Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita

Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco

Escutemos. Entre os carreiros de camélias, altas e imponentes, que, embora a vetusta garra, vacilam com a intempérie. Ali no meio do bosque, ouve-se o zumbido da estrada, na sombra da casa vermelha. O silêncio daqui não é como esse lá do túmulo, onde ressoa só o som da pedra, baque seco e denso do mineral, que dentro guarda o verbo.

Os ouvidos ouviram pela primeira vez há 100 anos. Um berro. Um grito desgarrado duma garganta acabada de abrir. O corpo banhado de ar, saído no mundo. Nasceu Sophia, poeta, trazida à luz; trazida assim à liberdade da luz; trazida ali ao espanto da luz.

Esta quarta-feira, celebram-se cem anos do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen. A poeta —  não poetisa — fez das palavras voz, do dicionário história.

A Alexandra Antunes traz-nos hoje uma conversa. A conversa das conversas entre Sophia e outro nome grande dessas letras portuguesas: Jorge de Sena, que também por estes dias comemora o centenário do nascimento.

Um e outro, contemporâneos, trocaram cartas e palavras, que a Alexandra coligiu, com as vozes distintas de J. Filipe Ressurreição e Carina Lopes, numa grande reportagem para ler, mas também ouvir, já que preparámos umas engenhocas que permitem escutar as leituras — em Lisboa e no Porto — das palavras de Sophia e Jorge.

De pouco adianta outra recomendação para além desta — e da obrigatória: importa ler poesia, seja de Sophia, de Sena ou Egipto Gonçalves; seja da sentimental ou da ecfrástica; da romântica ou da meditativa.

Por falar em meditação: amanhã é dia internacional da preguiça. Calha bem: quinta-feira é aquele dia duro, onde, já com a longa semana atrás, ainda vamos longe do fim de semana (isto para os que têm a sorte de não trabalhar aos fins de semana).

Em dia de preguiça, termina, em Lisboa, a Web Summit. Sobem ao palco a comissária europeia Margrethe Vestager e o presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa.

Agora, porque este dia se não repete, termino do jeito que comecei: nas palavras de Sophia (também neste pequenino Geografia). Eis-me alheio, mas sobretudo curvado perante o génio — eu, que sou o Pedro Soares Botelho, e, munido da poesia (se é ela munição), escrevi que hoje o dia foi assim.

A mão traça no branco das paredes
A negrura das letras
Há um silêncio grave
A mesa brilha docemente o seu polido

De certa forma
Fico alheia

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