Creme anti inflamatório. √

Spray analgésico para dores musculares e das articulações. √

Compressas. √

Agulha desinfectada. √

Desinfetactante. √

Creme de massagem para os pés. √

Comprimidos analgésicos ou anti-inflamatórios. √

Esta é uma lista resumida do kit básico do peregrino a partir do segundo dia de peregrinação ou para alguns - mais prevenidos ou menos preparados - desde o primeiro dia. Porque as dores, elas aparecem, por que os músculos, eles manifestam-se, e todos os dias o nosso corpo fala connosco de maneira diferente.

Não há uma forma certa ou errada de fazer uma peregrinação. O que significa que podemos seguir todas as recomendações e acabar cheios de dores e mazelas, da mesma forma que podemos falhar algumas e estarmos incríveis quando o dia chega ao fim. Incríveis é provavelmente um adjetivo exagerado, ou no mínimo provisório, porque outra coisa certa numa peregrinação é que não há dois dias iguais e o que é verdade hoje pode ser mentira amanhã.

“Se tiverem de escolher entre ir à missa e as aparições, vão à missa”
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Mas voltando às drogas. São um tema constante de conversa. “Já puseste Voltaren?”. “Não, hoje tomei dois comprimidos de manhã e faço só massagem quando pararmos”. “Eu dou-me muito bem é com Halibut, para as bolhas é o melhor”. “A mim na farmácia deram-me uma espécie de batom para as bolhas e funciona mesmo”. “Estás aflita/o? Tenho um spray frio para as dores que é fantástico, posso emprestar-te”. Temos conversas destas a cada hora, a cada paragem e sobretudo a cada fim e início do dia. Há quem use drogas mais duras ou mais leves, há quem experimente cocktails diferentes, mas ninguém está “limpo”.

O kit de caminhada vai sendo escolhido à medida daquilo que mais funciona para cada um, das paragens nas diversas farmácias e, também preciso dizê-lo, da permeabilidade do peregrino à opinião e experiência alheias. Antes de sair para uma nova etapa a checklist das drogas é feita porque, como se costuma dizer, quem vai para o mar, avia-se em terra.

Psicologicamente é toda uma outra história. Peregrinar tem um móbil que, ao contrário do que muitos pensam, não é cumprir promessas. Esse pode ser um dos motivos que leva as pessoas a pôr os pés ao caminho, mas, afiançam algumas vozes experientes, hoje essa já não é a principal razão.

No caso da peregrinação a Fátima, os grupos de culto mariano caminham para oferecer o sacrifício da sua caminhada a Maria. O sacrifício representa assim amor, devoção, entrega. E, dependendo da orientação espiritual, pode significar também que quanto maior o sofrimento, maior o amor, a devoção, a entrega. É vulgar por isso ouvir-se, quando o corpo aperta em dor ou quando algum imprevisto, como a chuva ou um erro no percurso, acontece que é apenas mais um sacrifício por Nossa Senhora. Com um sorriso nos lábios e a certeza de quem não questiona que é assim que deve ser. Como era no princípio, agora e sempre, a frase da oração intensamente repetida ao longo dos dias de caminhada.

O sacrifício da devoção vive paredes meias com uma necessidade de superação pessoal não muito diferente de quem corre uma maratona ou - como os atletas que encontrámos no domingo à saída de Lisboa - faz uma prova de triatlo. Terminar cada etapa é uma vitória. Terminar sem dores e no grupo dos primeiros uma vitória medalhada. Terminar apesar das dores, do sofrimento, às vezes extremo, uma prova de superação de que os companheiros de jornada irão falar a outros em anos seguintes. Porque há quem acabe com pés em tal estado que têm de ser lancetados. Ou com lesões musculares que têm consequências por mais de seis meses. Mas são recordados pelo seu heroísmo e pela sua capacidade superação.

Além da maratona, há também uma proximidade com a Volta a Portugal em bicicleta e não é só pelos coletes amarelos. É sobretudo pelo esforço e pela superação, e também nos acenos e buzinadelas que se multiplicam ao longo da estrada. Cada automobilista confortavelmente instalado no seu cubículo que nos buzina é uma prova de admiração - e de comunhão para quem assim o entende - que faz as pernas continuarem a andar.

O reverso da medalha é igualmente verdadeiro. A mente mais racional pode sentir-se em causa quando falha alguns quilómetros porque a dor não o permitiu. E a realidade que João Canijo mostra em “Fátima”, filme em exibição nos cinemas, é verdadeira. Depois de se falhar uns quilómetros, há culpa e tristeza e inicia-se um processo de negociação. Como vamos compensar aqueles quilómetros que o corpo nos impediu de fazer? Há quem volte atrás e repita o percurso. Há quem acrescente mais quilómetros à lista. Queremos justificar-nos perante os homens e perante Deus. Como se de mais ou menos 10 quilómetros dependesse a validação em espírito do que nos propusemos fazer.

“Tenho um menino de dois anos e meio que quase nasceu lá. Onde? No Santuário de Fátima”
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Uma última nota sobre bolhas. São um dos marcos mais ou menos garantidos de quem peregrina. Uma forma do corpo assinalar a caminhada. Como se trata uma bolha? Ora há toda uma panóplia de teorias e de práticas. Muito em voga está a teoria - e a prática - da agulha e da linha. Com a agulha espeta-se e tira-se a água, com a linha atravessada entre a bolha garante-se que vai ou secar ou ter dois orifícios abertos para voltar a espremer a água. Como? Fazendo deslizar a linha, de manhã e à noite, para trás e para a frente na bolha, como se fosse fio dental a limpar os dentes (parece terrível, mas não é). A linha tem de ficar comprida para garantir que podemos fazer esses movimentos. Agora, linha branca ou linha preta? Preta, diziam os antigos e os novos que agora usam o processo não esqueceram, mesmo que em alguns pontos de apoio ao peregrino só haja linha branca. Porque linha preta e não branca? Porque a branca pode confundir-se com a pele e com a preta isso não acontece - foi a explicação mais plausível que ouvimos.

Mas esta é uma teoria vivamente refutada por outros. Linha? Nem pensar. Pode infectar, sabem de casos e casos em que infetou e a bolha aberta em dois pontos com linha no meio é um convite às infeções (sim, porque com linha não se faz mais nada, nem pensos, nem compressas, nada, só ar e linha). Por isso há quem pique a bolha, esprema a água, desinfete e coloque Halibut ou um creme parecido por cima, almofadando depois a zona com compressas e adesivo (funciona, também podemos atestar). E há quem simplesmente assegure que nada melhor que dois adesivos, dos antigos e tradicionais, por cima da pele da bolha devidamente espremida e é quanto baste.

Os olhos colados nos pés da frente. Eles andam, nós andamos. Cabeça curva, cortando o vento ou o sol ou a chuva. Não se vê o destino mas vê-se o caminho. E assim continuamos a peregrinar.

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