"Beirute é uma cidade estilhaçada". Nas ruas há uma apatia. Vão-se limpando os cacos como se pode. Há vidros por todo o lado. "A cidade implodiu", descreve João Sousa, fotojornalista português a viver na capital do Líbano desde janeiro deste ano.

"As pessoas estão a ir para a rua limpar as lojas, limpar o asfalto. Pelo menos tentar retomar um certo tom de civilização — mas a verdade é que as imagens são devastadoras: casas destruídas, montras destruídas. Aquele mundo que nós conhecíamos antes de ontem é um mundo agora completamente diferente e desfigurado. Beirute está desfigurada", explica.

"Na zona centro de Beirute, ali perto do porto, estamos a falar de praticamente todos os estabelecimentos comerciais destruídos e aniquilados. Tudo o que são vidros em Beirute ficou partido". Segundo o governador da capital do Líbano, Marwan Abboud, “perto de metade de Beirute está destruída ou danificada. Os estragos, que podem ter deixado até 300 mil pessoas sem abrigo, ascendem aos 2,5 a 4,2 mil milhões de euros.

"As montras ficaram expostas, houve mobília e decoração destruídos; os carros, também bastante danificados, e as residências", vai descrevendo João, que logo ontem foi partilhando nas redes sociais pequenos vídeos das ruas da capital libanesa.

"Aqui estamos a falar apenas do aspeto visual de Beirute", mas as vistas não contam toda a história de uma cidade: "vamos falar do aspeto emocional dos habitantes de Beirute."

João testemunha um povo "num misto de choque, de apatia", desenha. "Aquela apatia típica de quem já passou por tanta coisa que isto era a última coisa de que precisavam. Não sabem muito bem o que vão fazer."

É "uma verdadeira catástrofe”, diz o primeiro-ministro libanês. Num breve discurso transmitido pela televisão hoje de manhã, Hassan Diab reiterou a promessa de encontrar e punir os responsáveis pelas duas explosões, que fizeram pelo menos 100 mortos e mais de 4.000 feridos.

Para além de todos os danos humanos diretos, surge um novo problema: a explosão ocorreu à beira dos silos onde estava guardado cerca de 85% do trigo no país. O ministro da economia e comércio libanês, Raoul Nehme, garante que o Líbano tem trigo suficiente para as necessidades imediatas — e que vai importar mais cereais. Segundo a Associated Press, o país já importava qualquer coisa como 80% do trigo que consome.

Foi sentir; sentir o chão a tremer, tudo a tremer à minha volta e tudo estilhaçado, os vidros, as janelas, as portas... Tudo ficou partido à minha voltaJoão Sousa

A história recente do Líbano é conturbada. No final de setembro de 2019, centenas de manifestantes denunciam em Beirute a situação económica do país. Pouco depois, a 17 de outubro, explode a revolta popular após o anúncio de uma nova taxa sobre chamadas através da rede de mensagens instantâneas WhatsApp. A rápida anulação da medida não impede a revolta de ganhar o país.

A mobilização culmina com centenas de milhares de manifestantes a reclamar a renovação de toda a classe dirigente, quase inalterada desde há décadas e acusada de corrupção.

Então, a 19 de dezembro, o académico Hassan Diab é nomeado primeiro-ministro para substituir Saad Hariri, forçado a demitir-se em finais de outubro. Um novo Governo toma posse já em 21 de janeiro deste ano, formado pelo Hezbollah e os seus aliados, maioritários no parlamento.

Mesmo assim, no final de abril, o país, em 'default', adota um plano de relançamento económico o promete reformas, mas as negociações iniciadas com o Fundo Monetário Internacional para obter ajuda financeira e restabelecer a confiança dos credores estão em ponto morto.

É neste estado que os libaneses têm agora de acreditar. A versão oficial aponta para cerca de 2.750 toneladas de nitrato de amónio armazenadas no depósito do porto de Beirute que explodiu. Trata-se de um químico industrial muito comum, usando em fertilizantes e explosivos mineiros. Com base nos cadastros dos navios e nos calendários portuários, a Associated Press especulou que o navio que transportava nitrato de amónio, tinha como destino Moçambique, tendo atracado no porto da capital do Líbano, Beirute, devido a problemas mecânicos, em 2013.

Um artigo escrito em outubro 2015 na publicação especializada em navegação shiparrested.com também indicava que o navio tinha como destino o porto da Beira, mas terá atracado no porto de Beirute devido a problemas mecânicos, tendo a carga sido confiscada e armazenada por vários anos na capital libanesa.

"Normalmente, antes de receber um navio, nós somos notificados. Neste caso, nunca recebemos nenhuma notificação de um navio que vinha ao porto da Beira com essas caraterísticas e carga", disse hoje à Lusa António Libombo, diretor-executivo adjunto da Cornelder, concessionária do Porto da Beira desde 1998.

créditos: STR / AFP

"Pensei que sim: isto é o fim”

João estava a almoçar na varanda, a cerca de um quilómetro do porto, quando ocorreu a primeira explosão. "Estava na minha varanda a almoçar pacatamente, quando ouvi um estrondo e não percebi muito bem o que era, mas deduzi que talvez fosse um ataque — aquilo não era um trovão, aquilo não eram foguetes. Esses são normalmente os sons mais notórios que conseguimos ouvir em Beirute, mas aquilo era um som diferente".

"Passados 30 segundos, ouvi um segundo estrondo — e, aí sim, não foi só ouvir: foi sentir; sentir o chão a tremer, tudo a tremer à minha volta e tudo estilhaçado, os vidros, as janelas, as portas... Tudo ficou partido à minha volta", conta.

