PREFÁCIO

No início de 1509, o jovem artista Rafael Sanzio (1483‑1520) começou a pintar uma série de frescos nas paredes da biblioteca privada do papa Júlio II, bem no interior do Vaticano. Ao lado, na Capela Sistina, o grande rival de Rafael, Miguel Ângelo, equilibrado em cima de um enorme andaime a dezenas de metros de altura, pintava no teto uma imagem monumental de Deus a dar vida a Adão. A Renascença ia de vento em popa em Roma e, sob o patrocínio do papa Júlio, a grande cidade era devolvida à glória do seu antigo passado imperial. Os frescos de Rafael nas quatro paredes da Stanza della Segnatura ilustravam as quatro categorias de livros emprateleirados debaixo deles: teologia, filosofia, direito e poesia. No fresco da filosofia, a que chamamos, agora, A Escola de Atenas (1), Rafael pintou três arcos abobadados que se afastam na distância com estátuas dos deuses romanos Minerva e Apolo de cada lado e largos degraus de mármore que descem para um chão coberto geometricamente de azulejos (2). A arquitetura é sem dúvida romana – arrojada, imperiosa, monumental –, mas a cultura e as ideias representadas pelas cinquenta e oito figuras cuidadosamente agrupadas na pintura são, enfaticamente e quase sem exceção, gregas; é uma celebração da redescoberta de ideias antigas que foi fundamental para o milieu intelectual da Roma do século XVI. Platão e Aristóteles estão de pé rigorosamente ao centro, sob um arco enorme, recortados no céu azul para que Platão aponta, enquanto Aristóteles faz um gesto em direção à terra, representando as respetivas tendências filosóficas – a preocupação do primeiro com o ideal e o divino, e a determinação do segundo de compreender o mundo físico que o rodeava. O âmbito completo da filosofia antiga tal como herdada pelo humanismo italiano é dado triunfalmente num colorido brilhante.

Ninguém sabe quem são as outras figuras do fresco, e a discussão acerca da sua identidade mantém os intelectuais ocupados há séculos. A maioria das pessoas concorda que o homem calvo à frente, à direita, a demonstrar a teoria geométrica com um compasso, é Euclides (3) , enquanto o homem coroado a seguir a ele, com um globo na mão, é certamente Ptolomeu, que nessa altura era de longe mais famoso pela sua obra na geografia do que na astronomia (4). Todas as figuras identificadas viveram no mundo antigo, pelo menos mil anos antes de Rafael ter começado a pintar os frescos, exceto uma. À esquerda da pintura, está um homem com turbante inclinado por cima do ombro de Pitágoras a ver o que ele escreve. É o filósofo muçulmano Averróis (1126‑1198) – o único representante identificável dos mil anos que medeiam o último dos filósofos gregos antigos e o próprio tempo de Rafael, e o único representante da tradição vital e vibrante da intelectualidade árabe que florescera nesse período. Esses intelectuais, que eram de várias fés e origens, mas estavam unidos pelo facto de escreverem em árabe, tinham mantido acesa a chama da ciência grega, combinando‑a com outras tradições e transformando‑a com o seu próprio trabalho árduo e brilho, garantindo a sua sobrevivência e transmissão ao longo dos séculos da Renascença.

Estudei clássicas e história no secundário e na universidade, mas em nenhum momento me ensinaram a influência do mundo árabe medieval nem, na verdade, de qualquer outra civilização externa na cultura europeia. A narrativa da história da ciência parecia dizer «houve os gregos, depois, os romanos, e, depois, a Renascença», saltando sem hesitação o milénio que ficava no meio. Sabia dos meus cursos de história medieval que não existia grande conhecimento científico na Europa Ocidental nesse período, e interroguei‑me acerca do que acontecera aos livros sobre matemática, astronomia e medicina do mundo antigo. Como sobreviveram? Quem os copiou e traduziu? Onde estavam os santuários que asseguraram a sua preservação?

