Quando o sistema imunológico é afetado por uma doença genética, um transplante de medula óssea pode curar, mas com uma grande desvantagem: durante os primeiros meses as defesas do recetor ficam severamente enfraquecidas. A menor infecção pode levá-la ao hospital.  Um novo tratamento experimental, conhecido como terapia com células T, visa lidar com este período vulnerável, os meses durante os quais o corpo está a reconstruir as suas defesas naturais.

Johan é um desses pacientes. Hoje é um miúdo sorridente que não se cansa de perseguir o cão da família, Henry. Nada nele revela a montanha-russa médica e emocional que a sua família, que vive em num confortável subúrbio de Washington, passou nos últimos três anos.

Tudo começou com um teste de gravidez: Johan não foi planeado. "Foi um choque, eu chorei", conta sua mãe, Maren Chamorro, de 39 anos. Ela sabia desde a infância que carregava um gene que causa um transtorno frequentemente fatal antes dos 10 anos: a doença granulomatosa crónica (EGC). Um irmão que teve morreu aos sete anos. E as leis da genética indicavam que ela tinha uma possibilidade em quatro de a transmitir.

Para os primeiros filhos, ela e o marido, Ricardo, escolheram a fertilização in vitro, o que permitiu um teste genético dos embriões antes da implantação. Os gémeos Thomas e Joanna nasceram há sete anos e meio sem a doença. Mas um teste genético confirmou que Johan tinha EGC.

Depois de entrar em contacto com o Washington Children's Hospital, o casal tomou uma das decisões mais importantes das suas vidas: Johan receberia um transplante de medula óssea, um procedimento arriscado que permitiria a cura.

"O facto de Maren ter perdido o irmão mais novo por esta doença teve um papel importante", diz Ricardo.

A medula óssea é a fábrica de glóbulos vermelhos e brancos do corpo humano. Os glóbulos brancos produzidos por Johan eram incapazes de responder a bactérias e fungos. Nele, uma infecção bacteriana poderia sair de controlo.

Felizmente, o seu irmão Thomas, de seis anos, era um doador compatível. Em abril de 2018, os médicos "limparam" a medula óssea de Johan com quimioterapia. Depois, pegaram uma pequena quantidade de Thomas, retirando-a dos ossos da pélvis com uma agulha. Extraíram "supercélulas", como diz Thomas, células-tronco, que foram injetadas novamente nas veias de Johan para que gradualmente nidificassem na sua medula óssea e produzissem glóbulos brancos normais.

O mesmo sistema imunológico que o do irmão

O segundo passo foi a terapia celular preventiva, num programa experimental liderado pelo imunologista Michael Keller. A parte do sistema imunológico que protege contra bactérias é reconstruída em poucas semanas, mas, para vírus, leva mais de três meses.

Do sangue de Thomas, os médicos extraíram glóbulos brancos especializados (células T) que já tinham encontrado seis vírus. Keller os multiplicou por 10 dias numa incubadora, criando um exército de centenas de milhões de células T especializadas.

O resultado: uma substância branca esponjosa contida em um pequeno frasco de vidro. De seguida, as células T foram injetadas em Johan, garantindo imediatamente proteção contra esses seis vírus, preventivamente.

"Ele tem o sistema imunológico do irmão", diz Keller. A mãe confirma: agora, quando Thomas e Johan apanham uma constipação, eles têm os mesmos sintomas, com a mesma duração. "É ótimo ter a mesma imunidade do irmão mais velho", diz Maren.

A estimulação do sistema imunológico a partir de células doadoras ou das próprias células geneticamente modificadas é denominada imunoterapia.

A principal aplicação dessa terapia é para o tratamento do cancro, mas Keller espera que em breve esteja disponível contra vírus, para pacientes imunossuprimidos como Johan.

O obstáculo continua a ser a complexidade e o custo, que atualmente restringe o procedimento a 30 centros médicos nos Estados Unidos.

Para Johan, um ano e meio após o transplante, tudo indica que funcionou perfeitamente. "É ótimo vê-lo brincar", afirma Maren, cuja única preocupação agora é que, quando Johan fica doente, o resto da família contraia o mesmo germe.