Um golo. Bastava um único golo para que a Escócia pudesse sonhar com o apuramento para o Mundial de Futebol, um golo que não aconteceu nos poucos minutos que faltavam ao jogo que opôs a seleção das Highlands à Eslovénia, em outubro passado, e que a deixou de fora do play-off de apuramento europeu. Foi apenas mais uma desilusão, a somar às tantas que a Escócia tem tido ao longo dos últimos 20 anos, desde que se apurou, pela última vez, para um grande torneio internacional de seleções (aconteceu no Mundial de França, em 1998, onde os resultados também não foram famosos: derrotas com Brasil e Marrocos e empate frente à Noruega).

Num território que respira futebol como a Escócia, que a par da Inglaterra foi uma das primeiras seleções de futebol a ser formada e que já deu tanto ao desporto-rei, a sua ausência das grandes decisões começa a estranhar. Longe que estamos dela, resta-nos questionar os seus filhos sobre tão fraco desempenho. Vai daí, falámos com Stuart Braithwaite, guitarrista dos Mogwai, que estiveram recentemente no Porto, para atuar no NOS Primavera Sound.

Ora, o futebol e o rock n' roll são duas tábuas de salvação diferentes para um mesmo grupo de pessoas: o dos adolescentes alienados que não encontram o seu espaço no mundo, e que procuram na energia e na fé proporcionada por um e pelo outro uma raison d' être que não a do trabalho rumo à reforma. E não é como se o futebol não bebesse do rock e vice-versa – canções como “Seven Nation Army”, dos White Stripes, foram adaptadas para cânticos futebolísticos por toda a Europa (estima-se que em Portugal os primeiros a fazê-lo tenham sido os adeptos da Académica).

Seria no entanto difícil adaptar uma canção dos Mogwai para um qualquer cântico. Não por lhes faltar melodia, mas por lhes faltar voz; é que os escoceses preferem sobretudo deixar falar os seus instrumentos, sendo figuras de proa de um género a que se achou por bem intitular de pós-rock – o rock longe das redomas da batida 4/4, das letras e versos sobre qualquer coisa que seja e da canção de dois, três minutos. Ainda assim, foi de sua responsabilidade a banda-sonora de Zidane: Un Portrait du 21e Siècle, documentário de 2006 sobre o ex-jogador e agora treinador francês.

Zidane, como bem saberão os fãs de futebol, tem muito em comum com Cristiano Ronaldo: não só foi treinador deste ao longo dos últimos três anos, em que o Real Madrid se sagrou tricampeão europeu de clubes, como é igualmente considerado como um dos melhores jogadores de sempre. Impossível, então, fugir à primeira pergunta: estariam os Mogwai dispostos a compor a banda-sonora para um hipotético documentário sobre CR7? “Provavelmente não”, atira Stuart, entre gargalhadas. Até porque, confessa-nos, prefere o eterno rival do capitão luso, o argentino Leo Messi. “[Mas] são ambos bastante bons”, ressalva.

Estando a Escócia de fora, Stuart – e os Mogwai – não poderão assistir ao Mundial como adeptos fervorosos do seu país, e sim como “meros” fãs de futebol. O guitarrista não sabe o que esperar da competição que arranca esta quinta-feira, com o jogo entre a anfitriã Rússia e a Arábia Saudita. “Ainda estou bastante chateado pela Escócia não se ter qualificado. Mas acho que vai ser bom”, diz-nos. Das equipas a seguir, aponta a Islândia, que pela primeira vez marcará presença num Mundial. “Gosto da história deles, é um país pequeno. E como temos bastantes fãs islandeses... Vou estar de olho neles”.

Mas, afinal, o que tem afastado a Escócia desta verdadeira montra mundial? “Os jogadores não são bons o suficiente. E tivemos azar nesta fase de qualificação. Com as anteriores não me chateei, mas esta... Estivemos muito perto”, lamenta. Mas há esperança no futuro, explica Stuart. “Temos melhorado. Provavelmente, iremos qualificar-nos nos próximos anos”. O Europeu de 2020 e o Mundial de 2022, no Qatar, que se preparem – até porque, nas camadas jovens escocesas, há muito talento, afiança. “Há muitos jogadores promissores a jogar na Escócia, na Inglaterra, por todo o mundo... Haveremos de lá chegar”.

