Soube que não podia ter filhos biológicos, mas nunca perdeu a esperança de ter uma família só sua e até escreveu o livro "Reis Procuram Príncipes", que conta a espera dos pais pelos filhos adoptivos. Longe de saber que um dia – mais perto do que sonhava - as duas filhas iriam ouvir e adorar a história.

Na casa havia um quarto de brinquedos, em tempos o quarto para receber sobrinhos aos fins-de-semana, que foi crescendo com livros infantis, brincadeiras e peças esquecidas. "A certa altura já não estava à espera de sobrinhos, estava à espera de filhos", conta Ana Kotowicz. "E eu ia com frequência sentar-me no quarto, ficava a olhar e pensava: "Quando será?"" Naquele dia ali estava, a beber o primeiro café da manhã, quando o telefone fixo toca. "Ninguém liga para o telefone fixo, não fui atender. À segunda vez, levantei-me a pensar que era uma operadora de telemarketing e que ia ter uma fúria". Não era. Do outro lado a voz conhecida da psicóloga da Santa Casa da Misericórdia: "Tenho duas meninas para vocês".

Ana não se lembra de mais nada, a não ser de ouvir perguntar: "Então e não quer saber os nomes delas?!" Queria, claro que queria. Queria saber tudo: nomes, idades, ver as caras, abraçá-las. Passava um par de dias do Natal e o presente não podia ter sido melhor. Era cedo e Paulo, o marido, estava a dormir. Correu para o quarto e pôs-se aos saltos em cima da cama, a gritar o nome das miúdas: "D e M, D e M, são os nomes das nossas filhas!" Ela gritava e ele pedia: "Deixa-me dormir, sai daqui". "Acabámos de receber o telefonema", saltava. E só então Paulo percebeu o que aí vinha.

As pequenas adoram ouvir esta história e pedem à mãe que a repita vezes sem conta: "Conta lá como foi quando telefonaram e o pai estava a dormir..." Foi assim que Ana soube que "estava grávida".

Passaram dois anos entre a data em que a Santa Casa da Misericórdia os considerou aptos a adoptar e aquele telefonema. "Só comecei a contar o tempo a partir daí e estava sempre à espera que me dissessem: "Olhe, não dá. Não ganha o suficiente, a casa não serve, tem muitos gatos...". Mas não disseram. Antes e depois também houve um longo caminho. "Eu e o Paulo conversámos muito antes de decidirmos adoptar. Além disso, as assistentes sociais pintam muito bem o retrato de quem são as crianças que estão nas instituições e não é nada romântico".

A ilusão e a realidade 

Há em Portugal cerca de oito mil crianças institucionalizadas. Dessas, apenas 800 estão em condições de ser adoptadas, ou seja, 10%. Não são tantas como se pensa, sobretudo se tivermos em conta que os candidatos a pais são três vezes mais. Os números não variam muito de ano para ano e é preciso percebê-los. Muitas das crianças que estão nas instituições não podem ser adoptadas e o sistema privilegia o regresso da criança à família biológica; a nuclear, primeiro, a alargada, depois. Apenas quando estas opções falham se parte para a adopção.

Ana Kotowicz é peremptória: "Não há um direito a adoptar, há o direito da criança a ter uma família. E isso é muito importante, pensar que as assistentes sociais estão à procura de pais para aquelas crianças e não à procura de crianças para aqueles pais".

Talvez por isso existam histórias como as que conta no livro: em tribunal, Joaquim quer que fique escrito em acta que considera inadmissível que a filha tenha ficado sete anos institucionalizada. "Uma criança não pode esperar sete anos", concorda. No entanto, "não me quero imaginar na pele de um juiz que tem de separar pais e filhos, por exemplo. Porque uma coisa é quando há maus-tratos ou abusos sexuais, aí é fácil. Outra é a fatia gorda da negligência, onde cabe tudo. Muitas vezes há negligência porque há probreza, e não se pode tirar filhos aos pais só por serem pobres, não terem dinheiro. Nestes casos a obrigação do Estado é ajudar a família". E recorda o casal de irmãos institucionalizado, mas que não podia ser adoptado por haver fortes vínculos com os pais, que não tinham condições para os ter em casa, mas iam visitá-los todos os fins-de-semana. "Não se pode retirar as crianças àqueles pais, que estão a tentar fazer o seu melhor. É complicado".