Aos vinte e um anos, um amigo e eu fomos de Inglaterra à Sicília no seu velho Volvo. Andávamos a investigar templos greco‑romanos para as nossas dissertações do terceiro ano. Foi uma grande aventura. Perdemo‑nos em Nápoles, transpirámos com o calor em Roma, fomos mandados parar pela polícia e convidados a sair durante um encontro amoroso, ficámos de boca aberta em Pompeia e comemos bolas leitosas de mozzarella de búfala em Paestum e, finalmente, após semanas na estrada e uma curta viagem de barco para atravessar o estreito de Messina, chegámos à Sicília. A ilha revelou‑se diferente do resto da Itália: exótica, complicada, empolgante. As suas camadas de história envolveram‑nos; as marcas deixadas por sucessivas civilizações, como estratos na face de uma rocha, eram impressionantes. Na Catedral de Siracusa, vimos as colunas do templo grego original de Atena, construído no século X a. C., ainda de pé passados dois mil e quinhentos anos após erigido. Aprendemos que a catedral foi convertida em mesquita em 878, quando a cidade ficou sob controlo muçulmano, e voltou a ser igreja cristã dois séculos depois, quando os normandos tomaram o poder. Era claro que a Sicília servira de ponto de encontro de culturas ao longo de centenas de anos, um local onde ideias, tradições e palavras tinham sido trocadas e transformadas, onde coincidiam mundos. A nossa viagem focava‑se na relação entre a religião e a arquitetura grega e romana, mas a contribuição de culturas posteriores – bizantina, islâmica, normanda – era notável. Comecei a questionar‑me sobre outros locais que desempenharam um papel semelhante na história das ideias e do modo como esses locais se desenvolveram.

Pedro Moura e Susa Monteiro juntam-se ao É Desta Que Leio Isto no próximo encontro, marcado para dia 21 de fevereiro, uma quarta-feira, pelas 21h00. Consigo trazem  "Mensagem", de Fernando Pessoa, numa edição da RTP/Levoir.

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Essas questões voltaram à tona quando investigava para o meu PhD sobre conhecimento intelectual nos primórdios da Inglaterra moderna visto através da biblioteca do Dr. John Dee (o homem a que Isabel I chamava o seu filósofo). Personagem estranha e cativante, Dee foi meu companheiro constante durante vários anos. Levou‑me numa jornada inesquecível através do mundo intelectual do fim do século xvi. Durante a sua extraordinária carreira, reuniu a primeira coleção verdadeiramente universal de livros em Inglaterra, ajudou a planear viagens de descoberta ao Novo Mundo, lançou o conceito de um Império Britânico, reformou o calendário, procurou a pedra filosofal, tentou conjurar anjos e viajou por toda a Europa com a mulher, criados, vários filhos e centenas de livros a reboque. Também escreveu muito sobre uma vasta gama de assuntos: história, matemática, astrologia, navegação, alquimia e magia. Uma das suas realizações mais significativas foi ajudar a produzir a primeira tradução inglesa dos Elementos, de Euclides, em 1570. Mas onde estivera esse texto e quem tratara dele nos  dois mil anos que mediaram a escrita de Euclides em Alexandria e a sua publicação em Londres por Dee? Ao estudar o catálogo que Dee elaborou da sua biblioteca em 1583, reparei que grande parte dos seus livros, especialmente os que abordavam temas científicos, fora escrita por intelectuais árabes. Isso coincidia com as coisas que vira na Sicília e deu‑me uma amostra do que se passara no mundo islâmico na Idade Média, expandindo a minha visão da história além do esquema tradicional do Ocidente. Comecei a perceber que a história das ideias não é espartilhada por fronteiras culturais, religiosas ou políticas e que, para a apreciar, é necessária uma abordagem de maior alcance.

Estas ideias mantiveram‑se no meu subconsciente, cristalizando gradualmente num plano para um livro que seguisse as ideias científicas antigas na sua viagem através da Idade Média. Como se trata de um tema vasto, decidi concentrar‑me em alguns textos específicos e seguir a sua evolução à medida que atravessavam os principais centros de saber. Focando‑me na história da ciência e, mais precisamente, das «ciências exatas», foram delineados três temas: matemática, astronomia e medicina (5). Dentro deles, destacavam‑se três génios: na matemática, Euclides; na astronomia, Ptolomeu; e, na medicina, Galeno. Tanto Euclides como Ptolomeu escreveram descrições globais dos seus temas – Elementos e O Almagesto –, mas Galeno era um assunto mais complexo. Redigiu centenas de textos, pelo que decidi concentrar‑me nos que constituíam o programa médico em Alexandria, além das áreas gerais da anatomia e da farmacologia. Estes três homens notáveis definiram a estrutura e o conteúdo dos respetivos temas. Criaram o enquadramento dentro do qual futuros intelectuais trabalhariam durante centenas de anos. Muitas das teorias de Ptolomeu e de Galeno foram, desde então, desmentidas e substituídas, mas a sua influência e o seu legado são incontroversos. A teoria dos humores de Galeno ainda sobrevive na medicina tibetana tradicional e também na medicina complementar moderna. A descrição das estrelas fixas de Ptolomeu resistiu, assim como a sua «ideia de que o mundo físico é fiável e pode compreender‑se com matemática».

