“Esta é uma tradição que realizamos há cinco anos, em que as escavações estão a decorrer, e toda a equipa está preparada para receber os visitantes, explicar o que está a acontecer, mostrar como se faz arqueologia; as pessoas visitam, com acompanhamento dos arqueólogos, o museu da escavação, instalado na Torre do Esporão”, explicou à agência Lusa o arqueólogo Miguel Lago, da empresa Era Arqueologia, responsável pelas escavações.

Miguel Lago disse que “haverá ainda uma visita às reservas da escavação e à área de laboratório, onde se processa toda a informação e se tratam os materiais que vão saindo das escavações, e onde está a generalidade dos materiais”, já que “o que está no museu é uma parte ínfima”.

“A ideia é as pessoas poderem ver de perto esses materiais, alguns são espécies únicas e extraordinariamente importantes”, acrescentou.

O complexo dos Perdigões, segundo o arqueólogo, terá sido um importante santuário para onde convergiam populações, vindas de várias regiões, para aí realizar rituais ligados à morte, ao culto dos antepassados e ao mundo simbólico, o que permite encontrar materiais de várias partes geográficas. Um dos materiais que tem surgido é o marfim de dente de elefante africano, nomeadamente, em ídolos antropomórficos, esculturas de animais e copos talhados.

Nesta época, entre 3.500 e 2.000 antes de Cristo, ainda existiam elefantes a sul do atual reino de Marrocos, explicou.

“Os dentes terão chegado inteiros à Europa, e supomos que os artefactos não foram produzidos em África, mas talvez até tenham sido mesmo nos Perdigões, pois há rodelas de marfim inteiras, mas não há certeza”. Por outro lado, foram encontrados restos mortais de “indivíduos que não eram do atual território de Reguengos de Monsaraz, mas de regiões no atual território espanhol, ou até da Península de Lisboa”, adiantou o arqueólogo.

A hipótese de santuário ou espaço de rituais ligados aos solstícios de verão e inverno torna-se atualmente mais sólida, não sendo possível determinar, explicou, se este espaço tinha uma ocupação permanente.

Por exemplo, disse, há “poucos restos relacionados com a prática da moagem”, relativamente ao que sucede noutros sítios arqueológicos onde houve ocupação permanente.

O sítio dos Perdigões, localizado na herdade do Esporão, a quatro quilómetros de Reguengos de Monsaraz, é um complexo pré-histórico, na transição do período neolítico para o calcolítico, que terá tido a sua ocupação durante cerca de 1.500 anos, sensivelmente entre 3.500 e 2.000 antes de Cristo, explicou Miguel Lago.

O “dia aberto” prossegue com uma palestra/conversa pelo diretor das escavações, o arqueólogo António Valera, “em que fará um apanhado do que têm sido os trabalhos, e menciona algumas das que têm sido as linhas de investigação que estão em curso, nomeadamente as questões ligadas às práticas funerárias, as relações de grande distância que se estabeleciam entre os Perdigões e uma série de comunidades, às vezes a centenas e centenas de quilómetros”.

“A arquitetura dos Perdigões está claramente orientada tendo em conta fatores astronómicos, nomeadamente o nascer e o pôr do sol nos solstícios, mas é hoje cada vez mais entendido como um lugar de reunião, para onde confluíam peregrinações, um santuário, um local de peregrinação de romaria, em linguagem contemporânea”.

O sítio dos Perdigões terá tido origem megalítica, apontou o aqueólogo, referindo que, "ao lado dos Perdigões, é conhecido, desde a década de 1960, um recinto megalítico, com vários menires".

"Talvez o primeiro recinto que foi construído nos Perdigões tenha sido também megalítico, e foi pertinente para aquelas comunidades ter-se tornado num espaço de práticas cerimoniais”.

Atualmente, a área arqueológica é de cerca de 17 hectares. Nos 20 anos de campanhas que se realizaram, atingiu-se cerca de dois por cento do total. As campanhas arqueológicas têm cerca de seis semanas por ano.

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