Era uma manhã cinzenta, descreve a micaelense Natália Correia, que se pôs a cruzar o mar em direções diferentes: “Por quantas terras fui, por quantas gentes, / Nesta longa viagem que não finda”. As viagens e os lugares são há muito parte do universo criativo dos autores. A escrita bebe dos sítios por onde passam, ainda que não sejam territórios nomeados e tangíveis.

A manhã está mesmo cinzenta. Dentro de minutos deixa de estar, para logo retornar à abulia meteorológica. João Tordo está em Ponta Delgada. O autor português é um dos convidados do “Arquipélago de Escritores”, promovido pela autarquia micaelense com o objetivo de levar escritores e leitores à cidade para falar da literatura e da insularidade; dos escritores e dos insulares.

Depois de falarmos da insularidade no escritor, com Nuno Costa Santos, Onésimo Teotónio Almeida e Pedro Mexia, olhemos agora para a geografia no escrito, à boleia de João Tordo.

No arranque das histórias, vem sempre uma personagem, um tempo e um lugar. Esta é, pelo menos, a premissa das teorias do arco narrativo, para que contribuíram Michael Rabiger, Christopher Vogler ou Robert McKee, por exemplo. Este lugar, porém, pode não ser evidente. Pode não ser uma geografia real, sequer fundamental para a história.

“Os meus livros, às vezes, tanto variam em não ter geografia, como a trilogia que escrevi há pouco tempo, que começa com O luto de Elias Gro, que também é um livro que se passa numa ilha, como nós estamos aqui agora [em São Miguel, Açores]; mas é uma ilha sem nome e os dois livros seguintes não têm geografia”, explica João Tordo ao SAPO24.

“Às vezes é muito localizado: tenho romances muito especificamente localizados em partes do mundo — no Japão, em Lisboa —, mas acho que a geografia é importante para os livros no sentido em que marca o território de uma personagem emocionalmente”, diz.

"O luto de Elias Gro não podia ter sido escrito fora daquela geografia, de uma personagem que vai para uma ilha exilar-se e vive dentro de um farol; e o farol, sendo uma geografia dentro de uma geografia, um sítio concêntrico, fechado e claustrofóbico, faz parte da história daquela personagem, faz parte da sua narrativa interior”.

Porque “as geografias muitas vezes são o território emocional das personagens. Fora disso, não faz sentido usar a geografia só como cenário; está intrinsecamente ligada com a narrativa interior de uma certa personagem”, defende o autor português.

“Se eu escrever sobre certas coisas que estão relacionadas com a minha infância ou adolescência ou com a minha jovem idade adulta... Por exemplo, Lisboa tem uma geografia muito própria para mim — mas tem um significado, não é só Lisboa como nós a conhecemos, é a Lisboa daquela personagem".

Não generalizando, Tordo diz que “há muitos escritores da [sua] geração, entre os 40 e 45 anos, para quem a geografia se tornou num projeto variável e mutável”. “Já não temos muito a preocupação de escrever sobre o Portugal interior”, diz.

As ilhas e os homens que as habitam

“Nenhum homem é uma ilha”. A ideia é de 1624, escrita pelo poeta britânico John Donne, que defende, logo a seguir, que todos os homens fazem partes de continentes. Mas a insularidade é capaz de marcar profundamente a paisagem mental de uma personagem se para uma ilha for atirada.

Para João Tordo, os autores açorianos podem acabar por ser “profundamente marcados pela insularidade e pelo facto de viverem num arquipélago, que é muito diferente de viver num continente e isso só pode tornar a escrita deles fascinante nesse sentido”. "Têm uma perspetiva que eu certamente nunca poderei ter sendo um tipo de Lisboa.”

“Por exemplo, o Joel Neto ou o João de Melo são escritores açorianos, mas não acho que eles sejam intrinsecamente açorianos no sentido em que a geografia não é insular, não é de fora para dentro, mas de dentro para fora. Por isso, o Joel Neto muitas vezes escreve sobre os Açores, mas escreve sobre os Açores numa tentativa de chegar ao mundo e o João de Melo faz a mesma coisa”, explica João Tordo.

