Quando uma pessoa é diagnosticada com cancro a forma como o tempo passa a ser contado altera-se. O distante torna-se próximo e os números passam a contar-se ao contrário, de forma decrescente, do período em que ainda é expectável que ainda estejamos vivos e em condições de aproveitar a vida até ao presente. Fica tudo de pernas para o ar.

O Tiago tem cancro. A forma como o Tiago conta e aproveita o tempo mudou. Não tem propriamente uma lista de últimos desejos, mas sabe como quer morrer, a rir.

Tiago André Alves tem 28 anos e um prognóstico de vida encurtado. Diz que não se lembra bem das palavras do médico, confessa ser um homem mais visual, e por isso, ao invés, tem na memória, uma recordação exímia, da camisa que o doutor tinha vestida, conta o próprio no podcast "Sem Barbas na Língua".

O primeiro sintoma apareceu há cerca de quatro anos, um nódulo no pescoço. Na altura, conta, a mãe da ex-namorada, que era médica, examinou aquele “corpo estranho” e levou-o a fazer uma ecografia. Na altura, nada que indicasse o aparecimento de cancro.

Poucos anos volvidos, emigrou para a Irlanda do Norte onde, após o aparecimento de vários nódulos na zona do pescoço, se viu forçado a ir a um hospital fazer exames. A notícia chegou pela voz de um homem cuja camisa recorda, mas não as palavras, mas que se resumem a isto: cancro da nasofaringe com metáteses no pescoço.

No momento, conta, ficou a tremer. Perguntou quanto tempo de vida tinha e disseram-lhe que não era possível dizer, que cada caso era um caso. E assim se inverteu o tempo do Tiago.

Mas ele sabia que não ganhava nada em lamentar e confessa que, pela hora do almoço, depois da consulta, a ideia já não lhe fazia tremer as pernas. E o primeiro passo foi voltar para Portugal, começar os tratamentos e aproveitar a vida, fosse esta de que tamanho fosse.

Chegado à lusitânia, recebeu uma proposta de trabalho na agência Meio Termo, onde viria a conhecer o humorista Guilherme Duarte, o segundo protagonista desta história.

“Conheci o Tiago quando começou a trabalhar na Meio Termo, que é a agência onde eu estou e no ensaio do meu primeiro espetáculo encontrei-o lá. Estava lá fora a falar com o Tiago e com o meu agente, o Nuno, e estava a dizer 'epá, eu tenho aqui uma piada que não sei se é gira ou se é só gratuita, e que envolve mamadas no IPO', pronto. Não vale a pena contar a piada porque tem uma premissa grande e o Tiago disse 'boa, boa, põe, põe, essa é boa, essa é fixe'. E eu, pronto, não sabia se o Tiago era só uma besta ou se curtia de bojardas agressivas e depois eu perguntei ao Nuno: 'então e este rapaz que estava aqui, quem é?' E o meu agente: 'é o Tiago, tem cancro'. Foda-se, e só me dizem agora? A primeira impressão foi aquilo, mas, por outro lado, se a piada estava validada por ele eu tinha mesmo que a usar”, conta o cronista do SAPO24 no seu podcast.

Não se brinca com o cancro
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Tiago gostou da piada. Na verdade, ele gosta muito de piadas. Tanto que na entrevista que deu como convidado ao podcast de Guilherme Duarte e Hugo Gonçalves, confessou que na sua lista de desejos estariam duas coisas, uma já foi concretizada, conhecer e ter a oportunidade de conversar com Ricardo Araújo Pereira, e a outra: visitar os Estados Unidos da América, Nova Iorque, melhor dizendo. Ou os ‘comedy clubs’ da cidade que nunca dorme, para bem dizer.

“Se o médico diz que tens seis meses ou dois anos para viver, vais passar o tempo a chorar na cama ou vais fazer alguma coisa?”, questiona Diogo Faro, mais um dos protagonistas de uma história única que será encenada esta quarta-feira. Uma história que ‘bate’ no tempo que se inverteu.

No livro “A Doença, o Sofrimento e a Morte entram num bar”, Ricardo Araújo Pereira escreveu: “Virar uma coisa de pernas para o ar é, em geral, exercer sobre ela uma forma de violência. Trata-se, aliás, de uma operação potencialmente destruidora. No âmbito da comédia, contudo, é frequentemente um ato criador. A ideia de que o mundo, submetido à prova radical de ser virado do avesso, continua a fazer sentido, pode ser tranquilizadora; se fizer mais sentido do que a forma original, isso pode ser inquietante: significa que o mundo já estava às avessas antes de ser virado do avesso".