Mas há mais. Ana lembra-se do terrível que foi a selecção dos critérios segundo os quais estaria disposta a adoptar. "A parte que me deixou mais desconfortável foi quando tivemos de escolher: idade, sexo, doenças, etnia. Temos de dizer sim ou não e sempre que dizemos não, estamos a dizer não a uma criança de carne e osso". Uma criança com Trissomia 21 tem muito poucas ou nenhumas hipóteses de ser adoptada.

As pessoas põem de lado crianças filhas de alcoólicos, toxicodependentes ou esquizofrénicos, têm medo da hereditariedade. "No entanto, se pensarmos um bocadinho, essas são grande parte das crianças que estão institucionalizadas e foram retiradas aos pais biológicos exactamente porque por esse motivo. Inicialmente isso também nos preocupou, mas depois começámos a olhar para a genética, a minha e a do Paulo, e percebemos que de ambos os lados havia um pouco de tudo. A genética é importante, mas não é o mais importante".

As pessoas queixam-se de os processos serem longos, mas esquecem-se muitas vezes das condições que impuseram. A etnia já quase não é um problema, mas muitos continuam a querer bebés. A maioria das crianças institucionalizadas tem mais de seis anos. "Também não me parece que as pessoas devam ir contra a sua vontade e alterar estes pressupostos apenas para o processo ser mais rápido. Nem todos têm de ser capazes do mesmo, caso contrário está-se a passar por cima de um problema que acabará por aparecer. É importante ser-se honesto".

Mas é aqui que Ana Kotowicz acredita que as coisas podiam mudar. "Um trabalho mais cuidado com as famílias talvez mostrasse que há riscos, mas não são assim tão elevados. Muitas vezes dizemos não a coisas que nem sabemos exactamente o que são. Por exemplo, falei com os pais adoptivos de uma criança seropositiva e depois disso seria capaz de dizer sim a um filho seropositivo, quando disse não. Para responder sim ou não a crianças com cardiopatias tive de perguntar o que era e quais as implicações, porque não sabia. Atrasos de desenvolvimento é um chavão para todo o tipo de coisas. No entanto, a minha filha mais nova, que aos quatro anos não conseguia subir escadas sozinha, agora corre. Num ano e meio o desenvolvimento motor dela é fantástico. Quase não tinha vocabulário e agora, apesar de continuar atrasada na fala, não tem comparação", diz feliz.

A verdade é que quando uma mãe fica grávida não sabe o que lá vem. E um filho pode ser perfeito e normal, ter um acidente e ficar afectado ao nível motor ou cognitivo para o resto da vida. "Devia haver mais tempo para explicar o que se está a recusar".

O primeiro encontro

As duas pequenas estavam a andar de baloiço quando Ana e Paulo chegaram ao local combinado. "Olharam para nós, saltaram do baloiço e correram na nossa direcção: "Pai, mãe!" e atiraram-se para o colo de cada um, com um grande abraço", recorda Ana. Depois, como se fosse a coisa mais habitual do mundo, pegaram os dois pela mão: "Vá, vamos brincar".

Parecia que se conheciam há muito, mas foi a primeira vez que se viram. Ana e Paulo já conheciam D e M de fotografia. Elas também. Para pais e filhos o processo é semelhante, ainda que com tempos diferentes: "Para nós é horrível ter de esperar um mês, podemos imaginar como será para as crianças".

Se o telefonema é a notícia da gravidez, a seguir vem o tempo de gestação. Muito rapidamente, às vezes no próprio dia, o casal reúne-se com a sua equipa e recebe todo o historial da criança que está para chegar, um relatório muito completo. "Ficamos a saber tudo". Tudo menos quem elas são fisicamente. "E temos de dizer sim ou não, se as queremos". O sim nunca é aceite na hora, é preciso ir para casa pensar, digerir a informação. Só depois é mostrada uma fotografia e marcado o primeiro encontro, normalmente para daí a 30 dias.

