Em janeiro, as autoridades francesas fundiram duas entidades forenses e no complexo do quartel-general da recém-formada sede do Serviço Nacional de Polícia Científica Francesa (SNPS) em Écully, nos arredores de Lyon, cerca de 1.200 agentes forenses recorrem à ciência e tecnologia revolucionária para estarem um passo à frente dos criminosos. Um trabalho duro centrado na criminalidade: assassinatos, violações, assaltos. A história é contada pelo The Guardian.

Todos os dias cerca de 500 itens de provas chegam ao edifício, embaladas em sacos de papel kraft castanho selados e não em sacos de plástico de zip como se via na série televisiva CSI. Depois de desempacotadas, registadas e identificadas com um código de barras, as provas seguem para os laboratórios para sequenciação.

"Não fazemos a sequência completa do genoma, mas um máximo de 23 combinações. Nenhum cientista vai dizer que é 100% preciso, mas é tão bom como tal, e se não for, voltamos a analisar a amostra", explica a técnica biológica Catherine Privat. "A única dificuldade é com gémeos idênticos cujo ADN é exatamente o mesmo, mas nesse caso recorremos às impressões digitais". Segundo refere, atualmente, processam cerca de 20 mil indivíduos por mês e “os avanços no ADN têm sido fantásticos”.

No entanto, os regulamentos franceses sobre liberdades civis exigem uma supervisão rigorosa da base de dados de ADN por uma autoridade independente. Por isso, a Commission Nationale Informatique & Libertés (CNIL), que assegura a liberdade pública, tem representantes que visitam regularmente o SNPS para solicitar que os registos genéticos e respetivo perfil de um suspeito que tenha sido ilibado ou que tenha falecido sejam apagados. As regras sobre a utilização do ADN para fazer o perfil de pessoas vivas são muito rigorosas, ao contrário do que acontece durante a identificação de mortos, e exigem a aprovação de um juiz de investigação. Só uma autorização legal permite utilizar o ADN para dar detalhes sobre o cabelo, olhos e cor da pele de um suspeito com um elevado grau de exatidão.

Até então, os retratos dependiam da informação dada por parte de eventuais testemunhas, o que a poderia tornar falível, pois determinadas características podem ser subjetivas, como a altura. A porta-voz do SNPS, Virginie Dhaze, explica que estão “a desenvolver o que é chamado de 'genética preditiva'. É relativamente recente, tem de ser autorizada e só é utilizada para certos crimes ou para a identificação de um corpo".

Os investigadores do SNPS trabalham em estreita cooperação com o Tribunal Internacional de Justiça em casos de terrorismo, genocídio e crimes contra a humanidade, bem como com as autoridades vizinhas, incluindo as do Reino Unido.

O inspetor Gen Éric Angelino, diretor da SNPS, acredita que dentro de uma década o ADN permitirá facultar ainda mais informação, possibilitando até a identificação da constituição física de uma pessoa ou até mesmo uma imagem precisa do seu rosto.

"Estamos no caminho para o retrato genético e dentro de alguns anos poderemos reconstruir o rosto de um suspeito a partir do seu ADN, bem como o seu tamanho, altura e outros fatores de identificação", explicou Angelino, afirmando que o "ADN está longe de ter revelado o seu último segredo".

Erwan, um dos peritos da polícia científica que pediu para não revelarem o seu apelido devido à sensibilidade de algumas das suas investigações, explica que "na série televisiva são sempre os mesmos polícias que chegam ao local, recolhem as provas, e param o criminoso em 45 minutos”, mas “a vida real não é assim".

"Na realidade, é o trabalho de muitas pessoas e mesmo assim a polícia pode procurar durante semanas, meses, até anos e por vezes não encontramos as respostas ou não apanhamos o culpado", explica.

O perito integrou investigações como o Bataclan ou os ataques terroristas em Nice (atropelamentos no Dia da Bastilha em 2016 e os esfaqueamentos na igreja em outubro do ano passado). A polícia científica também foi chamada para identificar as vítimas do tsunami de 2004 na Tailândia e do terramoto de 2010 no Haiti. No ano passado, trabalhou na enorme explosão em Beirute e nos assassinatos dos trabalhadores humanitários assinados no Níger.

Identificação além do suspeito

Os laboratórios de ciência policial não servem apenas para identificar características de um suspeito. Num outro laboratório, por exemplo, uma variedade de drogas armazenadas em sacos de plástico aguarda análise.

"Podemos dar o perfil de uma droga, por isso podemos dizer de onde veio e se é o mesmo que outros na rua". A cooperação internacional nesta matéria é também crucial. Temos de saber se uma nova substância psicotrópica chega ao mercado e se está disponível noutros países", explica a técnica biológica Catherine Privat.

Segundo o inspetor Angelino, um dos objetivos do novo serviço forense é "democratizar" o trabalho para melhor servir o público: focarem-se não só nos casos maiores e crimes de grande visibilidade, mas também nos crimes do quotidiano.

Para o inspetor, manterem-se à frente dos criminosos é um desafio constante, mesmo que a ciência lhes torne cada vez mais difícil escapar.

"Hoje, não podem deixar uma impressão digital, ADN, cheiro, rasto digital ou serem apanhados numa câmara. Têm de ser invisíveis. Mas como polícia, temos de ser humildes e não acreditar que somos mais espertos do que os criminosos. Temos de aprender o tempo todo para nos mantermos um passo à frente", explica.

No entanto, uma das coisas que refere que mais o surpreendem é "a criatividade do ser humano para prejudicar o seu semelhante".

Questionada sobre o crime perfeito, Dhaze apenas respondeu: "Se existe um crime perfeito, não sabemos sobre ele".

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