É de arriscar que já todos um dia nos olhámos ao espelho e definimos aquilo que é "normal" ou "anormal", "aceitável" ou "estranho", e "bonito" ou "feio". Os estereotipos são regra não escrita que paira sobre todos e as mulheres são especialmente visadas nessa ditadura que não se vê mas que se sente.

Marcas como a Misplaced e a Dama de Copas viram aqui uma oportunidade de fazer diferente com propostas que desafiam os cânones da beleza ideal e padronizada. O conceito das duas marcas é diferente, mas o objetivo é o mesmo: ajudar as mulheres a viverem bem com o seu corpo. Uma ideia batizada como body positivity.

Misplaced: "Tive dias em que disse que não ia à praia porque detestava o meu aspeto"

Com estrias, sinais, curvas ou abdominais, o que é afinal ter um corpo de verão, tema que todos os anos, por esta altura, ganha espaço na publicidade e nas conversas de amigos? "É pegar no corpo, vestir um biquíni e ir à praia”, responde Carolina Galvão, fotógrafa e co-criadora da Misplaced, uma marca feita de mulheres para mulheres, que quer mostrar que, independentemente do tipo de corpo que tenha, o que importa é que se sinta bem num bíquini.

The Next Big Idea - Misplaced 1

A marca, que nasceu em 2020, durante o primeiro confinamento, começou por vender máscaras. Contudo, a verdadeira intenção era criar um produto que valorizasse o corpo e que fosse contra os padrões impostos pela sociedade, em especial às mulheres, pegando no que era considerado “imperfeito” e destacando-o como sendo aquilo que nos torna únicos.

Foi assim que Carolina Galvão e Ana Rodrigues decidiram aventurar-se pelo mundo do swimwear e nasceu o conceito da marca Misplaced. Que, neste caso, não é traduzido à letra. Isto é: não significa “não se encaixar”, mas sim ser inigualável. “A palavra 'misplaced' tem por si uma conotação negativa e quisemos torná-la numa coisa positiva. Para nós estar 'fora do sítio' significa que és único e que te destacas”, explica Carolina.

A coleção, oficialmente disponível no website da marca, é composta por 4 peças: 2 tipos de cuecas, um top e um fato de banho – em duas cores e num padrão original criado pela designer de moda e co-criadora da Misplaced, Ana Rodrigues. Todas estas peças são feitas à mão, com tecido regenerado a partir de lixo, e cada uma recebe o nome de uma deusa romana, incorporando o espírito de poder feminino: um dos valores basilares da marca.

The Next Big Idea - Misplaced 2

"Eu já tive dias em que disse que não ia à praia porque detestava o meu aspeto", conta Carolina Galvão. O facto de as criadoras terem preconceitos com o próprio corpo fez com que atribuíssem palavras positivas aos tamanhos de cada uma das suas criações. Assim, o S passa a ser Striking (Impressionante), o M torna-se Marvelous (Maravilhosa), o L corresponde a Lovely (Encantadora) e o XL diz respeito a Gorgeous (Linda).

Para as criadoras da Misplaced, body positivity é um caminho de aceitação e crescimento que ainda estão a percorrer. "Mesmo para nós que criámos a marca e queremos ter estes valores, é uma aprendizagem. Há momentos de confiança mais alta, há momentos de confiança mais baixa. Eu ainda não gosto totalmente do meu corpo", confessa Carolina. Ana Rodrigues acrescenta ainda que “temos de aceitar como somos, fazermos os possíveis para estarmos bem connosco próprios e esquecer o que a sociedade diz porque a verdade é que os padrões da sociedade estão sempre a mudar”.

Dama de Copas: "A indústria de lingerie muitas vezes trata dos sutiãs como se fossem t-shirts"

Quando se usa uma copa B ou C, ou quando se tem umas costas de largura 34 ou 36 é fácil encontrar um sutiã adequado. Mas e quando não se tem estas medidas? É aqui que surge uma marca como a Dama de Copas, que oferece mais de 100 tamanhos (copas A, B, C, D, DD, E, FF, G, GG, H, HH, J, JJ e K e largura de costas do 28 ao 46). E foi a partir da premissa de que a falha não está nos corpos das mulheres, mas sim na falta de oferta do mercado que, há 11 anos, as polacas Inês Basek e Margarid Furst começaram a desenhar a ideia da marca.

"90% das mulheres não usa o sutiã adequado", refere Inês, que acrescenta que "os corpos das mulheres são bastante diferentes em termos de volume da mama, largura de costas e estrutura do corpo". A co-fundadora da Dama de Copas explica que esta loja surgiu para dar resposta a uma "lacuna de conhecimento e de abordagem" e ironiza mesmo com a frase: "a indústria de lingerie muitas vezes trata dos sutiãs como se fossem t-shirts".

The Next Big Idea - Dama de Copas 1

Nas lojas da Dama de Copas, escolher um sutiã tem em conta não só a preocupação de saúde, mas também a estética – algo que nem sempre acontece. Muitas das outras marcas só têm opções básicas, com cores neutras e formatos simples quando se trata de vender um sutiã maior ou menor do que aquilo que se costuma considerar "normal". Aqui, afirma Inês, as mulheres "podem usar uma peça de lingerie que é o seu tamanho e que é bonita e sexy, e a autoestima vai para cima". Muitas vezes a loja usa as suas colaboradoras para as sessões de fotos, conseguindo assim "mostrar um catálogo de produtos com mulheres reais e não modelos com corpos perfeitos".

Mas as clientes da Dama de Copas não encontram o tamanho certo sozinhas. Para comprar é preciso passar pelo processo de bra fitting. Ao entrar na loja decorada ao estilo vintage, a cliente é recebida por uma colaboradora especializada em consultoria de lingerie, que observa o seu peito, tira as suas medidas e ouve a sua história para perceber qual o tamanho e modelo de sutiã adequados. "Se uma mulher não quer passar por este processo e ser aconselhada, nós não vendemos", esclarece Inês Basek, que explica também que foi precisamente isto que mudou todo o paradigma daquilo que é uma loja de lingerie.

The Next Big Idea - Dama de Copas 2

Com a pandemia e as lojas fechadas, surgiram os entraves óbvios e este tipo de atendimento, mas nem por isso a Dama de Copas parou de aconselhar as suas clientes. O fitting online já existia antes da pandemia, pelo facto de ainda não haver lojas em todos os pontos do país. É através de um formulário de perguntas, com a indicação de medidas e algumas fotos do tronco, que quem quer comprar um sutiã pode fazê-lo de forma não presencial. E não é preciso escolher o tamanho e pagar de imediato, pois todos os formulários são devidamente analisados e só depois é que a cliente é notificada para comprar.

Neste momento, já existem pontos de venda físicos em Lisboa (Alvalade, Campo de Ourique, Saldanha e Benfica), no Porto (na Baixa e na Boavista), em Leiria, em Braga e em Faro. A marca já está também presente em Espanha, em Madrid, Barcelona e Valência.

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