Aos 42 anos, Delgado expressa a angústia do povo perante a implementação do acordo de paz com a guerrilha das FARC, que exerceu a sua influência na região.

"O medo é o de que quando forem embora (os guerrilheiros), a segurança acabe", afirma. Com as FARC "tem havido respeito, eles punem quem perturba a ordem", afirma, resumindo a preocupação comum a várias pessoas nesta região, acostumada a pagar à guerrilha por proteção.

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), que em novembro assinaram um acordo paz com o Estado, depois de 52 anos de conflito, reconheceram ter sido financiadas por atividades relacionadas com o tráfico de droga, como a cobrança de impostos a quem cultivava coca.

Mas com a paz, as FARC aceitaram desvincular-se do negócio da droga, um combustível para o conflito armado desde os anos 1980.

Agora, os 5.800 combatentes das FARC, segundo cálculos próprios, preparam-se para entregar as armas, um processo sob supervisão da ONU, que deve terminar dentro de seis meses.

A desmobilização da guerrilha gera incertezas em Policarpa, um dos centros da produção de coca no conturbado Nariño. Este estado que faz fronteira com o Equador tem sido assolado não só por grupos armados, mas também por grupos criminosos que se dedicam ao narcotráfico, à exploração ilegal de minério e ao tráfico de seres humanos.

Medo da erradicação

Não é apenas a insegurança que preocupa os camponeses.

Também são céticos diante do plano de substituição de cultivos ilícitos do acordo de paz com as FARC, no qual o governo se compromete a dar alternativas de sustento a quem aceitar a substituição.

"Se eles [FARC] não estão, vêm [o governo] erradicar os cultivos e acabam com o nosso trabalho", diz Delgado. "Podem erradicar a coca, mas se não nos ajudarem (...) as pessoas vão voltar a cultivar", diz Ramos.

Alexandra Matitui pensa da mesma forma. Com 30 anos, só viu a coca prosperar nesta região empobrecida e sem água potável. Assim cresceu e cria os seus filhos.

"É fácil porque é rápido: seis meses depois têm a primeira colheita e daí a cada três meses contínua a dar", explica.

Alexandra sobrevive com a coca, mas não enriquece, conta. Um hectare plantado rende-lhe cerca de um milhão de pesos mensais (330 dólares). O amendoim, o abacate ou o cacau rendem a metade disso.

"Vivemos da coca porque os outros produtos não dão resultado", resumiu, enquanto raspava uma planta com as mãos calejadas. "Além do mais, aqui estamos abandonados: não há estradas, não há pontes, não há rega", conclui.

Situação crítica

Para a responsável pela prefeitura de Policarpa, Claudia Cabrera, a situação é "crítica" e deve haver "uma opção real" para quem desistir da coca.

"Se o governo não fizer uma concertação com os camponeses para a erradicar, então vai ter um problema social", enfatiza Cabrera, que anda sempre com uma pistola para defesa própria, após ter sido ameaçada de morte por grupos armados.

E acrescenta: "O governo nacional não tem mais desculpas, sempre nos estigmatizaram como uma zona vermelha. Agora deve investir".

A Colômbia é o maior produtor de coca do mundo, com 96.000 hectares de áreas cultivadas, e o maior produtor de cocaína, com 646 toneladas em 2015, segundo a ONU, decidida em implementar o acordo de paz para combater o narcotráfico e promover o desenvolvimento das zonas "cocaleras".

Ramiro, o comandante da Frente 29 das FARC, opera em Nariño há 17 anos e é otimista.

"A esperança deste processo de paz é o compromisso de saldar a dívida histórica para superar a pobreza que tanto afeta esta zona, este vácuo que o Estado deixou e as FARC preencheram", diz este homem de 44 anos. "É preciso encontrar outras alternativas de subsistência", conclui.

Javier Ramirez Franco/AFP

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