Corria o ano de 2010 e o conceito de viral ainda não estava aperfeiçoado pelas redes sociais como hoje está. No YouTube é partilhado, na conta de DJ Ride, uma remistura com o título "Stereossauro Freestyle verdes anos". A versão, de pouco mais de um minuto e meio, chegou mais de cem mil visualizações, a anúncios e à abertura do Festival Eurovisão da Canção, em Lisboa. E isso chegou para a Valentim de Carvalho dar a Stereossauro a chave dos seus arquivos e acesso aos masters originais de Carlos Paredes e Amália Rodrigues. 

19 temas e uma lista extensa de convidados de luxo — de Amália a Carlos do Carmo, de Ace a Slow J, de Ricardo Gordo a Legendary Tigerman. "Bairro da Ponte" não é apenas um álbum que junta dois estilos, o fado e o hip-hop. Essa é uma visão, mas redutora. Porque, como o próprio diz, "não é a primeira vez que há contacto entre as duas culturas". É uma reunião de colaborações e da história individual e coletiva da música de língua portuguesa. "Bairro da Ponte" traz-nos Stereossauro aos ombros de gigantes e de mãos dadas com a contemporaneidade.

Se Amália o ouvisse, Stereossauro não pode afirmar se esta gostaria. Mas de uma coisa tem certeza: diria que "a música não pode estar fechada".

"Bairro da Ponte" será apresentado, pela primeira vez ao vivo, no próximo dia 28, no Lux. Tiago Norte, nome pelo qual Stereossauro responde no BI, falou-nos sobre ele.

Partilhamos a mesma geografia e daí começo com esta pergunta. Porquê este título, "Bairro da Ponte"? Tem alguma relação com as Caldas da Rainha?

É muito simples: 'bairro' é uma palavra muito associada quer ao hip-hop quer ao fado. Dele podemos ir para lugar, pertença, identidade. Tudo isso é o teu bairro.

Mas não é nenhum bairro em específico?

Existe, nas Caldas, o bairro da ponte. Onde morei até aos 15 anos. Claro que há sempre um duplo significado, mas a maneira como cheguei ao título foi mesmo essa que já expliquei. Essa ideia de pertença. Somos portugueses e o nosso bairro é Portugal. Inclusive, quer num estilo quer noutro, muitas vezes um bairro determina até a direção de uma sonoridade. O fado de Lisboa vs. o fado de Coimbra; o hip-hop do bairro x não é igual ao do bairro y. "Bairro" é uma palavra muito forte que já me acompanha há algum tempo; "Ponte" é a ligação entre as duas coisas. Entre o velho e o novo, o analógico e o digital.

Intrínseco ao bairrismo também está aquela ideia de disputa.

De rivalidade.

Mas isso não se aplica à relação fado/hip-hop, ou sim?

Não. Dentro de cada estilo, isso acontece. Na sua grande maioria, as pessoas do fado não estão preocupadas com as do hip-hop, e vice-versa. Agora, dentro de cada estilo há identidades.

E como foi lidar com essas identidades?

Foi tudo muito natural. Acho que havia uma vontade muito grande, de todas as pessoas que convidei, especialmente do mundo do fado, em saírem da sua zona de conforto e de experimentarem este tipo de sonoridade. O que facilitou imenso o meu trabalho. Aliás, só agora com tudo feito é que consigo olhar para trás e analisar: 'ok, isto está aqui um elenco de super luxo'. Se me tivesse proposto a atingir isto antes de começar o disco, se calhar tinha sido overwhelming e não o tinha conseguido acabar.

Foi um processo, uma construção? À medida que fechavas um convidado surgia uma ideia para outra colaboração?

Foi uma bola de neve. Havia alguns convidados que, mesmo antes de começar a fazer alguma música, já tinha uma ideia [de que participariam no disco], como é o caso do NERVE, da Capicua, do Slow J, do Camané ou da Gisela João. Até por termos uma relação de alguma proximidade, sabia que provavelmente conseguiria convencê-los a entrar no disco. Mas depois houve imensas situações que foram acontecendo e às quais tive de dar resposta. Como escrever letras, não fazia ideia que iria escrever para este disco.