Em contrapartida, os Elementos, de Euclides, resistiram quase integralmente à prova do tempo. Ainda se ensinavam nas aulas no século XX e as teorias geométricas que contêm continuam a ser tão verdadeiras e relevantes como no século IV a. C. O mesmo se aplica ao método demonstrativo de Euclides, que usa um vocabulário técnico, hipóteses e demonstrações (diagramas) concisas, e continua a ser um modelo de escrita científica. Euclides, Galeno e Ptolomeu foram pioneiros na prática da ciência baseada na observação, na experimentação, na precisão, no rigor intelectual e na comunicação clara – pedras angulares daquilo a que atualmente se chama «método científico».

Quando comecei a investigar a sério, surpreendeu‑me o modo simples como a história se desenrolava à minha frente. O ano de 500 foi um momento óbvio para o início – em que as tradições intelectuais da Antiguidade evoluíam para as da Idade Média, em que a erudição entrava numa era diferente. Cada um dos capítulos que se seguem centra‑se numa cidade diferente, voltando primeiro que tudo a Alexandria para ver quando e como os textos foram escritos. Daí, dispersaram‑se pelo Mediterrâneo Oriental até à Síria e a Constantinopla, onde permaneceram até ao século IX, quando os intelectuais da nova cidade de Bagdad, capital do vasto Império Muçulmano, começaram a procurá‑los a fim de os traduzir para árabe e aplicar as ideias neles contidas às suas descobertas científicas. Bagdad foi o primeiro autêntico centro de saber desde a Antiguidade e, com o tempo, inspirou cidades de todo o mundo árabe a criar bibliotecas e a financiar a ciência. A mais importante foi Córdova, no Sul de Espanha, dominada pela dinastia omíada, sob cujo patrocínio as obras de Euclides, Ptolomeu e Galeno foram estudadas e onde as suas ideias foram questionadas e aperfeiçoadas por gerações de intelectuais. De Córdova, seguiram para outras cidades hispânicas e, quando os cristãos começaram a reconquistar a Península Ibérica, Toledo tornou‑se um importante centro de tradução e o local em que entraram no mundo latino e cristão.

Foi esta a principal rota dos manuais, mas, na Idade Média, existiram outros locais em que a cultura grega antiga, árabe e ocidental colidiram. Salerno, no Sul da Itália, recebeu textos médicos do Norte de África (em árabe, mas oriundos de Galeno) e traduzidos em latim. Daí que Salerno se tenha tornado, durante séculos, o centro dos estudos médicos europeus, desempenhando um papel vital na disseminação da medicina. Depois, em Palermo, Ptolomeu e Euclides roubaram o protagonismo a Galeno, quando os intelectuais traduziram exemplares dos Elementos e do Almagesto do grego para o latim, sem passar pelas versões árabes, na esperança de conseguir maior precisão. Estes três caminhos divergentes juntaram‑se em Veneza, onde chegaram manuscritos na primeira metade do século XV, prontos para ser impressos pela primeira vez.

Havia, claro, outras cidades que poderia ter incluído, mas agarrar‑me àquelas em que foram estudados e traduzidos exemplares dos textos‑chave pareceu‑me a melhor maneira de evitar perder‑me nesta enorme história. A sua escolha suscitou questões interessantes acerca do que constitui um centro de saber. Constantinopla foi um importante repositório de textos antigos, mas não um local onde se estudasse ciência com qual‑ quer grau de originalidade ou rigor. Nem onde a tradução (e, logo, a transmissão) acontecesse em qualquer espécie de escala; por essas razões, apenas aparece num papel secundário – o local aonde intelectuais e califas iam quando procuravam exemplares de Euclides, Ptolomeu e Galeno. A cidade do Corno de Ouro poderá ter ultrapassado Alexandria em poder e estatuto, mas era uma pálida sombra quando se tratava de saber científico – um centro de preservação em vez de inovação. Toledo, Salerno e Palermo foram os locais onde a cultura árabe entrou em contacto mais estreito com a Europa cristã, mas também houve um certo grau de intercâmbio na Síria, durante as cruzadas. Não aprofundei muito isto, porém, porque não há provas de que os Elementos, o Almagesto ou as principais obras de Galeno estivessem entre os livros ali traduzidos.

