Corremos. Atrás de nós, uma espiral chamada Covid-19. Não queremos que nos apanhe nem aos nossos. A ninguém. Por isso, temos cuidados redobrados. Ouvimos o que nos é dito, seguimos conselhos. Alguns de nós estão já em quarentena (necessária ou voluntária) e outros ainda têm de sair das suas casas.

Acordámos neste 19 de março com o país em estado de emergência. Não sabíamos muito bem o que isso era — nunca o tínhamos visto. Sabíamos, sim, que o Conselho de Ministros agendado para esta tarde iria acabar e que, com isso, ficaríamos a saber medidas exatas. Como muda a nossa vida, contando com a pandemia?

Ora vejamos algumas medidas, de forma rápida:

  • "Isolamento obrigatório" para doentes e "dever especial de proteção" dos grupos de risco, como é o caso dos idosos;
  • Para os restantes, o recolhimento não é obrigatório, devendo cumprir um "dever geral de recolhimento domiciliário";
  • As atividades económicas que envolvem atendimento ao público devem encerrar (mas continuamos a ter padarias, mercearias, supermercados, bombas de gasolinas, farmácias ou quiosques);
  • Restaurantes encerrados, mas com entregas ao domicílio ou take-away;
  • Primazia ao teletrabalho, sempre que possível.

Tudo nos parece estranho. É este o nosso país? É este o nosso mundo? Sim: mas num "novo normal" que temos de saber encarar com positivismo. E para isso contribuem as boas notícias que vão surgindo, mesmo que discretamente. Por exemplo, o dia começava com a confirmação de que a China não tinha registado casos de infeção local pela primeira vez desde o início do surto. Na Tailância, surgiu o Ninja: não daqueles dos filmes e da banda desenhada, mas um robô médico que vai ser utilizado nos hospitais para lutar contra a pandemia do novo coronavírus. As vacinas também começam a ser uma realidade, embora não para já, mas vão dando algum alento.

Por cá, apesar de tudo, vamos olhando para os números: 785 casos confirmados, três vítimas mortais e quatro pessoas já recuperadas. O que trará o dia de amanhã?

Não temos certezas, mas sabemos as regras-base da DGS: mais doentes vão ficar em casa e menos no hospital (dependendo da gravidade dos casos), acompanhamento pelo médico de família, telefonar e não ir logo às urgências. 

Termino citando José Saramago, que escreveu o seguinte em "Ensaio sobre a Cegueira":

"O medo cega, disse a rapariga dos óculos escuros, São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegámos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos".

Não queremos ser cegos. Não queremos ter medo.

Queremos sair e correr, sem espirais e redes à nossa volta. Sem cegueiras brancas e sem vírus. Mas, por agora, fiquemos em casa.

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