Duas semanas depois de marcar uma conferência de imprensa que, por engano, ocorreu num parque de estacionamento junto a uma sex-shop e a um crematório e não num hotel de luxo, Rudy Giuliani, advogado pessoal de Donald Trump, voltou a reunir os jornalistas para fazer declarações a contestar os resultados das eleições presidenciais norte-americanas, que deram a vitória a Joe Biden.

Desta vez, Giuliani discursou na sede do Comité Nacional Republicano, em Washington DC, mas ainda assim a conferência foi marcada por episódios bizarros.

O ex-presidente da Câmara de Nova Iorque discursou sobre várias teorias da conspiração durante mais de uma hora, enquanto suava profusamente, tanto que uma mecha de suor castanho da tinta do seu cabelo escorreu pela sua cara e ficou marcada na sua bochecha.

"Vamos tornar-nos numa Venezuela. Não podemos permitir que isso aconteça conosco. Não podemos permitir que esses criminosos, porque é isso que eles são, roubem a eleição do povo americano", disse Giuliani. O advogado encabeça a campanha frenética nos tribunais para contestar os resultados das eleições de 3 de novembro, mas até agora a demanda tem sido marcada por poucos sucessos e sucessivos fracassos.

Apoiando a tese de Trump, que se recusa a admitir a vitória de Biden, Giuliani leu à imprensa 220 depoimentos juramentados sobre irregularidades no voto pelo correio, na Pensilvânia e em Michigan, dois estados-chave em que o democrata prevaleceu. No entanto, se no primeiro estado a campanha já abandonou parte dos processos em tribunal, no segundo foram os próprios republicanos que recuaram e certificaram a vitória de Biden.

No centro de suas acusações está o sistema de contagem de votos. "Vocês deveriam estar mais surpresos com o facto de que os nossos votos estão a ser contados na Alemanha e na Espanha pela empresa ligada a Chávez e Maduro", acusou Giuliani diante dos jornalistas, referindo-se a Hugo Chávez, o presidente venezuelano falecido há sete anos, e ao atual líder no comando do país, Nicolás Maduro.

A empresa em questão é a Smartmatic, fundada na Flórida nos anos 2000 por dois técnicos venezuelanos e especializada em aplicações eleitorais. O presidente da Smartmatic, Mark Malloch-Brown, está no conselho de diretores da Open Society Foundation, uma iniciativa lançada pelo bilionário filantropo George Soros, uma figura frequentemente mencionada em teorias da conspiração de bastidores.

Giuliani também fez referência ao filme "O Meu Primo Vinny" e tentou imitar a personagem de Joe Pesci, um advogado sem escrúpulos, citando uma cena em que o protagonista consegue desacreditar uma testemunha num caso de homicídio ao provar que a sua visão tem problemas e comparando essa situação à dos observadores republicanos que alegadamente não conseguiram ver as contagens de voto em Filadélfia devido à distância a que foram colocados.

Enquanto Giuliani falava, Trump escrevia no Twitter: "Os meus advogados estão agora na @newsmax, @OAMM e talvez na @Fox", escreveu o presidente dos Estados Unidos, citando três estações de televisão conservadoras. "Um caso aberto e encerrado de fraude eleitoral. Em números massivos!".

A conferência de imprensa "mais perigosa"

As alegações de fraude foram negadas pela Agência de Segurança Cibernética e de Infraestrutura (CISA), que garantiu que a eleição presidencial foi "a mais segura da história".

Chris Krebs, que acabou afastado por Trump do cargo de diretor desta agência, referiu-se à conferência de imprensa de Giuliani como a "mais perigosa" e a mais "delirante" da história da televisão americana.

Giuliani denunciou que as "grandes cidades são controladas pelos democratas" e afirmou que a recontagem atual na Geórgia não significa nada porque "estão a contar os mesmos votos fraudulentos mais uma vez".

A respeito da Pensilvânia, ele afirmou que muitos eleitores vieram de Nova Jersey para votar. "A menos que sejam estúpidos, sabem que muitas pessoas vieram de Camden (Nova Jersey) para votar. Eles votam todos os anos. Isso está sempre a acontecer na Filadélfia. É tão comum quanto levar um soco num jogo de futebol americano do Philadelphia Eagles", acusou.

Enquanto isso, Sidney Powell, advogada da campanha de Trump, denunciou uma "imensa influência do dinheiro comunista da Venezuela, Cuba e provavelmente China" que interferiu nas eleições.

Powell reiterou a tese de Giuliani e afirmou que as urnas utilizadas foram "criadas na Venezuela por Hugo Chávez" para garantir que ele nunca perdesse uma eleição, garantindo que os sistemas estão configurados para tirar percentagens dos votos de Trump e atribuí-los a Biden.

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