A memória é um bem precioso e mesmo aqueles que passam a vida a dizer que não se lembram de nada, a verdade é que recordam tudo o que é fundamental para as suas vidas. O resto, são tecnicidades. Eu, por exemplo, sou péssima a memorizar rostos e ótima a não esquecer nomes e ao longo da vida tem sido uma conjugação mais ou menos feliz, mas funcional.

O problema da memória aos dias de hoje é tendermos a achar que precisamos menos dela. Precisamos de saber o caminho para um sítio? Perguntamos ao GPS. Queremos telefonar a alguém? Consultamos os contactos no nosso smartphone que já nem as agendas telefónicas em papel são coisa que se use. Bloqueamos com o nome daquela atriz ou música a meio de uma conversa entre amigos? Não tem problema, para que é que inventaram a internet senão para ter resposta para tudo o que precisamos saber.

O problema é que o nosso cérebro não concorda connosco. Comporta-se em matéria de esforço / recompensa como um músculo - se outros fatores não intervirem, mais treino significa melhor desempenho, menos treino, desempenho mais medíocre. Ou seja, se exigimos menos da nossa memória - porque não precisamos, está tudo na internet - o nosso cérebro relaxa.

Há uns anos, Nicholas Carr escreveu um livro sobre isto - “The Shallows”, "Os Superficiais" em português -, e de então para cá não deixámos de depositar mais e mais do que sabemos - ou recordamos - na internet.

Mas esta memória objetiva, factual, enciclopédica, se quisermos, convive e até depende de outra, a emocional, aquela que depende de coisas que sentimos e cuja impressão digital fica guardada num sítio que, à falta de nomenclatura mais exata, vou chamar de coração. Essa memória pode resultar do que vivemos, mas também pode resultar do que nos contam. Sobretudo se nos contam de uma forma que nos faça sentir, mais que apenas saber. A imaginação é mais importante que o conhecimento, dizia o grande Einstein e esta é mais uma das vezes em que calha bem recordar.

A série “Conta-me como foi”, cuja nova temporada estreou este sábado na RTP1, e está também disponível na RTP Play, é um desses exercícios de memória.  Mas é mais que isso. Para aqueles que efetivamente se lembram, recordar o que foi é, na forma como nos é apresentado, uma espécie de regresso à casa da mãe ou à comida da avó. Era assim que sabia. Para aqueles que não estiveram lá é uma forma poderosa de os levar até lá, através das histórias, sempre das histórias, que fazem de nós humanos desde que há memória.

Jornalisticamente falando estou tentada a dizer que este foi um dia sem grande memória. O que será certamente injusto se a escala aplicada for outra que não a minha. Ainda assim é um dia que permite reforçar a importância da memória quando se fala da greve em França, que vai no terceiro dia e que já ultrapassou em dimensão mobilizações idênticas realizadas em 1995, 2003 e 2010. É também de memória que se trata quando se fala de um combate de boxe que só entra na história hoje porque a humanidade adora ser surpreendida - e , socorrendo-nos da memória e do artigo que o Abílio dos Reis nos traz ilustrado com imagens pelo Rodrigo Mendes, sabemos que Andy Ruiz Jr. surpreendeu muito boa gente ao derrotar o britânico Anthony Joshua no passado dia 1 de junho, em Nova Iorque. E hoje foi dia de desforra, mas noutro ringue, na Arábia Saudita - e para a memória fica que houve mesmo desforra.

E já que a estreia do “Conta-me como foi” deu mote a este texto, deixo mais uma sugestão para quem ainda não leu: o livro “O retorno” de Dulce Maria Cardoso, provavelmente a história mais bem escrita que li sobre o que foi afinal isso de ser retornado.

O meu nome é Rute Sousa Vasco e hoje o dia foi mais ou menos assim, mas têm o detalhe que precisam na nossa cronologia diária que serve para recordar o que podíamos, sem dar por isso, esquecer.

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