Enquanto a narrativa subjacente a esta história foi fácil de seguir, encontrar um caminho por entre o denso e emaranhado matagal da história do manuscrito não o foi. Por serem muito significativos, foram produzidas várias edições de cada texto; destrinçar a relação de umas com as outras e encontrar um caminho claro tornou‑se, muitas vezes, um desafio. Até à introdução do prelo, os textos eram copiados à mão, de modo que cada um era diferente do outro, com peculiaridades e erros. O estudo das tradições textuais complexas é toda uma disciplina dentro da história, e não posso dizer que seja perita nela. A fim de me manter fiel à narrativa, selecionei e produzi versões simplificadas do rico historial dos manuscritos desses grandes livros.

Para mim, a história das ideias foi sempre o aspeto mais fascinante do nosso passado. Descobrir o modo como as pessoas abordavam as questões fundamentais do planeta e do universo, como passavam as suas teorias às gerações futuras e expandiam as fronteiras do conhecimento intelectual é empolgante. Grande parte deste tipo de história está oculta em livros eruditos nas prateleiras das bibliotecas de pesquisa, mas não devia ser assim. Adotando um ponto de vista mais alargado e escrevendo acerca das personagens e das histórias, em vez de nos concentrarmos no conteúdo científico e nas minúcias históricas que se encontram nos livros académicos, é possível dar vida à história das ideias. Por exemplo, compreender o modelo do universo de Ptolomeu está além da capacidade de qualquer pessoa que não tenha conhecimentos pormenorizados de astronomia, mas apreciar a sua importância e seguir a sua evolução é significativo e fascinante. Leva‑nos numa viagem arrebatadora pela Idade Média, concentrando‑nos em certos locais e em certos momentos para descobrir como e porquê as ideias científicas foram transmitidas e transformadas. Deste modo, as fronteiras da narrativa histórica tradicional do Ocidente expandem‑se lançando luz sobre a contribuição profunda do mundo islâmico e dos intelectuais cristãos medievais, preenchendo o milénio entre «os romanos» e «a Renascença». Isso tornou possível incluir teorias de outras culturas que se incorporaram gradualmente no cânone do pensamento matemático, astronómico e  médico. Ideias como os numerais indo‑arábicos e o sistema de notação posicional que vieram da Índia, via Império Muçulmano, e são hoje usadas em todo o mundo.

Quando se recua um pouco e se olha a história numa perspetiva mais aberta, evidencia‑se a intrincada teia de ligações entre diferentes culturas, dando‑nos uma visão mais matizada e em última análise mais nítida do nosso património intelectual.

1. O GRANDE DESAPARECIMENTO

Os intelectuais gregos foram conduzidos para fora do mundo grego e ajudaram a desenvolver a ciência árabe. Mais tarde, a escrita árabe foi traduzida em latim, em hebreu e nos nossos vernáculos. O tesouro da ciência grega, pelo menos na sua maioria, chegou até nós depois de uma grande volta. Devíamos agradecer não só aos inventores, mas também a todos os homens graças a cuja coragem e obstinação o tesouro antigo chegou até nós e ajudou a que sejamos o que somos.

George Sarton, Ancient Science and Modern Civilization

Em 500, a Igreja Cristã atraíra a maioria dos homens talentosos do tempo para o seu serviço, quer em atividade missionária, organizativa ou doutrinária, quer em atividade puramente contemplativa.

Edward Grant, Physical Science in the Middle Ages

Livro: "O mapa do conhecimento"

Autor: Violet Moller

Editora: Clube do Autor

Data de Lançamento: 24 de janeiro de 2024

Preço: € 19,50

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Se pudesse olhar para o mundo mediterrânico no ano de 500, o que veria? Um rei ostrogodo no trono em Roma a dar o seu melhor para parecer um imperador. Um imperador em Constantinopla a recear as glórias da Roma imperial nas costas do Bósforo, e, muito para sul, no próprio berço da civilização, um rei dos reis persa a projetar a iniciativa seguinte na guerra interminável nas suas fronteiras setentrionais. Um mundo de mudança, um mundo de confusão, um mundo onde as cidades estavam a encolher, as bibliotecas, a arder, e já pouco parecia certo.