Este é o período para o casal se organizar, fazer obras, pintar paredes, comprar móveis. "No nosso caso, para criar um quarto e espaços para receber duas meninas". Neste tempo há também um encontro com todas as assistentes sociais: as que acompanham o processo do lado dos pais, as que estão responsáveis por encontrar pais para as crianças e ainda as da instituição a quem estão entregues. "E temos de levar o álbum, uma apresentação dos pais, com fotografias nossas, da casa, dos gatos, do quarto delas, do quarto dos brinquedos, da banheira, tudo com um textinho muito simples".

As crianças só têm acesso ao álbum uma semana antes do grande encontro. "Quando fomos à instituição vimos que por cima das camas elas tinham um calendário com os sete dias da semana, que iam riscando, e no último dia, aquele em que iriam conhecer-nos, estava a nossa fotografia", recorda Ana.

É um mês que parece anos. "Durante aquele mês olhávamos para as fotografias e só conseguíamos dizer: "Tão lindas!" E mostrávamo-las a toda a gente". No dia D ninguém prevê o que pode acontecer. "Pensei que iam fugir de nós. Estavam institucionalizadas há dois anos, a mais velha com muita consciência do seu pai e da sua mãe. Esperava que fosse dramático". Estiveram juntos até à hora de almoço e o drama veio então: "É horrível, porque a última coisa que queremos depois é largá-las".

créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

Perguntas inconvenientes

D e M são irmãs de sangue e têm hoje seis e sete anos. O limite de idade que Ana e Paulo colocaram na candidatura à adopção foi de seis anos, idade que a mais velha completou pouco tempo depois do telefonema. Um mês antes, mais coisa menos coisa, os dois tinham decidido subir a ligeiramente a fasquia da idade, mas tiveram tempo de o comunicar à assistente social.

De resto, "desde o início que demos preferência a irmãos. O principal motivo é acreditar que, inevitavelmente, chegará uma altura em que as crianças vão querer olhar para trás e descobrir as suas raízes. Pensei que isso seria mais fácil tratando-se de irmãos, além de que, tendo ali uma ligação biológica não se sentiriam tão perdidos. Se isso acontecer, obviamente que vamos estar com elas e ajudar no que pudermos, mas parecia-me uma ligação importante. Por outro lado, sabíamos que, mais tarde ou mais cedo, quereríamos outro filho", explica Ana.

Depois do primeiro encontro, e durante um período que pode variar, todos os dias o casal vai ter com as crianças à instituição. Neste caso o chamado período de integração durou 15 dias. "Nos dois primeiros dias foram só as manhãs, depois o dia inteiro. Começamos aos poucos, até sermos nós a dar o almoço, depois o banho e pôr na cama". Ana não esquece o quarto dia, quando, no carro, a mais nova exclama: "Que bom que agora já temos uma família". Ainda assim, todos os dias há o momento da separação, um pouco como se o recém-nascido fosse levado para a ala da neonatologia com problemas.

E ainda não acaba aqui. Ao longo dos seis meses seguintes, em que os pais não são oficialmente a mãe e o pai, mas sim os curadores, a avaliação continua: uma visita por mês, ora em casa, ora na rua, "penso que para a assistente social perceber como é a interacção em ambientes diferentes", conclui Ana. É nesta fase que se ouvem as notícias sobre crianças devolvidas às instituições, umas vezes por vontade do casal, outras por ordem da Segurança Social.

E é também nesta fase que surgem os comentários e as perguntas mais difíceis. Ana Kotowicz não esquece o dia em que a filha mais velha, deitada na cama, suspira: "Que bom que é ter a minha mãe deitada na minha cama". Ou outro, em que depois de muitas interrogações sobre porque é que as coisas aconteceram assim, confessa: "Bom, bom era vivermos os seis juntos" [pais adoptivos, pais biológicos e manas].

Quando chega esta fase, a caminhada já foi longa, mas necessária. O primeiro passo é a formação A: uma manhã inteira a ouvir falar do que é a adopção e que expõe de forma dura e realista o que significa adoptar. Esta é a triagem inicial. Muitos casais ficam por aqui; não conseguem suportar a ideia da avaliação, que funciona também como terapia de casal, expondo marido e mulher e todas as suas vulnerabilidades. Estas sessões obrigatórias só acontecem quando há número suficiente de candidatos. Ana e Paulo fizeram-na dois meses depois de se terem inscrito, numa sala cheia onde estariam 20 pessoas.