Tiago virou o estado das coisas e decidiu gozar com o cancro. Como? Num roast que acontece esta noite no Cinema São Jorge e que terá como convidados os comediantes Guilherme Fonseca, Rita Camarneiro, Dário Guerreiro, também conhecido como Môce dum Cabréste, Diogo Faro (Sensivelmente Idiota na Internet), Guilherme Duarte, do blog 'Por Falar Noutra Coisa', Diogo Batáguas, Diogo Miguel e Carlos Vidal.

"O cancro é uma merda, vamo-nos rir dele"

Convidado a gozar com o cancro, Faro conta que foi no final do ano passado que recebeu uma mensagem do Tiago. “Na altura ele ainda só tinha falado com o Guilherme Fonseca, e eu achei aquilo muito corajoso, uma ideia do caralho. Ele disse logo que a ideia era todas as receitas reverterem para o IPO, precisava só de encontrar uma salinha em Lisboa. Na verdade, a minha reação foi: foda-se, claro que aceito. Fiquei assim um bocado meio chocado, meio admirado com a coragem dele e hesitei para aí durante um segundo. Mas, pá, o cancro é uma merda, vamo-nos rir dele. E vamos fazer isto como deve ser, bora mas é fazer isso no São Jorge e porque a causa é excelente vamos angariar o máximo de dinheiro possível em vez de fazer numa salinha para 50 ou 100 pessoas”, conta o comediante ao SAPO24.

Para Guilherme Duarte, o espetáculo desta quarta-feira à noite resume-se, sobretudo, a “estar à altura”. “Não é um simples espetáculo de comédia e não é um simples roast, em que é uma pessoa, normalmente uma celebridade, a dar o corpo às balas. Aqui o caso é diferente, porque reverte a favor de uma causa e também porque é uma pessoa ali que está a passar uma situação difícil. Acho que a responsabilidade de fazer boas piadas é maior”, confessa-nos.

“O tema exige um esforço muito maior na escrita das piadas, para que não sejam muito gratuitas, nem muito básicas, para que as pessoas se consigam rir ao máximo de uma coisa para a qual não há motivos para rir”, acrescenta o autor do blog 'Por Falar Noutra coisa'. Faro subscreve: “a única regra que ele nos deu a todos foi que a única obrigação é ter graça. De resto, é fazer piadas com ele, com o facto de ele estar a morrer, quer dizer, a morrer estamos todos, ele é que está um bocado mais adiantado. Sem regras, sem limites”.

Subir a um palco e submeter-se a um roast, especialmente na altura em que somos afetados por uma doença tão grave como o cancro, não é para todos. “É preciso ter um grande sentido de humor, uma grande paz de espírito. Tens de ter tido uma vida boa, saber que não vais morrer com culpa, que não foste má pessoa para ninguém, não sei. Eu não sei se teria a paz de espírito que ele tem para estar a fazer isto. Esta relativa paz com que ele está em relação a isto…”, confessa Diogo Faro. “Isto é nobre, é muito nobre, e uma atitude muito corajosa da parte dele”, acrescenta.

Não se brinca com o cancro, Tiago
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“Espero que ele se divirta mesmo e que também não se esteja a sacrificar em prol dos outros, para os outros se rirem, apesar de ser nobre. Espero acima de tudo que ele se divirta e que isto lhe esteja a dar um gozo tremendo e que no meio desta doença toda ele consiga tirar alguma coisa de positivo. Seria sempre melhor ele não estar doente e não passar por isso, por muito prazer que lhe esteja a dar, de certeza que ele preferia não passar por isto. Mas já que isso não dá para alterar, é fazer o melhor que se pode com o que se tem", sublinha Guilherme Duarte.

O espetáculo é esta noite, às 22h00. E caso não tenha bilhete não vai poder ir, porque o público contornou os receios de Tiago e esgotou o cinema São Jorge, contra tudo aquilo que ele podia esperar, mas a cumprir o desígnio da comédia como um dia RAP escreveu:

“Não conheço melhor definição do trabalho do humorista. Fazer com que as pessoas se riam desta ideia: por mais que façam, vão morrer. Fornecer-lhes uma espécie de anestesia para esse pensamento. É um ofício belo, nobre, indispensável e inútil: sim, o riso tem o poder de esconjurar o medo, mas só durante algum tempo, talvez apenas durante o tempo que dura a gargalhada. Às vezes nem tanto”.

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