1 de junho, 2019. Madison Square Garden, Nova Iorque. 22h46 (Hora local).

Para todos os efeitos e padrões da modalidade, era cedo. A voz do nativo de Filadélfia, Michael Buffer, é incontornável. É dele a mítica frase Let's Get Ready To Rumble. E é ele que se encontra no centro do ringue e que introduz os intervenientes pelos quais todos esperaram durante todo o cartaz. Primeiro, apresenta Andy Ruiz Jr., o underdog, aquele que é suposto perder e ao qual as casas de apostas dão poucas hipóteses de sair bem sucedido. Não é inteiramente justo insinuar que era um suposto encontro de "carne para canhão", mas quase.

Conquanto, apesar de Ruiz ser o homem da casa e de ter nascido nos Estados Unidos, ouvem-se alguns buuuus durante a sua caminhada até ao ringue. Isto pode ser justificável se se tiver em conta que a noite não era suposto ser sua; é que essa pertence a um ponto bem brilhante que reluz lá bem no alto das estrelas que dá pelo nome de Anthony Joshua — ou AJ. Uma força da natureza que só começou a praticar a modalidade aos 18 anos, mas que não deixou que isso o impedisse de ter uma ascensão meteórica pelos rankings do mundo do boxe e desta noite estar a defender quatro títulos.

Ruiz esperou e esperou. A espera foi mais longa do que o expectável — só apareceu alguns minutos depois —, numa situação que não é muito normal nestas andanças. Mas, moroso ou não, ei-lo. O campeão invicto trilhou o seu caminho até ao ringue num robe branco, com acabamentos em preto, nomeadamente a gola, a fazer parelha com a cor das luvas — qual ser magnânimo e celestial. Durante o percurso, a multidão exalta o britânico enquanto a faixa "Ye", de Burna Boy, os acompanha. Tiram-me fotos e selfies, há espaço para karaoke apoteose, luzes e gritos, que abriram caminho aos hinos: primeiro o mexicano, seguido do do Reino Unido, para terminar com as palavras do poeta Francis Scott Key, ou seja, com o do país anfitrião. Oh, say, can you see, by the dawn's early light…

O que está em jogo?

Andy Ruiz Jr. e Anthony Joshua vão estar frente a frente pela segunda vez em seis meses. O primeiro encontro acabou com Ruiz arrebatar a Joshua os títulos da categoria de pesos pesados da WBA, IBF, WBO e IBO. (E pelo meio chocar o mundo do boxe.)

Muhammad Ali lutou em Manila; Mike Tyson em Tóquio; Joe Frazier na Jamaica; George Foreman na Venezuela; Lennox Lewis na África do Sul. Agora, será a vez de Ruiz e Joshua combaterem no Médio Oriente.

O título de pesos pesados do boxe é um evento global e tem sido muitas vezes a bandeira da modalidade além fronteiras. Este sábado, será a vez dum britânico com descendência nigeriana tentar recuperar os títulos a um norte-americano de pais mexicanos.

É mais do que uma mero combate. É um encontro que vai envolver orgulho, redenção e afirmação.

O combate começa e salta à vista aquilo que já se sabe: as vantagens do físico do britânico sobre o hispano-americano (altura e alcance). AJ é um autêntico Adónis; 1,98cm de altura, escultural, carismático, medalha de ouro olímpico e bíceps de ferro que beijam o estrelato e que esgotam estádios (Wembley) no Reino Unido. Andy, por seu turno, é alto, mas ainda assim dez centímetros mais baixo e, diga-se, aparenta ser tudo menos um lutador profissional. Tem barriga, corpo disforme e 121 quilogramas de peso. Se não soubéssemos do que faz para ganhar a vida, diríamos que executa mil e uma funções que não aquela que é o seu ganha pão. Mas já se sabe que no ringue isso pouco importa. No entanto, há uma coisa que partilham: o ano 1989 como data de nascimento. Ou seja, ambos tinham 29 anos à data do combate.

O primeiro assalto, no entanto, seria um de reconhecimento. Apalpar terreno aqui, sentir os movimentos e força do adversário acolá. O britânico, que até começou a jogar futebol mas que aos 18 anos decidiu apostar no boxe, tentava contrariar a pressão do "The Destroyer", alcunha do hispano-americano. Até que um jab de Joshua abre caminho para um gancho que deixa Ruiz desnorteado. Estava dado o primeiro aviso para aquilo que se esperava que fosse o desfecho da noite — ou assim se pensava.

