10:00

O céu pôs-se negro. Do alto escorrem as chuvas. Uns hão de escrever que são as nuvens a chorar. Mas as formações nebulosas pouco sentimento hão de ter. Chove porque é tempo disso.

A Sé do Porto recebe o corpo de Agustina Bessa-Luís. O corpo da escritora morreu esta segunda-feira, mas desde 2006 andava retirado da vida pública. Desde 2006 que poucos o viam. A Agustina morreu-lhe um corpo que tinha 96 anos.

11:00

Cá dentro da Sé, tombam graves os passos, ecoando no granito escuro. O toc-toc das solas pesadas no soalho vem lento, cauteloso até, a ver se não perturba a santidade das estátuas no altar.

Vêm ilustres; vêm anónimos. Uma mulher velha coxeia pela Sé. Vai vagarosa para perto da urna. Põe-se na fila. Avança, ainda mais lenta, e tomba os olhos ao chão diante do corpo mortal de uma escritora que não morre.

As gaivotas gritam. Poderá ser que estejam só entoando o que julgam ser loas — ideia, porém, frágil, somente verídica se acreditarmos nas aves leitoras; nas aves que apreciam o romance e o teatro.

Elas hão de estar a ser só o que são: bichos. Ignoram o luto nacional e o luto municipal. Ignoram de igual maneira o vulto que jaz numa caixa de madeira ali no transepto da catedral em cujas paredes ressoam os gritinhos dos pássaros marítimos.

Os turistas espantam-se também. Vêm ajoujados com mochilas e cantis, seguindo os mapas que os mandam entrar onde hoje não podem. O Porto fechou a Sé e reservou-a ao velório. À porta, depois do muro de câmaras e jornalistas de microfone ao alto, dois homens questionam quem entra, a saber se vão velar ou fazer turismo.

“Quem a conheceu como eu conheci”, vai dizendo um homem, enquanto sai da catedral. O resto da frase já se não ouve, longe que vai no edifício. Um tilintar ocupa o resto do espaço sonoro. Os cabelos abaulados, mesmo se saturados em lacas, tremem com os católicos passos das senhoras. Os brincos apitam ao bater dos pendentes. As pulseiras escorregam nos braços flácidos.

A um lado e ao outro da urna, como infantaria apeada, os repórteres armam a artilharia. Não se lhes ouvem os disparos, que a pólvora atual é silenciosa. Rara vez um tom eletrónico exalta-se quando o artilheiro aperta um indevido botão. Depois, deitam os holofotes sobre a urna. E viram-nos para quem se senta, cegando as gentes com a luz branca e intensa que atiram.

créditos: Pedro Soares Botelho | MadreMedia

12:00

Uma mulher de longo casaco negro cheio de finos desenhos brancos deita flores num mar delas que inunda os lados da urna. Demora-se na cabeceira do caixão. Olha para a fotografia de Agustina. Beija-a, antes de sair.

13:00

Ei-lo: morto. O orgânico que por 96 anos criou jaz agora defunto. O coração não bate, os olhos não veem. Os brados da voz, porém, ainda que sem ar tremendo na garganta, são altos. Agustina tornou-se sibila na sua mística. Feiticeira do silêncio, escolheu deixar a literatura em 2006. Sem explicação.

Há quem teça teorias, presuma razões. Todavia, Agustina não esclareceu nenhuma. Decidiu só calar-se, depois de um AVC.

Este ensaio do desaparecimento permitiu-lhe testemunhar em vida o esquecimento. Gente há que só com a notícia da morte se apercebeu de que estava viva. O exercício, no entanto, foi preâmbulo da eternidade. Pois que neste seu afastamento, apesar da distância protegida que a família preservou em sua volta, Agustina continuou a estar presente. Não falava ela, mas falavam-lhe os livros.

Há agora, por isso, a certeza de que a morte é só o princípio de um novo tudo, uma passagem da vida orgânica para a vida eterna, reservada só àqueles que, com olhos de Blimunda, veem os homens por dentro — e no-lo mostram. Hão de lhes chamar bruxas, oculistas, sibilas. Hão de estar certos.

Mónica Baldaque dizia que nos últimos tempos a mãe estava mais sibila do que nunca. A imortalidade que antes sequer da morte se antevia era já disso prova.

14:00

Os leitores entram tremidos, assustados como se não fosse este um lugar deles também. Uma mulher traz num saco de plástico aquilo que parecem ser livros. Há de estar trazendo as letras para que encontrem de novo a mão que as compuseram. Os hesitantes passos pesados fazem as caras seguir-lhe o caminho, fitando-a como se não fosse este um lugar dela também.

15:00

Diante da Sé Catedral, no adro onde se ergueu a cidade mediática, um homem vai dizendo “isto é uma vergonha”. Grita, mas quem o ouve não o escuta. Repete. “A senhora não conhecia a realidade do país”. “Uma vergonha”, insiste.