João não foi atingido. "Tive muita sorte", diz. Mas os minutos que se seguiram foram uma complexa tentativa de perceber o que se estava a passar: "foi eu a tentar agarra nos meus pertences mais importantes — a carteira, chaves de casa, passaporte, dinheiro e sair pela porta fora".

O pensamento de morrer ali ocorreu-me várias vezesJoão Sousa

Na rua, encontrou "pessoas em choque, pessoas em sangue, um caos, um Apocalipse total", num confronto "bastante visceral" com a situação. "Eu ando naquelas ruas todos os dias, cumprimento os vizinhos, vou às mesmas lojas. De repente, aquilo ficou tudo desfigurado".

Depois da segunda explosão, tudo parecia um ataque. "Pensei que sim: isto é o fim. Estamos a ser atacados", conta. Com esse temor chega a assunção da raiva: "tive um misto muito grande de emoções, uma delas foi precisamente a raiva contra quem quer que estivesse a fazer isto, porque aquilo é uma zona exclusivamente residencial".

"Não sei se agora dou um passo e, enquanto dou esse passo, cai outra bomba — eu pensava que aquilo eram bombas. O pensamento de morrer ali ocorreu-me várias vezes", descreve. João ficou à espera de uma terceira explosão: "se estamos a ser atacados, é o fim. É o fim".

A mil metros do epicentro, João saiu de casa, em direção ao porto. "Um quilómetro não é nada, estamos praticamente ali. Agora, fui caminhando, em direção ao local da explosão, e vi a degradação gradual dos edifícios, do cenário à minha volta. à medida que uma pessoa se vai aproximando do porto, vai assistindo a cada vez mais destruição e caos. É bastante assustador."

"Olhando à volta, fico surpreendido que não haja mais mortos", explica.

"O Governo diz que isto foi um acidente, mas, quando eu falo com libaneses na rua — comerciantes, pessoas que estão a passar pela rua ou que moram ali —, quase unanimemente me dizem que isto foi um ataque de Israel contra o armazenamento de munições do Hezbolah. Há essa teoria, agora se é verdade ou não, não temos ainda conhecimento", conta.

Mesmo antes desta terça-feira, Beirute estava já "muito diferente do que era em janeiro ou outubro do ano passado", conta João. "Isto é uma cidade que está gradualmente a degradar-se em termos socioeconómicos; o Líbano está a passar pela pior crise socioeconómica em décadas: a moeda desvalorizou em 80% desde outubro do ano passado; tem a terceira maior inflação do mundo; há um desemprego crescente; começa a faltar comida, acesso à água e eletricidade", descreve o jornalista.

"Aquela Beirute que uma pessoa conhecia há uns anos, em que havia festa a toda a hora, bares, discotecas — uma vida social muito dinâmica — acabou, há bastante tempo que não existe, a não ser nalgumas zonas. Beirute em si tem estado a passar por uma crise brutal".

Crise que se agudizou com a pandemia da covid-19. A doença causada pelo coronavírus descoberto na China no final do ano passado chegou também ao Líbano, obrigando ao "encerramento de vários negócios e estabelecimentos comerciais durante vários meses".

Vírus insistente, a persistência da doença levou a um novo confinamento há uma semana. "O Governo decretou o 'lockdown' para tentar controlar os casos", conta João Sousa.

créditos: STR / AFP

"Não preciso das autoridades portuguesas para me sentir bem"

João Sousa foi para o Líbano de férias no início deste ano. O objetivo era esse: três semanas a rever os amigos libaneses, em janeiro. Mas depois começou a trabalhar para o jornal local L'Orient-Le Jour, escrito em francês. Decidiu ficar num país já mergulhado em convulsões sociais, económicas, políticas e sanitárias.

Esta terça-feira, duas explosões criaram uma nova crise.

Até agora, nenhuma autoridade portuguesa entrou em contacto com João Sousa. O jornalista desvaloriza: "não preciso das autoridades portuguesas para me sentir bem". Sente-se cansado. A noite ficou em claro. Não há eletricidade, nem internet. "Não tenho meios de carregar o telemóvel, não tenho dados móveis, porque a central também não tem energia suficiente — esse é o meu maior stress neste momento: não ter acesso a eletricidade para recarregar as baterias dos telemóveis, powerbanks, e as câmaras fotográficas que uso todos os dias".

Para já, apenas um cidadão português, a morar há um ano no Líbano, pediu ajuda ao Governo para regressar a Portugal. Segundo uma fonte oficial do gabinete da secretária de Estado das Comunidades Portuguesas, Berta Nunes, o português, “casado com uma libanesa, pediu que o processo para o seu regresso fosse acelerado, uma vez que a mulher precisa de visto”, escreve hoje a agência Lusa.

A mesma fonte precisou que a fachada do prédio onde vive este português, na capital libanesa, bem como o rés-do-chão e o primeiro andar ficaram destruídos, mas “a sua habitação está intacta”.

Para além deste caso, o Governo continua ainda sem confirmação de vítimas entre a comunidade portuguesa, estimada em cerca de meia centena de pessoas, acrescentou a fonte, mantendo-se a informação dada por Berta Nunes também à Lusa logo na terça-feira à noite.

O presidente da República enviou já hoje uma mensagem de condolências ao seu homólogo libanês, Michel Aoun. Segundo a página da Internet da Presidência da República, na missiva, Marcelo Rebelo de Sousa expressou “condolências aos familiares das vítimas mortais e desejos de rápidas melhoras a todos os feridos, bem como a sua solidariedade a todo o povo libanês”.

*Fotomontagem na capa: Mouafac HARB / AFP

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