Portanto, é uma vez um Tiago. Acho que isto assim não soa tão bem, mas vocês percebem.

Este Tiago veio falar comigo em Agosto, estava eu entre mergulhos na casa dos meus avós, via redes sociais, visto que até aí não nos conhecíamos de lado algum. Olá, Faro! - diz-me o Tiago de uma forma que me pareceu digitalmente simpática. Sou um grande fã teu, acho que és um grande comediante, dos melhores que anda para aí até, e além disso és tão lindo que eu estou aqui capaz de te dar um linguadão e pôr em causa toda a minha heterossexualidade – talvez eu esteja a exagerar um pouco em toda esta citação, mas foi bastante parecido. E logo a seguir explicou-me o porquê de ter vindo falar comigo.

Havia poucas semanas o Tiago tinha sido diagnosticado com cancro e deram-lhe hipóteses pouco animadoras em relação ao futuro. Principalmente, porque mesmo que sobreviva nunca vai ser um gajo bonito, porque também já não era antes do cancro. A reacção do Tiago quando soube do diagnóstico foi de um perfeito atrasado mental. Pensou ele “bem, já que sou capaz de ir andando mais cedo do que era biologicamente suposto, e tendo em conta que sou completamente doido por comédia, vou tentar organizar um espectáculo onde possa reunir alguns dos meus comediantes portugueses preferidos para gozar com o cancro". Ter uma ideia destas em Portugal é mesmo de quem está doente. Alinhas? Perguntou-me ele. Foda-se, és doido, mas claro que sim. Respondi eu.

Mas, de facto, é desta forma que considero que o Tiago é das pessoas mais corajosas que eu actualmente conheço. Nem é pela luta contra o cancro em si, isso há muitos corajosos. É mesmo por isso, por fazer um espectáculo cujo tema é “piadas sobre cancro ou sobre o Tiago que tem cancro” nos dias que correm, onde até piadas sobre couve lombarda ofendem sempre alguém.

Vai acontecer. Chama-se “Morrer a Rir” e o formato é um “roast”, onde todos os comediantes gozam uns com os outros, mas principalmente com o alvo do “roast”, o cancro do Tiago.

Apesar da coragem, acho que o Tiago está a ser insensível. Lá porque tem cancro, ele devia saber que vai ofender, melindrar, apoquentar, azucrinar, arreliar, devastar (?) muita gente ao fazer comédia em volta do cancro. Bem sei que a sala principal do S. Jorge vai esgotar e que, desde que ele teve esta estúpida ideia, o objectivo é que as receitas revertam na totalidade para o IPO – “já que é provável que eu não sobreviva a isto, ao menos conseguimos juntar o máximo dinheiro possível para ajudar os outros”. E isto é muito bonito, mas continua a não ter em conta a quantidade de pessoas que não tem cancro mas vai ficar ofendida na mesma quando souber deste espectáculo.

Enfim, S. Jorge, dia 21 de Março, com Tiago André Alves, Rita Camarneiro, eu, Diogo Batáguas, Diogo Miguel, Dário Guerreiro (Môce Dum Cabreste), Guilherme Duarte (Por Falar Noutra Coisa), Carlos Vidal e Guilherme Fonseca. Vai ser histórico. Vai ser lindíssimo. E o Tiago é dos grandes.

Sugestões mais ou menos culturais que, no caso de não valerem a pena, vos permitem vir insultar-me e cobrar-me uma jola:

- La Casa de Papel: Ainda não acabei esta série da Netflix de que tanto se fala. Sem achar genial para já, estou a gostar bastante. Boa história, bons actores, boa produção.

- Um Cavalo Entre Num Bar: É o livro que ando a ler agora, a par de “Riso”, um ensaio filosófico de Henri Berson. É sobre o mundo da stand-up comedy e ainda não vos posso sugerir com toda a confiança por estar no início, mas parece-me bom.

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