que escrevia cartas ao diretor do jornal para denunciar “Os Mistérios da Rua Saraiva de Carvalho”, relatos assustadores de um crime que envolvia homens dissimulados, um presumível cadáver e um vilão de “olhos tortos”.

Os leitores aderiram em massa àquela narrativa, que não sabiam se era real ou inventada, e que, durante seis meses, alimentou teorias e fez esgotar tiragens.

Este folhetim foi o primeiro a sair da pena de Reinaldo Ferreira, então com apenas 19 anos e muito longe ainda de se transformar no “célebre” Repórter X.

Esta edição agora lançada pela PIM! reproduz integralmente o texto impresso nas páginas de “O Século” da noite e inclui uma introdução de Joel Lima, especialista na obra do Repórter X, que contextualiza o autor e a obra no tempo, revela a editora.

Este é o primeiro volume daquela que será “a primeira coleção sistemática dedicada ao pioneiro português do romance policial”, toda ela com introduções de Joel Lima, ilustrações iconográficas de época e capas desenhadas pelo ilustrador Nuno Saraiva.

Nascido em Lisboa a 10 de agosto de 1897, Reinaldo Ferreira começou a carreira jornalística aos 12 anos, tendo ingressado na redação do jornal “A Capital” em 1914 e revelando desde cedo propensão para o insólito.

Viveu um ano em Paris, em 1919, antes de se radicar em Espanha, onde além do jornalismo e da ficção desenvolveu também a faceta de realizador de cinema.

Foi em 1924, em rota de colisão com o regime de Primo Rivera, devido a um artigo que escreveu sobre este líder da extrema-direita espanhola e que o obrigou a regressar a Portugal para ser não preso, que surgiu o nome que o consagraria: Repórter X.

Na verdade, o pseudónimo criado inicialmente para se proteger acabaria reduzido a um X devido a uma gralha tipográfica, passando Reinaldo Ferreira a assinar os textos “mais sensacionais” da sua carreira com o nome Repórter X.

Durante o seu percurso, tanto fez cobertura de crimes, como o assassinato da atriz Maria Alves, estrangulada num táxi e lançada numa sarjeta, cujas reportagens ajudariam a apanhar o homicida, como fez também coberturas, que ficaram famosas, de diversos escândalos financeiros.

Mas a sua imaginação “delirante”, em muito alimentada pelo consumo de morfina em que era viciado, levou-o a enviar reportagens da Rússia – sobre a luta pelo poder entre Trotsky e Estaline, ou sobre portugueses que conhecia, como o porteiro do Kremlin ou o homem que embalsamou Lenine -, sem nunca ter saído de Paris.

Entre as mais famosas histórias que imaginou e publicou contam-se entrevistas à espia Mata Hari e ao criador de Sherlock Holmes, Conan Doyle, bem como previsões que fez para as cidades de Lisboa e Porto no ano 2000.

As suas narrativas começaram a ser apelidadas de “reinaldices”, a que o jornalista contrapunha com o neologismo “reporterxizar”.

Movimentando-se sempre entre a realidade e a ficção, Reinaldo Ferreira nunca deixou de trabalhar em jornais, tendo o “Primeiro de Janeiro” publicado o seu folhetim “O Táxi nº 9.297”, baseado no assassinato de Maria Alves, e que foi levado primeiro ao teatro, depois ao cinema – dirigido pelo próprio – e finalmente publicado em livro, já em 1974, por iniciativa de Natália Correia.

Reinaldo Ferreira publicou em 1933 o primeiro volume das “Memórias de um Ex-Morfinómano”, numa altura em que tinha abandonado o vício, mas acabou por reincidir e o velho hábito destruiu o que lhe restava da saúde débil e ditou-lhe a morte aos 38 anos.

Até ao fim do ano, a PIM! vai ainda recuperar “títulos raros e inéditos”: “O Groom do Ritz” (conjunto de três novelas sequenciais não reeditadas desde 1926), “As Sensacionais Aventuras de Jim-Joyce, o Ás dos Detetives Americanos” (publicadas em fascículos no Brasil, por volta de 1924, mas inéditas em Portugal) e “As Aventuras do Repórter X no País dos Sovietes” (reportagem da União Soviética, em 1925, inédita em livro)”.

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