Até que chegamos ao terceiro assalto. Joshua disfere um jab e atira Ruiz ao tapete bem cedo. Todavia, este último não deixa sequer que a contagem chegue ao fim — e diz ao árbitro que está bem e quer continuar. No centro, Joshua, qual tubarão a cheirar o sangue da próxima refeição, engalana-se em direção a Ruiz para terminar o assunto. Porém, Ruiz não se afasta e vai ao seu encontro. Não recua, não se rende. E acaba por acertar no queixo do britânico — que cai! Surpresa no MSG! Era para ser ao contrário. Mas a verdade é que não só ficou com as pernas a balançar, qual noctívago embriagado no final de uma noite de excessos alcoólicos, como voltou a cair outra vez. Portanto, contas: Ruiz foi ao tapete uma, AJ duas. Os assaltos vão passando até que chegamos ao sétimo, aquele que ficaria para história da modalidade. 

Um soco de Ruiz na têmpora do britânico abalou-o. A suposta "presa" tomou o lugar do caçador e foi atrás daquilo que, aos olhos de muitos, parecia inacreditável: derrotar o campeão do mundo, visivelmente em maus lençóis. O hispano-americano enviou o (até então) invicto campeão ao tapete pela terceira e quarta vez… até que o árbitro Mike Griffin colocou Joshua num canto, averiguou o seu estado e, naquele gesto universal, naquele balanceamento de braços que todos sabem ser o fim de algo, interrompeu o combate quando faltavam pouco menos de 90 segundos para o final do sétimo assalto.

Surpreendentemente, Andy Ruiz, com um TKO, tornava-se no novo campeão do mundo de pesos pesados da WBA, IBF, WBO e IBO.

Andy Ruiz Jr. vs Joshua II
créditos: MadreMedia

Andy, o guerreiro mexicano

Não houve casualidade no primeiro combate. Não foi sorte. Porque Joshua não foi apanhado de surpresa pela rapidez do seu adversário. Muito da vitória esteve no seu queixo e na sua capacidade de encaixe. Muitos que enfrentaram o inglês não se mantiveram de pé para continuar o combate — quanto muito continuar e ganhá-lo. Ruiz fê-lo. E fê-lo ao sobreviver a um violentíssimo gancho de esquerda, que inclusivamente o derrubou, para depois recompor-se e levar duas vezes o então campeão ao tapete. No mesmo assalto. Ruiz explorou a ânsia que AJ tinha para o nocautear e tirou vantagens disso. 

Andy Ruiz Jr.

Nome completo: Andres Ponce Ruiz

Alcunha: Destroyer

Registo profissional: 33-1

Títulos: WBA, IBF, WBO e IBO

Data de Nascimento: 1989-9-11 / 30 anos

Nacionalidade: Estados Unidos da América

Estreia profissional: 28-3-2009

Divisão: Peso Pesado 

Postura: Ortodoxo

Altura:  1.88 cm

Alcance: 188 cm

Residência: Imperial, California, EUA

Local de Nascimento: Imperial, California, EUA

Sem surpresa, no fim de combate com Joshua, Ruiz era um homem feliz. "Apenas sinto-me bem, man. Isto é o que tenho sonhado. É isto para o qual tenho trabalhado. Não consigo acreditar que os meus sonhos se tenham tornado realidade", disse ainda no ringue. 

Contudo, não era só feliz que sentia. Era alguém que tinha resistido ao que muitos não conseguiram: à força de AJ. "Foi primeira vez que fui ao tapete [no terceiro assalto]. [Mas aguentei] porque sou um guerreiro mexicano, tenho o sangue mexicano em mim. E toda a conversa do estilo de mexicano de combate, eu acabei de o provar [que tem]", completou.

A vitória foi de tal ordem inesperada que depressa começaram a surgir rumores para descobrir aquilo que se tinha passado com o AJ; um dava conta que Joshua acusou a pressão pela estreia em solo norte-americano e sofreu um ataque de pânico no balneário, sendo essa a razão pela qual chegou atrasado à sua caminhada até ao ringue (na verdade demorou um minuto e meio a trocar de calções à última da hora); outro dava conta que não levou o seu camp (período em que um atleta se enclausura no ginásio e foca-se no seu treino e dieta) em Miami a sério e que tinha sido nocauteado durante uma sessão de sparring (uma simulação do combate a sério, mas de forma mais intensa para evitar lesões). 