Todos os casais candidatos a adoptar têm de ser avaliados. A lei prevê seis meses para a Segurança Social ou a Santa Casa da Misericórdia decidirem se os candiatos estão ou não aptos. "Sentimo-nos muito escrutinados, mas não penso que seja uma coisa má. No final até achei que me podiam ter feito mais perguntas. É claro que existe muita pressão, para todos os efeitos está ali um avaliador, psicóloga, assistentes sociais, que são quem vai decidir se podemos ser pais. Numa gravidez normal isto não acontece", diz. "Aliás, é por isso que há crianças em instituições à espera de serem adoptadas".

Os receios de pais e filhos

O tempo vai passando e os medos vão surgindo de parte a parte. Ana acredita que um dia as suas filhas vão querer procurar os pais biológicos, pelo menos a mais velha. "Era o que eu faria no lugar dela, nem que fosse para ver de longe. Faz parte do início da vida, deixa marcas para sempre". Os especialistas afirmam que quando na infância as crianças fazem todas as perguntas e os adultos lhes dão todas as respostas, elas começam a arrumar melhor os assuntos e ao chegarem à adolescência ou à idade adulta têm menos necessidade de procurar. "E é o que tentamos fazer, responder a tudo o que podemos, sem nunca as magoar. Há coisas de que não se lembram e também não precisam saber".

Ainda um destes dias a mais velha foi ter com a mãe e disse: "Já não me lembro da cara dos meus pais". "E queres lembrar?", perguntou Ana. "Quero", respondeu M. "Ela abraçou-me e disse: "Obrigada, adoro-te." E foi imediatamente brincar, sem precisar de mais. Aquilo bastou-lhe para a sossegar", conta.

O bom senso é importante, mas é preciso não ter receio de pedir ajuda. "Sempre que tinha dúvidas ligava à nossa psicóloga, se calhar mais vezes do que ela gostaria. Na altura, disse-me que o mais provável era a necessidade de M ouvir que agora estava numa família que seria para sempre. E também nos disse que não devíamos alimentar a esperança de ela visitar os pais biológicos. Explicámos-lhe, com todo o cuidado, que essa família tinha terminado a partir do momento em que o juiz, figura que ela tem muito presente, decidiu retirá-las dos pais".

As questões não são só da parte das miúdas. Os pais também vivem as suas aflições. "Lembro-me do drama que era, por um lado, saber que é preciso impor regras desde o primeiro momento, por outro, querer que elas gostassem de mim", confessa Ana. No processo de adopção também existe uma formaçáo específica neste matéria; durante algumas semanas os pais são confrontados com casos concretos e é-lhes dado um papel, que pode até ser o da criança.

Um dia, a filha mais velha disse a Ana: "Estava à espera que fosses uma mãe melhor". Ana tremeu. "Mas então porque é que sou má mãe?", quis saber. "Porque não me deixas ver desenhos animados sempre que quero, obrigas-me a lavar os dentes, não posso comer todos os chocolates..." E, de repente, Ana Kotowicz percebeu que estava a fazer tudo certo. "Os laços criaram-se rapidamente, até muito mais facilmente do que eu julgava, mas às vezes, quando elas estão naquela insistência de alguma coisa, é difícil não ceder, com o receio de que não gostem de nós".

As mudanças 

Quando D e M chegaram, Ana e Paulo optaram por ficar com elas em casa. Estavam ambas no pré-escolar, a mais velha iria para o 1.º ano do primeiro ciclo e as mudanças acabaram por incluir a mudança de escola. "A nossa opção foi tirá-las da escola e ficar em casa com elas. Houve uma fase em que achei que enlouquecia, que não ia aguentar aquilo 24 horas, portanto o melhor era colocá-las na escola. Mas fui sempre pedindo ajuda, porque acreditava que do outro lado estavam pessoas com experiência, que lidavam com aquelas situações há anos".