Estas condições não eram propícias à preservação de textos nem à procura do conhecimento. Ambas precisam de estabilidade política, interesse individual e financiamento consistente para florescer; tudo isto era escasso em 500. Mesmo assim, pequenas bolsas de saber resistiram e muitos livros foram mantidos a salvo. Herdámos grandes riquezas dos nossos antepassados distantes, mas perderam-se grandes porções de cultura antiga na longa viagem para o século XXI. Só uma parte sobreviveu: sete das cerca de oitenta peças de Ésquilo, sete das cento e vinte de Sófocles, dezoito das noventa e duas de Eurípides. Muitos outros escritores desapareceram, reduzidos a menções fantasmagóricas noutras obras. No fim do século V, um homem chamado Estobeu compilou uma enorme antologia de mil quatrocentas e trinta citações de poesia e prosa. Apenas trezentas e quinze são de obras que ainda existem – o resto perdeu‑se. A ciência teve melhor sorte, mas, mesmo assim, importantes obras como Sobre Demonstração, de Galeno, Sobre Minas, de Teofrasto, e o tratado sobre a teoria heliocêntrica de Aristarco (que podia ter mudado drasticamente o curso da astronomia se tivesse sobrevivido) escorregaram para as fendas do tempo. Os textos que sobreviveram, incluindo os Elementos, de Euclides, o Almagesto, de Ptolomeu, e o corpus galénico, são o resultado de milhares de anos de erudição. As ideias que contêm foram filtradas pela mente de gerações de escribas e tradutores, transformadas e ampliadas por brilhantes intelectuais do mundo árabe que, no fim da Idade Média e da Renascença, foram gradualmente apagados da história.

Por vezes, fizeram‑se tentativas para recuperar livros e, mesmo na Antiguidade, as pessoas tinham consciência do perigo de que o conhecimento pudesse desaparecer. Segundo Suetónio, o imperador Domiciano (51‑96) «teve grandes problemas e despesas para reabastecer as bibliotecas ardidas, procurando por toda a parte volumes perdidos e mandando escribas a Alexandria para os transcrever e emendar» . Os únicos manuscritos existentes que foram realmente feitos no mundo antigo (antes de cerca de 500) são pequenos fragmentos de papiros encontrados numa lixeira no Egito e alguns rolos provenientes da Vila dos Papiros, em Herculano (6). Como veremos, na altura em que o códice mais durável (feito de pergaminho e madeira) estava a tornar‑se dominante, o mundo mudara e já não havia muita gente que fizesse, vendesse ou mesmo lesse livros. Em 500, o Império Romano desmoronara‑se na Europa Ocidental e fora radicalmente reduzido no Oriente. A vigorosa cultura do mundo antigo pagão estava a desaparecer nas sombras de um novo poder: a Igreja Cristã. No milénio seguinte, a religião dominaria o mundo dos livros e do saber no Ocidente, enquanto a ciência encontrava uma nova casa no Médio Oriente.

O século V fora tumultuoso, quando metade ocidental do Império Romano escapou do controlo imperial para as mãos de um conjunto de tribos da Europa Setentrional. A Hispânia romana era agora governada pelos visigodos, com a parte norte da península povoada pelos alanos e os suevos. Os vândalos tinham‑se apoderado da faixa norte da África, enquanto a Itália e a própria Roma haviam sido recentemente cenário da coroação (com todo o esplendor imperial) do rei ostrogodo Teodorico. Entretanto, os francos estavam em processo de fundação do país a que chamamos atualmente França e, do outro lado do Canal, exércitos de anglo‑saxões pressionavam a Grã‑Bretanha. Já sem o poder de Roma para as manter unidas, as sociedades da Europa Ocidental viraram‑se para dentro e isolaram‑se; as cidades encolheram com o regresso das populações ao campo e a um modo de vida mais simples e rural. Com a deterioração do sistema de viagens e comunicações do  império, os mercadores já não podiam transportar os seus produtos em segurança, pelo que o comércio diminuiu drasticamente.