Convém salientar que Ruiz e Joshua nem se deviam ter enfrentado na primeira instância. O oponente original de AJ para a coroação do britânico em solo americano era para ter sido Jarrael "Big Baby" Miller, um impetuoso fala barato de Brooklyn — que chegou inclusivamente a insultar a mãe de Anthony. Porém, Miller foi apanhado com substâncias proibidas no sangue para melhorar a sua performance e, além de ter perdido 6,5 milhões de dólares pela participação no combate, foi obrigado a desistir. No entanto, o "show must go on" e Ruiz — depois de algumas negociações — acabou por concordar com os termos para ser o próximo adversário de AJ. E, tal como Miller, foi escolhido para perder. Mas, como se viu, não foi isso que aconteceu.

Andy Ruiz Jr. vs Joshua II
créditos: MadreMedia

Anthony, o Adónis britânico em busca de desforra

Assim que perdeu o primeiro combate, Joshua assinalou a vontade de fazer uso da cláusula presente no contrato que automaticamente lhe concedia o direito a uma "desforra". No acordo existia uma alínea em que, caso Anthony Joshua assim o pretendesse, tinha o direito a um rematch. E, caso a accionasse, este teria de acontecer nos 18 meses seguintes, além de que o próximo combate de ambos teria de ser obrigatoriamente um contra o outro. Assim estava previsto, assim aconteceu.

Anthony Joshua

Nome completo: Anthony Oluwafemi Olaseni Joshua

Alcunha: 'AJ'

Registo profissional: 22-1

Data de Nascimento: 1989-10-15 / 30 anos

Nacionalidade: Reino Unido

Estreia profissional: 5-10-2013

Divisão: Peso Pesado 

Postura: Ortodoxo

Altura:  1.98 cm

Alcance: 2.08 cm

Residência: Watford, Hertfordshire, Inglaterra, Reino Unido

Local de Nascimento: Watford, Hertfordshire, Inglaterra, Reino Unido

Joshua alugou uma casa perto de Washington Square Park e deixou-se ficar em Nova Iorque após a sua primeira derrota enquanto profissional. E não demorou até voltar treinar. Porque há aspetos a melhorar para os quais alguns analistas já tinham alertado. Mike Coppinger, da revista The Athletic, escreveu que Ruiz neutralizou Joshua através duma pressão intensa. Esse fator, aliando à velocidade que impõe nos seus golpes de mãos e à maneira como consegue disferir socos nas cordas, deixou o britânico sem capacidade para fazer aquilo que melhor sabe: mandar uma bomba - leia-se, soco - que termine o combate cedo.

Contudo, uma das suas falhas, de acordo com o analista, é que não raras vezes este se esquiva diretamente… para onde está a luva do adversário. E dá o exemplo do combate com Alexander Povetkin. Todavia, há outro senão que os críticos apontam a AJ: tem demasiado músculo. O seu físico é impressionante, mas a realidade é que o seu jab foi praticamente inexistente frente a Ruiz. Além de que tanta massa muscular condiciona a sua resistência quando não consegue derrubar os adversários. Contra Klitschko, apesar do resultado vitorioso, estava completamente desgastado no final do combate.

Porém, convém salientar que Joshua não é um produto acabado. Longe disso, aliás. É um dos nomes maiores do boxe mundial, já foi detentor de cinturões, mas ainda não atingiu todo o seu potencial. "Teve 23 combates. Esse é um dos problemas", disse Eddie Hearn, da Matchroom Sport, a promotora do evento deste fim de semana, mas que paralelamente também é responsável pelos combates de Joshua. "É um novato. Teve quarenta lutas amadoras. Ele aprende a cada combate. Só que em cada um deles está sob os maiores dos holofotes. Quando ele lutou com Klitschko, esse foi o seu 19.º combate", explicou, para justificar o resultado. Só que no mundo do boxe, por alturas de defesa de cinturões, há quem tenha o dobro desse número (entre lutas amadoras e profissionais).

