Aqui no alto, vê-se o rio de cima. Na água, que bate forte num dia que ameaça chuva, vão correndo uns poucos barcos. À beira do cais, na Ribeira, um homem passa o convés de um à mangueira. Do lado de lá, em Gaia, uma mão cheia de navios ainda dorme lentamente a manhã.

No quarto piso de um velho prédio na rua da Reboleira, no coração da zona histórica do Porto, ainda se vão ultimando os detalhes do novo museu que quer contar a história da relação desta cidade com este rio, a partir do fruto que a união de ambos deu ao mundo: o vinho do Porto.

O novo Museu do Vinho do Porto, que inaugura no próximo dia 5 de março, é uma iteração diferente da versão que esteve instalada desde 2004 no Armazém do Cais Novo, na zona de Massarelos. A diferença na disposição do espaço (que se muda de um rés-do-chão amplo para uns estreitos seis pisos), foi uma oportunidade para mudar a abordagem. Agora, o fio condutor é a história do controlo e circulação dos comestíveis na cidade.

Não se pense, porém, que é um museu para burocratas. O espólio para aqui trazido foi buscar peças da coleção municipal, que vão desde maquetas de barcos a aparelhos de metrologia e aferição. Mas também documentos, pintura, escultura e mobiliário.

As peças são todas da autarquia portuense e estavam espalhadas por vários lugares: o Museu Soares dos Reis, a Biblioteca Pública, as reservas da câmara. Agora, reunidos, contam a história de como o comércio e produção do vinho do Porto levou ao estabelecimento de controlos e vistorias que asseguravam a fiabilidade do produto — que leva o nome da cidade pespegado no rótulo.

“O rio entra pelo espaço dentro”, diz Inês Pereira, chefe da divisão dos museus no Porto. O prédio, numa estreita rua da Ribeira, estava abandonado e foi agora aproveitado para acolher uma nova abordagem à história do vinho e do Porto. Uma abordagem que, diz a responsável da autarquia, pretende ser um complemento às que já existem, quer no lado norte do rio, quer na margem sul, em Vila Nova de Gaia.

E a abordagem que daqui sai é uma história mais administrativa: o papel do município, enquanto entidade, na história do vinho do Porto; e o papel do vinho do Porto no desenvolvimento da cidade. É nos cruzamentos destas duas vidas que está o museu.

Por isso, logo no primeiro piso, falamos de barcos. Os esquemas e maquetas de barcos contam a história do transporte do vinho no Douro. Os desenhos, à pena e a lápis, nunca estiveram expostos antes. As maquetas, construídas nos anos 1960, já eram conhecidas, mas ganham um novo pouso.

Acima, vem a aferição. Parte da grande coleção de metrologia (instrumentos de medição e vistoria) da autarquia vai agora aqui ficar, em expositores que, diz Manuel Antunes, da equipa de conservadores dos museus municipais do Porto, foram desenhados como caixas de joias.

E de boas caixas precisam estas joias. É que a história não é fácil de contar: os instrumentos “eram usados até desfazer”, conta Manuel Antunes. Para além disso, não havia o cuidado de preservar exemplares. Ainda assim, os aferidores mais antigos vieram do Museu Soares dos Reis e datam do reino de D. João V (o mesmo que mandou construir o Palácio Nacional de Mafra, há três séculos).

E, por isso, estes elementos contam uma “história tardia” do controlo municipal sobre as provisões que entravam na cidade. Ainda assim, alguns elementos, como um livro de acórdãos de 1787, deixam ver como eram reguladas horas de circulação e preços de frete, por exemplo.

O novo espaço põe-se a olhar, assim, para o Poder Local e o seu papel na regulação do comércio de vinho — sobretudo o do Porto. E fá-lo através dos olhos de três oficiais municipais: os vereadores, os almotacés e os aferidores. Estas pessoas eram responsáveis pela obtenção, armazenamento e distribuição de bens, mas também a decisão e fiscalização sobre coisas como categorias, modalidade de venda, locais de descarga e venda, transportes, circulação, higiene, vendedores e vendedeiras, vasilhas, padrões de medidas e tabelamento de preços.

Mudar de casa foi uma oportunidade para mudar de perspetiva. A que agora se inaugura foi proposta por Manuel Antunes a partir de uma cadeira que teve na faculdade, em 1977. E foi possível graças ao espólio da autarquia. Deste modo, sublinha Manuel, é possível ter um museu municipal, com peças municipais, sem depósitos particulares.

E todo esse espólio e estudo vai além dos dois séculos e meio de história do Vinho do Porto. Esse vinho com o nome da cidade entra a par da história do território, mas não é o único. Pelo Porto passavam vinhos de todo o lado — do Douro a Colares.

Nova casa, novas valências

A mudança para o edifício onde em tempos funcionou o CRAT — Centro Regional de Artes Tradicionais — e agora remodelado pelo arquiteto Camilo Rebelo, foi, segundo a empresa municipal Go Porto, iniciada em 2016 e “representa um investimento superior a 128 mil euros”, e também uma mudança de abordagem.

Para isso, surge, do outro lado da mesma rua, um outro espaço, no rés-do-chão de outro prédio. Nesse polo serão dinamizadas oficinas e formações e acolhidas exposições temporárias.

A primeira oficina está já marcada para o dia 10 de março. Às 11h, as famílias serão recebidas para falar de vinho: e para sensibilizar para as tradições que lhe estão associadas, das vindimas às celebrações, afirma Liliana Pereira, coordenadora do museu. A oficina será gratuita, mas de inscrição prévia obrigatória.

Depois dela, todos os fins de semana de abril estão já ocupados com atividades, para famílias, mas também para outros públicos, revela. Durante a semana, a agenda também já vai ficando composta, diz a coordenadora: várias escolas estão interessadas em visitar este novo pólo do Museu da Cidade; escolas do Minho a Lisboa, conta.

Com largas aberturas para o rio, nos pisos fundeiros do edifício principal, vai nascer um ‘wine bar’, literalmente, um bar de vinhos. Aqui, os visitantes poderão experimentar vários vinhos, pondo em prática aquilo que se aprende nos outros andares.

Amparado pela muralha fernandina, a cave do edifício será uma sala reservada para eventos mais privados. Com um interessante projeto cénico que une o betão, a pedra e o vidro das garrafas, esta área de armazenamento e degustação resume em poucos metros quadrados e escasso pé-direito aquilo que é o Porto (a cidade) — o velho, o novo e a harmonia de unir os dois.

Inicialmente, o ‘wine bar’ será explorado por uma entidade contratada por ajuste direto, no entanto, o objetivo será apenas testar o conceito; depois disso, explica Sofia Alves, da autarquia, serão seguidos os procedimentos normais para escolher o concessionário dos dois pisos inferiores do edifício.

O novo Museu do Vinho do Porto, no número 35 da Rua da Reboleira, no Porto, é inaugurado no dia 5 de março e estará aberto de terça a domingo, das 10h às 17h30.

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