 A geografia do homem

"A minha geografia particular: eu vivo em Lisboa, mas acabo por viajar bastante. Tenho uma geografia fixa, sim, tenho um lado sedentário; o lado nómada vai-me ajudando a lidar com o lado sedentário”, diz o autor de Três Vidas.

“Quando viajo, quando sou confrontado com outras coisas, acabo por ter experiências que depois me ajudam a construir dentro do sedentarismo. Às vezes, o que sucede é que vou captando fora do quotidiano essas experiências: há umas que ficam, outras que não; as que ficam são as mais importantes. Depois, dentro do sedentarismo que a escrita pede e implica — porque se não estás sossegado e não tens uma rotina é muito difícil escrever, é quase impossível trazer esses imprevistos para o quotidiano.”

E a aplicação, a prática da escrita é feita mesmo no meio do dia comum: “Tendo a escrever em lugares barulhentos, gosto de sítios confusos e onde se vê pessoas a passar. Gosto de cafés — gosto muito pouco de escrever em casa, gosto de geografias onde se vê constantemente coisas em transição. Isso para mim é engraçado, porque acaba por desassossegar um bocado a prosa e torná-la mais mexida”.

Ilha gentia, viva no pensamento

Este "Arquipélago de Escritores" trouxe a literatura para o meio do mar. Experiência que é positiva para João Tordo: "Gosto de ilhas e gosto desta sensação de insularidade e de só ter mar à volta”.

O evento, porém, aproxima-o de velhos amigos, num novo lugar: “Para mim é muito engraçado, porque estou aqui rodeado de pessoas que conheço de lá [do continente], mas ao mesmo tempo até a língua me parece diferente. Sinto que estou em Portugal, obviamente, mas ao mesmo tempo sinto-me removido do meu habitat e isso é bom”.

O escritor português João Tordo numa conversa entre escritores e leitores na livraria Solmar, no âmbito do encontro "Arquipélago de Escritores", em Ponta Delgada, Açores, no dia 17 de novembro de 2018. créditos: PEDRO SOARES BOTELHO/MADREMEDIA

O que lê um ilhéu? O mesmo que um continental: “Os leitores procuram todos um bocadinho a mesma coisa: procuram identificação emocional com o que leem e isso pode ser conseguido por um escritor local, como pode ser conseguido por um escritor universal”, diz João Tordo.

“Em todas as partes do mundo, continuamos a ler Dostoiévski, continuamos a ler Virginia Woolf, continuamos a ler os clássicos e não importa se foram escritos na Rússia ou na Argentina. Não me parece que os leitores açorianos sejam diferentes dos outros".

"Parece-me que se calhar estão mais atentos aos fenómenos locais, dos escritores locais, a que não posso estar atento, porque não vivo aqui, mas têm se calhar alguma curiosidade que talvez que não exista tanto no continente, no sentido em que no continente tens encontros destes todos os dias, ou tens sessões de autógrafos todos os dias, ou tens muita coisa a acontecer e aqui se calhar tens menos coisas a acontecer e portanto se calhar os leitores estão mais atentos a um fenómeno particular.”

“Não sei se levo daqui algum material de ficção, não faço ideia, depois logo vejo, mas acho que é mais as amizades e estar com pessoas que normalmente não passas tanto tempo com e estares num ambiente em que toda a gente caminha no mesmo sentido, de nos entendermos, de partilharmos a experiência literária, que acho que é a experiência mais profunda para um escritor e para os leitores.”

A primeira edição do "Arquipélago de Escritores" começou na quinta-feira e terminou este domingo, 18 de novembro. Organizado pela Câmara Municipal de Ponta Delgada, o evento teve produção da agência literária StorySpell, contando com o apoio da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e do Governo dos Açores, através da Secretaria Regional da Educação e Cultura.

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