Narrativa.
1. Acto de narrar.
2. História contada por alguém.
3. Obra literária, geralmente em prosa, em que se relata um acontecimento ou um conjunto de acontecimentos, reais ou imaginários, com intervenção de uma ou mais personagens num espaço e num tempo determinados.

Numa antiga loja de móveis não muito longe da Avenida de Roma, no centro de Lisboa, 'escreve-se' uma nova Narrativa. Pela mão do multipremiado Mário Cruz (fotógrafo independente, fotojornalista da Lusa entre 2006 e 2022 e vencedor de dois prémios World Press Photo), o local acolhe, desde abril do ano passado, exposições, mas também masterclasses, oficinas, apresentações e debates.

A Narrativa, aliás, começou anos antes de ter paredes e um teto, com uma masterclass com o mesmo nome. Após três edições que culminaram em projetos que receberam mais de dez distinções nacionais e internacionais, surge a ideia do espaço físico, "para quem vê na fotografia uma forma de comunicação", e com o objetivo de divulgar "nomes emergentes e reconhecidos, tanto a nível internacional como nacional".

Com quase um ano de portas abertas, a Narrativa já teve nas suas paredes duas mãos cheias de exposições, entre elas a História do Ano 2021 do World Press Photo, “Habibi”, do italiano Antonio Faccilongo, e o Prémio Novos Talentos FNAC 2022 Fotografia, “Do teu ombro vejo o mundo”, do fotógrafo português João Silva.

No espaço está ainda à mão de todos o acesso a uma biblioteca com mais de uma centena de títulos de fotografia, em permanente renovação.

"Queremos incentivar a literacia visual. Isso consegue-se sobretudo através da nossa biblioteca, que está a crescer a um ritmo muito positivo. Já perdi a conta, mas temos muito mais de cem livros, de autores nacionais e internacionais. Começou com os livros da minha biblioteca, o primeiro livro devo ter comprado há mais de 20 anos, e temos adquirido e recebido várias doações", contou Mário Cruz ao SAPO24, numa conversa no final do ano passado.

Sem qualquer objetivo comercial ou rendimento, a Narrativa tem o apoio da Fujifilm Portugal e da Moldura Minuto.

"A Narrativa só é possível através do voluntariado de vários fotógrafos que no seu tempo livre acreditam que isto é um projeto que merece o seu lugar", conta o fundador. A receber os visitantes, encontra-se sempre alguém ligado à fotografia. André Dias Nobre é um deles. “É um espaço de encontro entre fotógrafos profissionais, amadores ou estudantes, mas também de todos os apaixonados pela fotografia”, explica. “Podem vir ver fotografia da mesma forma que vão ao cinema”.

Um balanço

Com inauguração a 25 de abril de 2022, os primeiros trabalhos expostos foram os seis projectos da edição 2021/2022 da masterclass, com autoria de Alex Paganelli, André Dias Nobre, Filipa Leite Rosa, João Pedro Cardoso, Maria Beatriz de Vilhena e Mauro Silva.

Mário Cruz faz um "balanço extremamente positivo" dos primeiros meses da Narrativa. "Superou os nossos objetivos", diz-nos.

"É muito reconfortante perceber que, mês após mês, as coisas foram-se consolidando ao ponto de o espaço já não parecer suficiente para muitos dos eventos que temos. Projetámos sempre eventos com 50 pessoas, o número de cadeiras que temos, e chegámos a ter eventos com 200 pessoas."

E tudo isto é "apenas o início", há mais planos no horizonte. "Queremos que a Narrativa saia do espaço onde está. Enquanto fundador da Narrativa, para mim, é muito importante que a fotografia chegue às pessoas, sobretudo às camadas mais jovens, que não têm o mesmo tipo de acesso à cultura, sobretudo à fotografia".

Por isso, um dos objetivos do fundador da Narrativa é "vir a trabalhar com as escolas que estão nos piores lugares no ranking nacional e também vir a fazer projetos comunitários através da fotografia". "Espero fazer isso já [em 2023], mas estamos à espera de apoios", antecipa.

Para 2023 está ainda nos planos abrir uma "open call". "Vamos inverter o papel e começar a receber candidaturas para expor. O objetivo é fazer a 'open call' em 2023 para expor em 2024. Isso só mostra a nossa confiança de como o projeto vai continuar. Já fizemos a programação toda e já temos as exposições todas pensadas [para 2023], mesmo que ainda não estejam todas confirmadas."

O espaço, com estas características, não tem par em Portugal. "Por não haver é que é mais fundamental que o projeto continue. Recebemos imensos estudantes de fotografia, que estão em escolas, e que vêm para aqui tratar os seus projetos, falar com outros colegas, ver referências autorais, ver exposições, ter mais uma opinião e um olhar", dá o exemplo.

“Safe House”

Quem visitar a Narrativa por estes dias encontra exposto o trabalho da fotógrafa documental Lea Thijs, "Safe House”, centrado no seu pai, recentemente diagnosticado com transtorno bipolar.

“Ao desconstruir as paredes da minha casa, para examinar os alicerces da minha família, quis fotografar o meu pai, que recentemente foi diagnosticado com transtorno bipolar. Ser capaz de dar um nome à sua condição e explicar os seus padrões de comportamento, após 20 anos, permitiu-lhe construir um ambiente sustentável em torno de si mesmo. Agora, estando o meu pai sob medicação, senti que era hora de documentar a sua vida, na África do Sul, e revisitar as memórias associadas à sua infância em Bruxelas”, explicou Lea Thijs, citada num comunicado divulgado pela Narrativa.

A mostra marca o arranque da programação da Narrativa, “um espaço dedicado à fotografia portuguesa com especial foco nos fotógrafos emergentes e na fotografia documental e autoral”, para 2023.

“Safe House” estará patente até 18 de fevereiro.

Na agenda deste mês está ainda a Narrativa & Fujifilm: Touch&Try, Talk e Oficina, a 28 e 29. No programa do primeiro está a possibilidade de conhecer equipamento Fujifilm (XT-5, X-H2 e X-H2S) e uma conversa com Luis Barbosa, fotógrafo e um dos autores do Prison Photo Project. No dia seguinte, uma oficina de retrato com o X-Photographer João Carlos (limitada a 12 participantes).

A Narrativa fica no número 60 da Rua Dr. Gama Barros e está aberta de quarta a sexta-feira, entre as 14 e as 19 horas. Aos sábados encerra pelas 17 horas.

Todos os eventos são gratuitos. "Porque acreditamos que é assim que a fotografia deve ser, deve chegar a todos", lembra Mário Cruz.

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