E quem foi o "paciente zero"? Se é que lhe podemos chamar assim...

A primeira pessoa que abordei talvez tenha sido ou a Capicua ou o Slow J, apesar de com ele só ter gravado um ano e tal depois e termos alterado tanto a música que já não era nada semelhante à primeira ideia. Aliás, em todas as músicas aconteceu isso. Foi havendo versões e alterações.

Quando é que surge essa primeira ideia para o disco? Consegues situá-la no tempo?

Em boa verdade, a primeira aproximação mais séria foi quando misturei o "Verdes Anos", do Carlos Paredes", há cerca de oito anos. Desde aí até agora tenho trabalhado noutras coisas das quais também não tinha ainda um registo. Talvez tenha sido aí por dezembro de 2016 que tudo ficou mais sério, e arranquei para o processo do disco. Mas pouco depois de o ter começado e de ter mandado logo coisas ao Slow J, parei durante quatro meses para gravar um disco com o Ride. E pelo meio ainda houve os campeonatos de Scratch. Foi surgindo muita coisa pelo meio, mas eu sabia que quando pegasse nisto não ia poder fazer mais nada, e por isso fui adiando até ao ponto de não poder mais.

Escalou tudo do sucesso do "Verdes Anos", lançado apenas - e até hoje - no YouTube?

Foi uma surpresa. Foi algo que foi feito pelo prazer de estar a remisturar aquele tema e cujo resultado me deu muita satisfação. Mas nunca conseguimos prever se algo vai resultar ou não... Até porque se formos analisar, esta [música] foge muito às regras daquilo que é uma música de hip-hop normal. Mas de alguma maneira a coisa funcionou e recebi sempre muito bom feedback do público, o que foi um motivo para aprofundar esta abordagem ao fado.

E teve bom feedback também da Valentim de Carvalho.

Exato. Esse tema teve várias solicitações, quer para anúncios quer para a Eurovisão. O que fez com que o tema tivesse de ser registado como deve ser na SPA. E a Valentim de Carvalho era quem de direito para o fazer. Quando fomos ter com eles, pusemos em cima da mesa a ideia de lhe dar continuidade e de fazer um disco mais a sério. A resposta deles foi sempre muito positiva. Começou por ficar na mesa a ideia de trabalhar os samples do Carlos Paredes, mas rapidamente pedi para ter acesso aos da Amália. A partir daí foi a tal bola de neve.

Teres acesso aos samples da Amália... Isso é quase como deixar uma criança sozinha numa loja de doces.

É mesmo isso. No primeiro dia, salvo erro, vim-me embora porque o técnico de som tinha que se ir embora. Já estava na hora dele para sair. Porque, por mim, tinha ficado até às três da manhã... ou até mais. Acho que tinha levado um saco-cama para o arquivo e era mesmo até não dar mais.

Que arquivo é este, para quem não sabe do que falamos?

Não é um arquivo como se imaginaria, por exemplo, de discos de vinil, que ocupam bastante espaço. As fitas [analógicas] estão guardadas com regulação de temperatura e humidade numa sala, que não é assim tão grande, mas que tem um ambiente todo controlado, onde poucas pessoas lá vão. Fui ter com um técnico de som que conhece bem o espólio e inclusive quais são os melhores anos [das gravações]. Por exemplo, pedia-lhe um tema específico, "A Gaivota", e ele sabia logo quais eram os melhores takes e de que ano é a melhor gravação. Foi uma ajuda muito grande. Se tivesse de estar a ouvir fita a fita, música a música, provavelmente ainda lá estava. Já tinha algumas bases, já tinha até experimentado algumas coisas com o repertório da Amália que já sabia que iriam funcionar. E fi-lo sem ser com as fitas originais. Quando tive acesso a essas, já levava o que queria.

E de onde é que vem esse interesse pelo fado ou pela Amália?

Não havia uma grande presença do fado na minha vida até para aí aos 20 anos. Aliás, da minha geração, não conheço ninguém que ouvisse fado quando era teenager. Mais tarde, quando comecei a produzir instrumentais para hip-hop, nessa pesquisa dos samples é que comecei a descobri que até gostava e me identificava bastante. Foi por via da produção que individualmente comecei a investigar e a descobrir coisas. Passei a ouvir não só com o intuito de estar à procura de samples, mas também em casa ou no carro.

