"Depois da revelação de documentos oficiais desta embaixada, tem havido muita especulação quanto à minha posição e a duração do meu mandato enquanto embaixador", escreveu Darroch na sua carta de demissão, citada pela agência Reuters.

"Quero por fim a essa especulação. A atual situação está a tornar impossível eu cumprir o meu papel como gostaria", conclui o embaixador, posicionado em Washington desde janeiro de 2016.

O Foreign Office (Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico) já confirmou a decisão de Darroch de se demitir, realçando o "dignidade, profissionalismo e classe" e lembrando que o executivo esteve com o embaixador depois deste "ser alvo de um fuga de informações maliciosa". Simon McDonald, oficial do Foreign Office, disse ter aceitado a demissão "com um profundo arrependimento", compreendendo o desejo de suavizar a pressão sobre si e a sua família.

Em causa está a revelação pelo jornal inglês Sunday Mail de telegramas diplomáticos em que o embaixador britânico em Washington, Kim Darroch, se referiu ao Governo dos EUA como “incompetente” e “instável”.

Darroch chegou a sugerir que, para se comunicar com Donald Trump, é preciso “apresentar os argumentos de forma simples”, dizendo que não acreditava em mudanças com o evoluir do tempo.“Não acreditamos que esta administração se torne substancialmente mais normal; menos disfuncional; menos imprevisível; menos dividida; menos diplomaticamente desajeitada e incompetente”, escreveu o embaixador num dos telegramas.

Como resposta, o Presidente norte-americano a reagiu, dizendo que aquele diplomata é “uma pessoa muito estúpida” e anunciando que não teria mais contacto com ele.

“Eu não conheço o embaixador, mas disseram-me que ele é um tonto pomposo. Digam-lhe que os EUA têm agora a melhor economia e forças militares do mundo”, escreveu ontem Donald Trump na sua conta pessoal da rede social Twitter.

As reações à demissão de Darroch não se fizeram tardar por parte do executivo do Reino Unido. Segundo o jornal britânico The Guardian, depois de uma sessão na Câmara dos Comuns, a primeira-ministra Theresa May elogiou Darroch por "uma vida de serviço em prol do Reino Unido", acrescentando que o país "tem uma enorme dívida de gratidão" para com o embaixador e que o caso deve ser aproveitado "para refletir a importância de defender os nossos valores e princípios, particularmente quando estão sob pressão".

Do lado da oposição, Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhador, considerou o tratamento dado a Darroch "para lá de injusto e errado", dizendo que o embaixador "prestou um bom e honrado serviço" ao país.

O atual ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Jeremy Hunt, já disse que haverá uma investigação à fuga de informação que permitiu a divulgação dos telegramas diplomáticos, dizendo que “se e quando houver responsáveis, eles serão fortemente condenados”.

De acordo com a BBC, Kim Darroch nasceu em 1954 na vila de South Stanley, no condado de Durham, tendo-se formado na universidade local. Ao longo de uma carreira de 42 anos na diplomacia, Darroch especializou-se em questões de segurança nacional e política da União Europeia, tendo sido o representante permanente do Reino Unido em Bruxelas em 2007. Tendo servido enquanto conselheiro de segurança nacional do Reino Unido entre 2012 e 2015, foi no ano seguinte que foi colocado em Washington, um ano antes de Donald Trump assumir a presidência.

As repercussões do caso

Para além de ter reagido contra o embaixador, Donald Trump aproveitou o caso para criticar também Theresa May, que se tinha colocado ao lado do embaixador. Utilizando o Twitter, o presidente dos EUA disse que a primeira-ministra do Reino Unido não soube lidar com o processo do Brexit.

“Eu disse a Theresa May como lidar com a questão, mas ela preferiu ir pelo seu tolo caminho e não o conseguiu fazer”, escreveu Trump, acrescentando que "a boa notícia para o Reino Unido é que em breve terão um novo primeiro-ministro”.

O caso criou um incidente diplomático que levou ao cancelamento de um encontro entre o secretário do Comércio britânico, Liam Fox, e o secretário do Comércio norte-americano, Wilbur Ross, segundo fontes citadas pela estação televisiva Sky News.

As mesmas fontes disseram, contudo, que o Departamento de Comércio dos EUA está a trabalhar para encontrar uma nova data, “conveniente para ambas as partes”, para a realização da reunião, numa altura em que os dois países procuram estreitar relações comerciais perante o cenário do ‘Brexit’.

Perante os comentários de Trump, Jeremy Hunt, usou também a sua conta no Twitter para reagir.“Os amigos falam francamente, por isso também o farei: os comentários são desrespeitosos e errados para a nossa primeira-ministra e para o meu país”, escreveu Hunt.

Sobre os telegramas diplomáticos em que Darroch se referia ao Governo norte-americano, Jeremy Hunt já os tinha lamentado e pedido desculpa por eles. Mas após a reação de Donald Trump, Hunt disse que “os aliados se devem tratar com respeito”.

“Os vossos diplomatas dão as suas opiniões privadas ao secretário de Estado Mike Pompeo e também os nossos mas dão!”, explicou Jeremy Hunt, dirigindo-se diretamente a Donald Trump, na sua conta do Twitter.

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