Depois de se aconselhar, Ana recuou. "Na altura disseram-me uma coisa muito importante, e foi o que me fez mudar de ideias e continuar com elas em casa: por estarem mais tempo na escola, elas poderiam criar com as professoras um vínculo mais forte do que com os pais, havia esse risco. E ainda bem que fiquei com elas em casa, não teríamos chegado onde estamos hoje se não tivéssemos estado aqueles meses juntas".

Os pais são soberanos nas suas decisões. Uma delas a de contar ou manter em segredo que os seus filhos são adoptados. Ana e Paulo preferiram contar. "Primeiro porque tinha havido uma série de mudanças na vida delas, novos pais, nova casa, nova escola. Segundo, porque a mais nova trazia uma série de atrasos de desenvolvimento e a mais velha tinha uma série de problemas comportamentais, era importante que a escola soubesse o quê, porquê e estivesse preparada para as ajudar".

Mesmo que não o tivesse feito, o segredo teria sido de pouca dura: M tratou de contar tudo à escola inteira. A certa altura a professora tinha até miúdos do 5.º e do 6.º ano a perguntar-lhe se a história da adopção era verdade e o que significava isso exactamente. As perguntas acabaram por servir para falar sobre o tema na escola e Ana Kotowicz foi ler o seu primeiro livro, "Reis Procuram Príncipes", à turma da filha mais velha. "A primeira vez que lhes li o livro foi uma emoção incrível", recorda Ana. "Depois, quando fui à sala de aula da mais velha, ela estava numa excitação enorme". Quando perguntavam a M o que é que a mãe faz, a resposta saía pronta e com orgulho: "É polaca e escreve livros".

No livro, Ana Kotowicz fala nas gavetas do coração para explicar que há várias gavetas onde se podem guardar todas as pessoas de quem gostamos. Há pouco tempo, M, que gosta de falar no assunto – ao contrário de D, que prefere não tocar nele – vira-se para Ana e diz: "Mãe, tenho saudades dos meus antepassados". "Que antepassados?" "Dos meu pais, dos meus avós, dos meninos com quem eu vivia na instituição, das adultas que tomavam conta de nós..." "Fomos falando daquilo até que ela remata: "Sabes o que vou fazer? Aquilo que tu explicas no livro, vou guardá-los a todos nas gavetas do meu coração e assim não os esqueço mais". Ana ficou de lágrimas nos olhos.

"Acima de tudo", diz, "é preciso ter bom senso e avaliar cada momento. Muitos defendem um corte com o passado, com a instuição. Mas há também quem acredite que isso é demasiado violento. Optámos por deixar passar algum tempo e aproveitámos a festa de aniversário de um dos miúdos institucionalizadas para lá irmos. A ideia era que ele fosse ele, e não elas, o centro das atenções. Resultou muito bem", conta Ana.

Com o relatório dos seis meses vêm várias perguntas, uma delas é sobre o que mudou. "Na nossa vida muda tudo, até o nosso espaço enquanto casal. Mas mudou também a minha perspectiva das coisas, nomeadamente em relação às mães, pelas quais passei a ter uma solidariedade que não existia. Lembro-me que se visse um miúdo a fazer uma birra e a mãe a mandar vir pensava: "Coitadinha da criança". Hoje sei que antes daquela birra houve outras e que as mães são humanas e às vezes explodem. Eu acreditava que ia conseguir fazer tudo como mandam os livros de psicologia e a realidade mostrou-me que não. Nas primeiras birras fazemos tudo como vem escrito, mas à 11.ª já estamos a dar um grito".

Outra coisa que muda: "Os filhos passam a ser o centro de tudo. Tenho duas miúdas, vaidosas e que dão imenso trabalho. Às vezes dava comigo a sair de casa e a pensar: "Elas parecem duas princesas e eu a mulher-a-dias". Foi um dos motivos por que decidi cortar o cabelo, não aguentava tratar de três cabeças", conta Ana a rir. "Nunca mais consegui passar um fim-de-semana em casa a comer bolo e a ver filmes". E há coisas em que as filhas já imitam a mãe: "Deixei de dizer palavrões e arranjei uma alternativa, que uso sobretudo quando estou a conduzir: cabeça de arroz. Uma tia minha dizia-me isso: "Diz antes arroz, que tem dois erres e enche a boca". E resulta". Tanto que a expressão, inofensiva, já é imitada por D e M.

créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

A decisão do tribunal

No fim do período de seis meses é feito um requerimento ao tribunal a pedir a adopção definitiva. Só então se passa a ser família com todos os direitos e obrigações. Nessa altura é entregue o relatório da Segurança Social, neste caso da Santa Casa da Misericórdia, onde os pais adoptivos também podem escrever. Mãe, pai e três testemunhas, que não podem ser familiares, são então presentes a um juiz para explicar porque querem e devem ser uma família.