Dali a pouco, o batalhão jornalístico começa a mobilizar-se. Correm em direção ao carro que chega, como pelotão de fuzilamento, ansioso pelo disparo ao alvo que se avizinha. Vem de lá Graça Fonseca, a ministra da Cultura.

Entre jornalistas e turistas, o homem que grita passa também. Vai-se pôr diante da Casa dos Vinte e Quatro, onde o carro da ministra para. Mal ela sai, abeira-se para continuar: “Isto é uma vergonha”. A ministra ouve-o, mas segue despreocupada. O vento ataca-a mais do que as palavras do velho que grita. E ele volta para a sombra.

“Mas isto admite-se?”, vão dizendo incomodados os repórteres, olhando para o homem. Lá na sombra da antiga câmara, o velho que grita explica os brados que atira: “o que é que ela fez pelo país?”, questiona. “Não tenho nada contra a senhora, mas ela só escrevia livros no seu canto. Não conhece o país real”, afirma. “Isto”, diz, enquanto aponta para as câmaras, para as gravatas, para as palavras, “isto é o elitismo”.

Há outra coisa que o incomoda: o circo. “Se fosse da família, mandava-os todos daqui para fora”. “O que é este espetáculo?”, vai dizendo. O homem que grita veio de longe. O sotaque não foge deste Porto, mas ele garante-nos que veio de longe e de propósito para gritar.

Não dá o nome. Nem detalhes mais que o identifiquem. Havemos de o encontrar ainda três vezes antes de ir embora. E das três vezes que o homem que grita se cruza connosco, pergunta onde vai ver as coisas que disse.

No entretanto disto, são 15:30. Chega Marcelo Rebelo de Sousa. O homem que grita desaparece. O presidente entra na Sé e após uns instantes junto à urna, senta-se no coro. Depois, sentam-se ao seu lado a ministra da Cultura, o presidente da câmara do Porto, Rui Moreira, e o reitor da Universidade do Porto, António Sousa Pereira. Ali à beira juntou-se ainda, entre outros convidados, Assunção Cristas, líder do CDS-PP.

Marcelo ficou atrás da família da escritora. Agustina ”está no Panteão de todos os portugueses", disse o presidente depois da cerimónia. ”Um génio que soube retratar as mudanças de Portugal”.

créditos: Pedro Soares Botelho | MadreMedia

16:00

Às quatro em ponto, logo após os sinos contarem o tempo, os acordes arrancam no órgão. O tom pesado que sopram estremece o povo que foi à Sé. Do fundo da catedral, metido em fumos, vem ao alto o Cristo, ladeado das velas e atrás de quem vem o bispo, Manuel Linda, de enlutado roxo.

Os fumos sobem e quando lhes dá o sol, que corta pelas janelas, são como nuvens de dinâmica contínua a ascender lá para onde sobem as nuvens — primeiro ao céu e depois ao resto.

“Dor partilhada é dor diminuída”, afirma o sacerdote. “Estamos com a família para partilhar a dor que eles sofrem”, continua, exortando a devoção de Agustina. É Manuel Linda quem desce do topo da Sé para deitar água sobre a urna, completando os ritos fúnebres.

Na homilia, o bispo do Porto recordou passagens marcantes da obra de Agustina Bessa-Luís e descreveu a religiosidade da escritora natural de Vila Meã, Amarante. Depois, agradeceu. Agradeceu a Deus — e a Agustina.

“Obrigado, meu Deus, que nos deste uma pessoa com tão alta categoria intelectual, religiosa e cristã; e obrigado, Agustina, por esta extraordinária lição de teologia que a tua vida acabou por nos dar”.

Manuel Linda referiu também que “a condição humana” é uma das "marcas" da “vastíssima obra literária" de Agustina Bessa-Luís. O sacerdote contou saber que a devota escritora “se prostrava muitas vezes sobre um oratório que tinha em casa”.

créditos: Pedro Soares Botelho | MadreMedia

17:00

Passam dez minutos das cinco da tarde. Das entranhas da Sé vem a urna. Quem se junta ali à beira aplaude. Os turistas, atarantados, ou aplaudem ou deixam-se só sem perceber.

O caixão entra num dos carros fúnebres. Depois, é inundado em flores. O povo ajunta-se a ver. Abeira-se nos balaústres da Sé para espreitar Marcelo, que está sequestrado num círculo de repórteres.

Ao longe, Mónica Baldaque espera com o Douro por trás. O sol vai longe de se pôr, mas a viagem até à Régua ainda é longa. Será nessa cidade, também à beira deste mesmo rio, que o corpo de Agustina ficará.

Postas as flores, entre coroas grandes e pequenas, a porta de vidro cerra. Encarreiram-se atrás uns poucos carros. A partir daqui, a cerimónia está reservada à família. O carro avança, ouvem-se novamente palmas.

Ali dentro vai o corpo. Cá fora, fica o tudo que nunca chega a morrer.

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