Voltando aos convidados desde disco. Há nomes tão variados, seja na idade como nas influências, do Holly ao Carlos do Carmo. Como é que foi trabalhar com este último?

Foi das pessoas mais fáceis com quem trabalhar, por incrível que pareça. Não houve ninguém difícil, até porque a música é uma linguagem universal. É aquele cliché, mas há sempre pontos em comum para nos entendermos. Com o Carlos do Carmo, posso dizer que quando lhe enviei o instrumental, enviei a medo. Porque não o conhecia pessoalmente e não sabia quais eram os seus gostos para além do fado. Não fazia ideia de como ia ser a reação dele ao instrumental e até estava a preparar-me para um não redondo. Até foi uma surpresa quando veio a resposta: 'gostei muito, vamos para estúdio gravar'.

Toda a experiência de estar com ele em estúdio foi incrível. Ficou toda a gente calada, apenas a ouvir as mil histórias do Carlos do Carmo. Revelou-me inclusive que gravou aquela música, "O Cacilheiro", onde tinha gravado pela primeira vez, no mesmo estúdio, há quarenta anos. Ou que o tema, escrito pelo Paulo de Carvalho, era originalmente era uma bossa nova que foi adaptada para fado. Esta minha versão, como tem muitos timbales e muitas percussões, lembrou-o da América do Sul, algo que o fez aceitar logo.

O Carlos do Carmo foi o único convidado que não conhecias?

Ele e a Ana Moura. Com ela já estava mais confiante quando lhe enviei a música, mas porque foi ela que veio ter comigo e com o DJ Ride no Festival da Eurovisão. Ela viu o nosso set no espetáculo de abertura e aparentemente gostou muito e quis-nos conhecer. Claro que aproveitei logo a deixa, porque já estava a trabalhar no disco, e perguntei se lhe podia mandar alguma coisa e ela mostrou-se logo recetiva. Três ou quatro dias depois e estávamos a enviar-lhe um tema por e-mail. Correu tudo muito bem.

E a Eurovisão?

Foi uma surpresa terem-nos [aos Beatbombers] pedido para fazermos o nosso trabalho, era perfeitamente legítimo... Nós somos DJ's, conhecidos por misturar coisas, era perfeitamente viável que nos tivessem pedido para fazer uma remistura do Salvador Sobral ou algo assim. Mas não. Foi estranho, mas ao mesmo tempo não comprometemos o nosso trabalho em função do sítio onde estávamos. Quererem-nos como nós somos foi um orgulho muito grande.

Este álbum não é só uma remistura de várias sonoridades, é uma remistura de várias histórias individuais e coletivas da música portuguesa.

A cultura ou a música portuguesa não é feita por uma pessoa nem por duas. Esse universo não é composto apenas por um ponto de vista. Tens imensas pessoas que vieram dos PALOPs e que, tendo nascido cá ou não, já estão cá há imenso tempo, são portugueses e têm uma maneira diferente de ver o nosso país. Brasil, África... Tudo isso tem uma palavra a dizer na nossa cultura. Não é só impormos a nossa cultura aos outros e depois sermos impermeáveis ao resto. Por isso, era impossível contar esta história só de um ponto de vista. Tinha de ter o ponto de vista do Carlos do Carmo, mas também queria o do Slow J, o do NERVE, o do Chullage... mas também queria qualquer coisa da sonoridade do Tigerman. Queria muita coisa.

Há algum ponto de vista que quisesses ter incluído e que não tenhas conseguido?

Não. Fiz tudo o que eu queria e muito mais. Nesse aspeto, fiquei muito contente com os resultados alcançados.

Misturas aqui dois géneros com culturas muito específicas: do fado e do hip-hop. Como é que foi a recetividade de parte a parte?

Essa coisa da divisão já acabou um bocado. E também não é a primeira vez que há contacto entre as duas culturas. O Boss AC para mim é o melhor exemplo. Acabam, se calhar, é por ser uma ou duas músicas dentro de um álbum. Eu próprio já tinha feito isso. Quer nos meus álbuns anteriores, quer com Beatbombers. Tínhamos sempre uma ou duas músicas com guitarra portuguesa. Não é que fossem dois estilos que nunca se tivessem cruzado na vida. Se calhar [não tinham] uma relação mais assumida ao longo de um disco inteiro.