"É uma coisa rápida e indolor. Estávamos muito ansiosos, mas porque era o culminar de um processo", afirma Ana.  A sentença demora cerca de quatro semanas a ser pronunciada e a decisão do tribunal demora quase um mês a chegar às conservatórias. E não acaba aqui: tratar de toda a burocracia demora outro mês. Os cartões de cidadão de D e M, com os novos números e apelidos da mãe e do pai, chegaram na semana passada.

"Há coisas muito giras neste processo. Quando chega a sentença do tribunal é preciso ir buscar também a nova certidão de nascimento. Apesar de D e M só terem chegado depois dos meus quarenta anos, na certidão está escrito que fui mãe aos 36 e aos 37 anos", comove-se Ana. A certidão original fica selada e só é aberta se as crianças, já adultas, decidirem casar, para garantir que não há consanguinidade.

Por fim, entra-se em velocidade cruzeiro: "Passamos a ser uma família igual às outras: há dias em que corre tudo bem, outros em que corre tudo mal, dias em que elas estão amorosas, outros em que são umas pestes. Não há famílias perfeitas, sejam biológicas ou adoptivas", conclui Ana Kotowicz.

"Se alguém disser que a adopção é fácil é mentira. A começar pela decisão de adoptar, até porque a maioria das pessoas chega à adopção depois de um processo de infertilidade, que é penoso e desgasta o casal. Muitos não resistem e acabam por se separar. Muitas vezes quando dão o passo para a adopção ainda não fizeram o luto da infertilidade e chegam à procura do bebé que não conseguiram ter na barriga. Depois há o tempo de espera; dois, três, cinco, seis anos. Neste tempo a pessoa muda, por dentro e por fora. Quando, finalmente, as crianças chegam, não há laços afectivos nem memórias comuns, existe apenas uma predisposição para que estes sejam criados. Como diz o meu marido: há a terra cheia de adubo para que as plantas cresçam viçosas. Para nós é difícil, para as crianças mais ainda. Tiveram más experiências com as famílias, vieram de instituições onde nem tudo corre sempre bem, há as boas e as más", resume.

O tempo de criar novas memórias começa aqui. "Uma coisa que fazemos, até porque os meus pais e os pais do Paulo já não são vivos, portanto elas não têm avós dos dois lados, é mostrar-lhes o álbum de quando éramos pequenos, para saberem como era a família. Elas também têm o álbum que trouxeram da instituição e agora estamos a construir um novo, só nosso".

Os avós de Ana Kotowicz eram cada um de sua nacionalidade, e o único que era português foi aquele que não conheceu. Também nunca foi à Polónia, que é parte de sua herança genética, mas vai com frequência a Itália, onde ainda está uma boa parte da família. "Gostava de as levar lá rapidamente, até porque a única irmã da minha avó viva tem 90 anos. Outro dia apanhei D e M a discutir: a mais nova dizia que era portuguesa e a mais velha corrigia-a: "Não és nada, somos polacas como a mãe".

Toda esta experiência, os diversos passos do processo de adopção, incluindo as histórias de diversas famílias, estão agora compilados no livro "Adoptar em Portugal, Um Guia Para Futuros os Pais". A proposta saiu da Livros Horizonte, que acreditou que fazia sentido escrever um manual a que todos tivessem acesso. "Ao longo do tempo em que estive à espera, talvez por defeito profissional, fui sempre recolhendo e guardando toda a informação. O que existia sobre o assunto eram coisas escritas por assistentes sociais e por psicólogas para assistentes sociais e psicólogas. Mesmo a Segurança Social tem imensa informação, mas toda dispersa por uma quantidade de guias espalhados pela internet. Foi assim que nasceu o livro".

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