O British Council - instituição pública responsável por promover a língua e a cultura inglesas a nível internacional - revelou recentemente que encomendou, em 1946, um ensaio a George Orwell sobre a temática da cozinha britânica.

A revelação foi feita depois da descoberta recente de uma carta nos arquivos da organização que demonstra que o ensaio, escrito pelo autor de clássicos da literatura como “1984” e “Triunfo dos Porcos”, acabou por ser rejeitado.

A justificação teve como base o receio de que este texto, chamado “British Cookery”, pudesse ser mal recebido num momento em que a Europa continental se encontrava em período de racionamento alimentar depois da Segunda Guerra Mundial.

Admitindo tratar-se de um “bom ensaio”, o departamento de publicação do British Council mostrou “dúvidas quanto a este tratamento do difícil tema da comida nestes tempos”, pelo que considerou “insensato e infeliz publicá-lo ao leitor continental”, lê-se na missiva enviada a Orwell.

O escritor acabaria por publicar o texto numa versão reduzida no jornal Evening Standard, mas o British Council acaba de publicar a versão original no seu website, 73 anos depois.

Segundo Alasdair Donaldson, editor e analista sénior na instituição britânica citado pelo jornal The Guardian, o British Council “está encantado por compensar a sua falha quanto àquele que é possivelmente o maior escritor político do Reino Unido do século XX, ao reproduzir o ensaio original completo”.

Em relação à política do British Council no pós-guerra, Donaldson disse que “parece que a organização naqueles dias parecia ter pouco sentido de humor e ser avessa ao risco, ansiosa por evitar que se criasse um ensaio sobre comida no rescaldo do inverno faminto de 1945”.

A cozinha britânica, por Orwell

No ensaio, o autor escreve sobre a gastronomia britânica com o seu estilo característico, descrevendo-a como “simples, algo pesada, talvez ligeiramente bárbara”, considerando que a sua grande virtude advém da “excelência da matéria-prima local, e do seu foco principal no açúcar e nas gorduras animais”.

Orwell descreve a dieta britânica como sendo a de um “país nórdico e chuvoso”, onde “a manteiga é abundante e os óleos vegetais escassos”, onde “todas as especiarias e algumas das ervas mais fortes são produtos exóticos” para um povo que “prefere coisas doces a coisas condimentadas e que combina açúcar com carne de uma forma raramente vista noutros sítios”.

O escritor recorda ainda as “formas especificamente britânicas de cozinhar batatas” e admite que, fora este tubérculo, os vegetais “raramente recebem o tratamento devido” de um povo que “não é um grande apreciador de saladas”.

Apesar da postura honesta e, a espaços, crítica da gastronomia do Reino Unido, Orwell defende que ninguém pode “dar uma apreciação justa à cozinha britânica” sem ter provado pratos e iguarias típicas como queijo Stilton, crumpets [espécie de biscoitos], bolos de açafrão, pudins de carne e rins ou rosbife com pudim do Yorkshire, batatas assadas e molho de rábano silvestre.

Sendo um território onde “bebidas quentes são aceitáveis na maior parte do dia”, Orwell critica o café britânico, que é ”quase sempre mau”, mas elogia o chá: apesar de a "maioria das pessoas", beberem frequentemente café, "não têm interesse" nele e "não sabem distinguir bom de mau café”. Já quanto ao chá, “toda a gente tem a sua marca favorita e a sua teoria de estimação de como é que deve ser preparado”.

Lembrando ainda que, para os britânicos, o pequeno-almoço “não é um snack, mas sim uma refeição séria”, constituída por três pratos, o escritor refere a presença da marmelada de laranja como algo que surge sempre de manhã, sendo que “outros tipos de geleia raramente são comidos ao pequeno-almoço, e a marmelada não surge com frequência noutras alturas do dia”.

Talvez pela importância que dava à marmelada de laranja, Orwell incluiu ainda uma receita no ensaio. Esta contudo, não foi bem recebida pelos editores em 1946, que a consideraram uma “má receita” por ter “demasiado açúcar e água”.

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