Alcino Silva, 55 anos, é cientista e tem uma carreira de mais de três décadas que foram tudo menos banais. Trabalhou com vencedores do prémio Nobel, inaugurou novos campos de pesquisa científica, fundou e presidiu a organismos internacionais com sete mil membros. Recebeu inúmeras distinções, incluindo o prémio Roche para Neurociência, em 2009 e uma distinção da Associação Americana para Avanço da Ciência, em 2012. Esta quinta-feira, o seu nome volta à ribalta como sendo o parceiro que nos Estados Unidos permitiu a Miguel Castelo-Branco, do Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde (ICNAS), da Universidade de Coimbra, tornar-se um dos vencedores da bolsa de 400 mil dólares da FLAD com um projeto de investigação sobre autismo.

Nascido nas margens do Douro, em Vimieiro, a família de Alcino Silva mudou-se para Angola nos anos 60 e foi lá que viveu até 1974. Depois do 25 de Abril, mudou-se para Soutelo, em Braga, e foi nesta cidade, no Liceu Sá De Miranda, que descobriu o que era epistemologia, o estudo científico dos problemas relacionados com o conhecimento, e se interessou pelo problema de “como sabemos aquilo que não sabemos.”

“Primeiro, pensei que ia estudar epistemologia, mas rapidamente percebi que as respostas que procurava viriam de estudos biológicos do cérebro, onde os mecanismos fundamentais da aprendizagem e memória podem ser investigados, e que talvez seja aí que podemos responder às questões que os filósofos têm há milénios”, explica.

No final do ensino secundário, com a convicção de se tornar cientista, tomou a decisão de sair do país. “Depois da revolução, as nossas universidades estavam em desordem e a ciência especialmente afetada. Então convenci os meus pais a deixarem-me vir para os EUA e perseguir o meu interesse em ciência”, lembra.

Ficou a viver num dos centros da comunidade portuguesa de Nova Jérsia, Elizabeth, e licenciou-se em ciência e filosofia na Universidade de Rutgers. Juntou-se depois à Universidade de Utah para trabalhar com um dos pioneiros no estudo de genética humana, Ray White, e durante o seu pós-doutoramento foi o primeiro a introduzir o uso de ratos transgénicos nos estudos de aprendizagem e memória e um dos pioneiros do campo de cognição molecular e celular.

Continuou esse trabalho no Laboratório Cold Spring Harbor, em Nova Iorque, onde nos anos 90 liderou a equipa que tornou a cognição molecular e celular um dos maiores campos de investigação dentro da neurociência. Em 2002, fundou e tornou-se presidente da Sociedade de Cognição Molecular e Celular, que tem hoje cerca de sete mil membros e gabinetes na América, Europa e Ásia.

Em 2006 e 2007 foi diretor científico de um programa nacional na área da saúde mental e lidera hoje o Silva Lab, um laboratório batizado em sua honra, na Universidade da California, que estuda os mecanismos de aprendizagem, memória e as suas desordens.

“O nosso laboratório já descobriu alguns mecanismos usados para aprender, lembrar e até alterar informação apreendida. Também descobrimos mecanismos que permitem ligar informação aprendida em diferentes alturas e, dessa forma, integrar aquilo que sabemos. Mais importante, descobrimos as causas e tratamentos para um par de desordens que afetam memória e aprendizagem”, diz.

O laboratório usa tecnologia de ponta, como optogenética e mapeamento de circuitos, para tentar perceber as causas e desenvolver tratamentos para desordens relacionadas com a idade ou autismo, por exemplo.

“Também estamos a usar essas descobertas para criar tratamentos que aceleram a recuperação depois de danos cerebrais. Depois de uma lesão, o cérebro tenta aprender sem a área afetada, e já temos provas de que os mecanismos de memória podem ser usados para melhorar a recuperação”, acrescenta.

Alcino Silva trabalha com Miguel Castelo Branco, o investigador distinguido hoje pela FLAD, há mais de uma década. Enquanto o cientista baseado em Coimbra trabalha sobretudo com humanos, do outro lado do oceano Silva desenvolve a sua pesquisa com ratos.

“De forma notável, as nossas descobertas têm sido paralelas. Isto é fundamental porque há estudos de tratamentos que só podem ser feitos em ratos, mas temos de saber se os seus resultados têm algum significado em pacientes”, explica.

Em 2010, durante as cerimónias do Dia de Portugal em San Diego, na Califórnia, Alcino Silva foi distinguido com a Ordem do Infante Dom Henrique.

Prémio FLAD Life Science 2020 anunciado hoje

João Morais-Cabral e Miguel Castelo-Branco são os vencedores da 2.ª edição do prémio FLAD Life Science 2020, o maior prémio concedido a investigadores nacionais a operar em Portugal, com projetos sobre autismo e antibióticos.

Os vencedores das bolsas, cada uma de 400 mil euros, serão anunciados hoje à tarde, na sede da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), em Lisboa, numa cerimónia que conta com a participação do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Na categoria de investigação fundamental, o premiado é João Morais-Cabral, do Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC), da Universidade do Porto, com um projeto que pode conduzir ao desenvolvimento de antibióticos mais eficazes.

Morais-Cabral é licenciado em bioquímica pela Universidade do Porto, onde ensina, e tem um doutoramento na Universidade de Edimburgo, na Escócia, e estudos de pós-doutoramento nas universidades de Harvard e Rockefeller, nos EUA, e Leicester, no Reino Unido. Foi também professor assistente na universidade americana de Yale.

Miguel Castelo-Branco, do Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde (ICNAS), da Universidade de Coimbra, é o vencedor do prémio para investigação aplicada com um projeto sobre autismo.

Castelo-Branco acredita que “doenças como o autismo representam um enorme desafio para a sociedade”, mas que “continua a ser um mistério o que desencadeia as perturbações do comportamento em doenças deste espectro”.

“Neste projeto, tentamos testar de forma direta uma hipótese sobre a natureza dos distúrbios neurais no autismo e sobre o respetivo tratamento. A hipótese postula que há um desequilíbrio no balanço entre os mecanismos de excitação e inibição da atividade neuronal. O nosso projeto testa esta hipótese bem como possíveis formas de tratamento para corrigir este desequilíbrio”, explicou o cientista.

Miguel Castelo-Branco é licenciado em medicina pela Universidade de Coimbra, onde leciona, e realizou o seu doutoramento no Instituto Gulbenkian de Ciência. Continuou estudos na Alemanha e Holanda, onde deu aulas como professor auxiliar na Universidade de Maastricht, e regressou a Portugal como investigador e coordenador do Instituto Biomédico de Investigação da Luz e Imagem (IBILI).

O prémio da FLAD distingue trabalhos de investigação feitos em parceria com cientistas dos Estados Unidos. No caso da investigação sobre antibióticos, a parceria é realizada em parceria com Zhou Ming, da Universidade Baylor, no Texas; e no do autismo com Alcino Silva, da Universidade da Califórnia, Los Angeles.

Créditos da fotografia: http://www.silvalab.org

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