A (inesperada) vitória de Ruiz sobre Joshua acatou mais atenção do que qualquer outra história no mundo do boxe durante este ano. (A única excepção, por muito estranho que possa parecer, poderá ter sido o combate entre duas estrelas do YouTube, Logan Paul e KSI — também esse combate um rematch acompanhado por milhões). Porque aquilo que está em jogo é muito mais do que um mero evento entre dois homens grandes e pesados. Ambos estão munidos com habilidades que podem ditar um desfecho imprevisível, capaz de ditar um novo rumo na carreira de ambos. Senão vejamos: se Joshua perde, é possível que a aura de Adónis que transcende o desporto que o define seja colocada em causa; se Ruiz perde, irá muito provavelmente ser comparado a James "Buster" Douglas, lutador que ficou na história não pelos títulos em si, mas por ter impingido a primeira derrota a Mike Tyson para logo depois cair em desgraça. 

"O Ruiz sabe que tem mais velocidade nos punhos e que consegue magoar o Joshua… e isso quer dizer muito. Se o derrotas uma vez, os outros até podem dizer que foi por acaso, mas tu estás a dizer a ti próprio, tudo aquilo que tenho de fazer é repeti-lo novamente. Vai demorar até que Joshua consiga ganhar o respeito de Ruiz lá dentro porque a confiança que tens na tua habilidade para conseguir o que já fizeste antes é imensa". Quem o diz é Evander Holyfield, ex-campeão mundial, que ficou conhecido não só por tudo o que fez no ringue, mas também pela intensa rivalidade com Mike Tyson (que Oprah terminou) que o deixou sem um bocado da cartilagem no topo da (hélix) orelha. 

O rematch esteve para acontecer nos Reino Unido, embora se tenha colocado a hipótese de acontecer também nos Estados Unidos, a fim de gerar um maior interesse por parte da audiência norte-americana. Contudo, a Arábia Saudita aprovou uma taxa próxima dos 40 milhões de dólares que seduziu o promotor de Joshua, Eddie Hearn, a mudar o combate para o reino do príncipe Mohammed Bin Salman. O que levou a que o treinador de Ruiz tenha expressado alguma preocupação sobre as pontuações dos juízes. 

Isto só reforça a ideia de que Joshua é muito mais do que um mero lutador. É uma marca. Em 2012, nos Jogos Olímpicos de Londres, com apenas 22 anos — praticava boxe apenas há quatro — juntou ao título de vice-campeão do Mundo de 2011 o de campeão olímpico, ao derrotar na final o italiano Roberto Cammarelle. E no dia que o "King" Kenny Dalglish foi armado cavaleiro pela rainha Isabel II, Joshua foi agraciado com a distinção de Oficial do Império Britânico. Kevin Mitchell, do The Guardian, explica melhor esta ideia. Porque há muitos milhões, muitos interesses e muitos players em jogo. 

"Uma derrota não significa o fim da carreira de um lutador. Mas Joshua é mais do que apenas um lutador. Ele é uma marca. Deu muito dinheiro não só a ele próprio como a muitas pessoas. E é do interesse comercial do seu promotor e da sua equipa da Matchroom, juntamente com a Sky Sports e o parceiro de streaming norte-americano de Hearn, a DAZN, em manter a história de Joshua viva. Ele está na mó de baixo? Claro, mas nada que não se arranje. Um soco pode torná-lo novamente num herói comercial", refere Mitchell.

No mesmo artigo, é explicado que já existiam "produtos" que vendiam. Não tinham eram um perfil como o de AJ. Um miúdo das ruas de Watford num corpo dum matulão de quase dois metros, que esboça um sorriso leve e fácil, com capacidade de colocar os adversários "a dormir" com um soco. Isto, claro, não vinha sozinho. Com Joshua vieram os títulos mais prestigiados da maior divisão do boxe. Mais, trazia um produtor (uma espécie de agente) consagrado. E foi por todas estas razões que a DAZN, a plataforma de streaming norte-americana, e a Matchroom, promotora do "agente" de Joshua, assinaram com um contrato válido por oito anos no valor de mil milhões de dólares. 

Andy Ruiz Jr. vs Joshua II
créditos: MadreMedia

A história pode repetir-se?

Mas voltemos ao hispano-americano. Andy Ruiz Jr. era um bom boxer amador no México, com um recorde de 105-5, mas que nunca alcançou o nível internacional. Tornou-se profissional quanto tinha apenas 19 anos, mas com praticamente 135 quilos de peso, de acordo com a Bad Left Book. O peso, aliás, tem sido um tema recorrente quando se escreve sobre Ruiz. Contudo, isso nunca fez uma fez mossa na carreira — só no trato quando é necessário promover os combates.