Há quem aponte a falta de competitividade da liga escocesa, que tradicionalmente se disputa entre apenas dois clubes, Celtic e Rangers, ambos de Glasgow (os outros são, como diria Manuel Machado, “carne para canhão”), como um dos fatores para este insucesso escocês. Stuart, que à semelhança dos restantes Mogwai é um fervoroso adepto do Celtic, nem quer pensar nisso. Até porque é a sua equipa a que tem dominado a última década de futebol na Escócia, aproveitando a descida do Rangers à quarta divisão (regressou à Primeira Liga em 2016), por motivos financeiros.

Uma descida que, claro, celebrou como se de um campeonato se tratasse, já que é bem conhecida a rivalidade entre ambos os clubes, uma das mais apaixonadas – e não raras vezes violentas – de todo o mundo: “Lembro-me que era dia de São Valentim e havia festa em todo o lado”, relata, sobre o dia em que o Rangers foi despromovido. Nem o facto de isso ter acontecido na secretaria, e não em campo, o deixa de comover. “Foi fantástico”, limita-se a dizer.

Essa mesma falta de competitividade já levou alguns a pedir para que tanto o Celtic como o Rangers passassem a jogar nos campeonatos ingleses, algo que para Stuart (que, ressalve-se, não fala muito – à semelhança dos Mogwai) é impensável: “Não vejo porque haveriam de jogar no campeonato de outro país”, comenta. “Soa parvo. Provavelmente fariam mais dinheiro, mas há mais na vida que o dinheiro”.

O dinheiro não é alheio ao futebol e, nos últimos tempos, são muitos os clubes que têm sido comprados por milionários russos, árabes ou norte-americanos, com os ingleses do Manchester City e os franceses do Paris Saint-Germain como exemplos mais sonantes. “É nojento. Os clubes ultra-ricos arruinaram o futebol europeu”, diz. “Equipas como o FC Porto não voltarão a ganhar a Liga dos Campeões. Ou como o Ajax, ou o Celtic... Estas equipas, hoje em dia, não têm hipóteses. Tudo se tornou muito desequilibrado”.

Para já, apenas os Mogwai e não as equipas de futebol médias-altas da Europa têm ocupado os grandes palcos, mas de festivais, de todo o mundo. Mas o seu nome também chega ao mundo da bola, estando presente na indumentária de uma equipa da escola primária St. Roch's, em Roystonhill, Glasgow (ou não tivessem os escoceses lançado um disco intitulado “Mogwai Young Team”). “Um dos professores dessa escola é amigo do nosso baterista [Martin Bulloch], e pediu-lhe um patrocínio. É fixe, estou contente com isso”, afirma Stuart. Os “miúdos” nem têm jogado mal, diz: “Participaram num torneio ao longo deste fim-de-semana [em que se realizou o NOS Primavera Sound]. Não sei quantos jogos fizeram, mas marcaram nove golos e só perderam um jogo”. Espera-se portanto um futuro brilhante para estes jovens, que até poderão chegar, um dia, à seleção escocesa. “Isso seria fantástico...”.

Os Mogwai não são, naturalmente, a única banda a mostrar apreço pelo desporto-rei. Lembramo-nos, por exemplo, dos Iron Maiden, que numa das suas passagens por Lisboa, nos anos 90, defrontaram uma equipa de veteranos do Benfica, com Eusébio e Mozer à cabeça, em jeito de “aquecimento” para o concerto. Não é este um ritual que os escoceses também cumpram, até porque poderia correr mal: “Da última vez que jogámos futebol juntos, o Martin magoou-se... Por isso fomos proibidos de jogar futebol”, brinca. Pior ainda, foi essa lesão ter sido numa das mãos, o que para um baterista é terrível. Mas Martin recuperou – e, juntamente com Stuart e os demais membros dos Mogwai, marcou presença no palco principal do NOS Primavera Sound. Espera-os, agora, outros palcos... E outras partidas.

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