A minha pergunta ia mais no sentido de saber se, das duas partes, houve reações de facções mais tradicionais, mais "reais".

Dessa malta eu fujo a sete pés. Purista nunca fui. É claro que isso existe, mas ainda não me chegou esse feedback. Até agora, estou a estranhar não ter tido reações negativas. Não houve nenhum comentário a mandar abaixo, ou uma cena assim.

Mas não é bom receber só feedback positivo?

É, mas também é estranho. Lá está, como existe sempre esse lado do pessoal mais purista da coisa... A mim isso não me assiste, como diz o outro.

Como é materializar isto ao vivo, como irá acontecer dia 28 de fevereiro no Lux? Há palco suficiente para esta grupeta toda?

Vai ser impossível reunir esta gente toda. Duvido que alguma vez isso vá acontecer. Teria de ser num evento muito especial. Uma coisa que combinasse o alinhamento dos planetas todos. Como é tanta gente, combinar as agendas de todas as pessoas é virtualmente impossível. Nesse sentido, estamos a preparar o concerto já desde setembro. Com um formato banda, comigo e com o Ride na eletrónica. E estamos a preparar uma componente vídeo muito forte, com um vídeo para cada tema, já a pensar no facto de que não vamos poder ter os vocalistas todos.

Essa componente será na linha estética de toda a imagem que acompanha o disco?

Vamos explorar outras coisas que não foram exploradas na capa, mas será sempre com o mesmo cuidado na imagem e sob orientação da mesma equipa, a Big Fish. Mas nos vídeos para o espetáculo vamos arriscar um bocadinho mais, até porque é para show, algo que é mais efémero. Acontece e passado uma hora já desapareceu, temos um bocado mais liberdade para experimentar outro tipo de imagens.

Este disco é dedicado ao Razat [DJ e produtor que faleceu em agosto de 2018]. Ele chegou a ouvi-lo?

Tanto o Razat como o Ride foram os meus conselheiros e confidentes de ideias. Mesmo que ele não tenha participado sonicamente em todas as músicas, ouviu todas e deu a sua opinião sobre elas. Esteve comigo em estúdio em praticamente todas as gravações. O tema que tenho com ele e com o Paulo de Carvalho é um tema que já tínhamos começado a experimentar bem antes da ideia deste disco estar formada. É algo que ainda é um bocado fresco. Mas lembro-me perfeitamente de lhe telefonar e de lhe dizer, quase histérico: 'já temos o Paulo de Carvalho para aquela música'. E de o ir buscar a casa e irmos para estúdio gravar com o Paulo. Ter o Razat, que ainda era mais underground que eu, do trance e do techno hardcore, de boné e fato de treino, num dos melhores estúdios, a cantar para o Paulo de Carvalho para lhe dizer qual era a melodia que queríamos e como é que a letra encaixava.... São momentos incríveis. Passado pouco menos de um mês, deixou-nos. Mas, felizmente, conseguimos acabar este trabalho e ele conseguiu ouvir o disco todo. E ouvir este tema inteiro. Não acabei sozinho, acabei com ele e ficou como ele e eu queríamos. É daquelas coisas que não dá para inventar. Este disco tem histórias de sangue, de suor, vida e morte. Aconteceu tudo. Isso é capaz, até, de se espelhar na intensidade do disco.

Se a Amália ouvisse o "Bairro da Ponte", o que é que diria?

Não consigo prever se iria gostar, mas sei que iria ser a favor disto já ter acontecido antes. Durante as investigações que fiz, vi muitas entrevistas dela e foram várias as vezes em que ela referiu que a música não pode estar fechada e que é preciso inovar, pegar nas coisas e transformá-las. Aliás, foi uma das respostas que dei na Valentim de Carvalho, quando me perguntaram o que é que eu achava e o que é que pensava que poderiam ser as reações de determinadas pessoas. Tinha gravado o áudio de uma dessas entrevistas e foi assim que respondi: com a voz dela.

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