E a verdade é que, após ganhar os cinturões, Andy Ruiz Jr. aproveitou bem os seus 15 minutos de fama. Participou no talk show do conhecido apresentador norte-americano Jimmy Kimmel e teve direito a um encontro com o presidente mexicano Andrés Manuel López. Teve, inclusivamente, uma parada na sua cidade natal, exibindo o cinturão no banco de trás de um espampanante Rolls-Royce roxo. E no dia do combate arrecadou pelo menos 4 milhões de dólares, de acordo com a The Athletic.

Mas quer saber mesmo como é o seu dia-a-dia? Dank City é um canal do YouTube, à hora de redação deste artigo, com aproximadamente 42,000 subscritores. E, explica a The Athletic, um amigo dum amigo de Ruiz está ligado ao canal — que não é mais do que uma espécie de loja de conteúdos digitais sobre produtores relacionados com substâncias psicotrópicas mais ou menos ilícitas. No canal, e num registo a fazer lembrar muito o programa Cribs da MTV, é possível acompanhar "um dia na vida de Andy Ruiz Jr." Até à hora da publicação deste artigo, estavam disponíveis três episódios que dão a conhecer o lado "humano", do homem que fez abalar o mundo do boxe, mas que tem o físico de alguém que passa os dias sentado no sofá a ver Netflix. 

Porém, apesar do conteúdo dos vídeos, Andy Ruiz Jr. viajou para a Arábia Saudita com um objetivo: provar que aquilo que aconteceu frente a Anthony Joshua não foi obra do acaso. Mas não deixa de continuar acerbado por tudo o aparato e da mudança de 180º graus que a sua vida levou quando venceu Joshua no ano passado. 

Ruiz é natural duma localidade cujo nome nos remete para uma bebida bem conhecida cá do burgo: Imperial. É uma pequena cidade operária de 15.000 pessoas, na Califórnia, que fica geograficamente a meros seis quilómetros da fronteira com o México. Mas, pequena ou grande, a verdade é que tudo era diferente há menos de um ano para o lutador que pensou inclusivamente em desistir da modalidade. No entanto, hoje é o campeão que vai receber nove milhões de dólares por este rematch. Tudo lhe parece surreal, especialmente tendo em conta donde veio, naquele ponto remoto onde aos seis anos começou a praticar boxe. 

"É de loucos. Nunca pensei que estaria aqui, especialmente na Arábia Saudita. Isto [o aparato no estádio onde decorreu a entrevista] dá-me dá arrepios. Houve um tempo em que quis desistir", revelou à The Athletic. 

Andy Ruiz Jr. vs Joshua II
créditos: MadreMedia

Antes de derrubar Joshua, Ruiz esteve perto de realizar o sonho de se tornar o primeiro campeão dos pesos pesados com ascendência mexicana há três anos. O seu registo era de 29-0 e lutava sob a batuta de Brad Goodman e Bruce Trampler. Foi em 2016, por decisão, frente ao kiwi Joseph Parker na Nova Zelândia — derrota que muitos consideram ter saído à casa, a única no seu currículo. Só que estar tão perto do objetivo e falhar deixou marcas. Ruiz passaria os próximos 15 meses de fora. E, cada vez mais frustrado com carreira, assim como ranking que ocupava, pensou na reforma.

"Sentia-me em baixo. Não sabia o que se estava a passar", admite o atual campeão. "Tinha a responsabilidade de sustentar os meus cinco filhos. Naquele tempo, fiquei sem casa e estava a viver com a minha mãe na sua casinha, com os meus filhos e a minha namorada. Senti-me envergonhado. Senti-me perdido", confessou na mesma entrevista. 

Só que a sua sorte viria a mudar. Em 2018, no mês de abril, Ruiz levou Alexander Dimitrenko ao tapete no quarto assalto. Tinha mostrado a agressividade e explosão que anos antes levaram a que apostassem nele. Faltava só mais um empurrão e uma oportunidade para dar o salto. Acreditando ou não em seres celestes, a verdade é que depois desse combate, os astros alinharam. E com a "infortúnio" (batota) de Jarrell "Big Baby" Miller, Ruiz atirou o "barro à parede": entrou em contacto com o promotor de Joshua, Eddie Hearn, via Instagram, sem nada a perder. A única coisa que sabia que tinha garantido era a sua vontade em provar que a derrota em Auckland tinha sido um percalço e que tinha capacidade para chocar o mundo.

O que se seguiu fez história. Será que a dita volta hoje a repetir-se?

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