O que restou do império, a parte oriental, resistiu, mas numa forma muito reduzida. O imperador Anastácio (431‑518), com a alcunha de Dicoro («Duas Pupilas») por ter um olho preto e outro azul, governava os seus domínios, que consistiam na Ásia Menor, na Grécia, nos Balcãs e em partes do Médio Oriente, a partir da capital, Constantinopla. Em 500, a separação entre o Oriente e o Ocidente era relativamente nova, e as divisões sociais e culturais que caracterizariam os séculos seguintes ainda não se tinham imposto. O Governo imperial em Constantinopla esperava recuperar pelo menos parte do antigo Império Ocidental – em particular, Roma e arredores. Esse desejo cristalizou durante o reinado do imperador Justiniano I (527‑565), um homem poderoso e enérgico que escandalizou a elite bizantina ao casar‑se com a amante, Teodora, vinte anos mais nova do que ele e, ainda por cima, prostituta.

O reinado de Justiniano foi longo e fértil em acontecimentos. Ordenou a revisão de todo o sistema de direito romano, lançou um enorme programa de reconstrução na sua capital (incluindo a remodelação da Hagia Sofia) e encorajou a produção de seda, após dois monges terem, ao que se diz, contrabandeado ovos e larvas de bichos‑da‑seda da China debaixo dos hábitos. Com a ajuda do seu brilhante almirante, Belisário, Justiniano recon‑ quistou aos vândalos partes do Norte de África, arranjou um ponto de apoio na Hispânia e, o mais importante, reconquistou a Sicília e a maior parte da Itália. A vitória deve ter sido doce, mas pouco durou. Os ostrogodos não desistiram com facilidade dos seus desígnios relativamente à Itália, e Justiniano viu‑se envolvido numa guerra prolongada e penosa na sua fronteira ocidental, enquanto os persas atacavam do Sul e as tribos turcas e eslavas assolavam a fronteira setentrional nos Balcãs. Poucas décadas depois da sua morte, todos os seus ganhos territoriais tinham sido perdidos de novo e aprofundava‑se o cisma entre o Oriente e o Ocidente, com a linha de fratura a correr no sentido norte‑sul, entre a Grécia e a Itália.

A vida quotidiana na Antiguidade Tardia era extremamente precária, mesmo para os cerca de cinco por cento de ricos ou da população que não eram camponeses nem escravos. A doença e a morte espreitavam em todos os lares, a fome e o desastre nunca estavam longe. Juntem‑se a isto as hordas de bárbaros invasores a destruir as colheitas e a assassinar as famílias, e o panorama torna‑se pouco animador. Mas havia um vislumbre de luz na escuridão, uma fraca centelha de esperança no meio do caos – a religião. O Império Romano adotou oficialmente o cristianismo em 380 e em 500 já se espalhara de várias formas pela Europa, pelo Médio Oriente e o Norte de África, substituindo a vasta gama de cultos, divindades e fés que cabem no conceito de «paganismo». As fés pagãs eram várias e bastantes vezes localizadas; as pessoas acreditavam em muitos deuses que estavam com frequência estreitamente ligados ao mundo natural, e a adoração visava tentar influenciar a natureza para garantir uma boa oferta de alimentos e a saúde e felicidade da comunidade. A insistência do cristianismo no único Deus verdadeiro criou uma opção rígida – era tudo ou nada – e teve como consequência o fim da maioria das velhas fés pagãs. Ao mesmo tempo que a Igreja ganhava poder e popularidade, os seus líderes tornavam‑se mais determinados em acabar com os sistemas de crenças concorrentes e a cristianizar todo o mundo. Em 500, a igreja estava bem lançada no caminho para essa missão.

(1) Não uma escola no sentido moderno, mas sim um círculo aberto de indivíduos com interesses académicos semelhantes e, neste caso, uma tradição de estudo que durava vários séculos.

(2) Provavelmente, Bramante aconselhou Rafael sobre o projeto de arquitetura, usando‑o para mostrar ao papa Júlio a sua visão da nova Basílica de São Pedro.

(3) Todavia, esta figura também tem sido identificada como Arquimedes.

(4) Na Renascença, os intelectuais acreditavam erradamente que Cláudio Ptolomeu, o astrónomo e geógrafo, era membro da dinastia ptolemaica que governou o Egito de 305 a 30 a. C.

(5) Nos períodos antigos e medievais, os temas científicos estavam integrados na «filosofia natural» – e qualquer investigação sobre o mundo físico. 

(6) Foram preservados por cinzas vulcânicas após a erupção do Vesúvio em 79.

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