O arcebispo venezuelano começou a sua intervenção por afirmar que está "feliz" por ser "peregrino neste lugar abençoado por Deus e escolhido por Maria para nos tomar pela mão e acompanhar-nos pelas sendas estreitas da história do nosso tempo".

"Voltei aqui para me alegrar convosco na presença de Nossa Senhora, que não se cansa de nos amar, que não se cansa de nos proteger com a sua ternura materna. Estar aqui em Fátima, a 13 de maio, significa sobretudo responder a um chamado à oração, a depositar no Imaculado Coração o nosso mundo ferido e dilacerado pela falta de paz", continuou.

De seguida, o arcebispo evocou o conflito na Ucrânia. "Mesmo nestes tempos difíceis, marcados pelo flagelo da guerra e pelo vírus da pandemia, alegrai-vos: não no mundo, mas no Senhor, porque Ele é fiel, sempre, às suas promessas. Alegrai-vos, porque, como nos recordou a primeira Leitura, Deus renova todas as coisas e também porque, na sua obra de renovação da Igreja e do mundo, Fátima ocupa um lugar de destaque".

Neste sentido, lembrou a renovação, a 25 de março, "em singular união" com Fátima, da "consagração da Igreja e da humanidade ao Imaculado Coração de Maria", referindo de seguida o Papa Francisco que, "no início deste mês mariano, pediu para rezar todos os dias o terço pela paz. Nossa Senhora traz a paz: foi para nos dar o Príncipe da Paz e trazer vida nova à humanidade que Maria veio ao mundo".

O que está a acontecer em Fátima?

  • A peregrinação de hoje ao Santuário de Fátima regista a presença de um número significativo de fiéis, que voltam a encher a esplanada do recinto após dois anos de restrições provocadas pela pandemia de covid-19;
  • Na procissão de velas de quinta-feira à noite estiveram no santuário cerca de 200 mil peregrinos, de acordo com os números divulgados pelos serviços do santuário;
  • O rosário e a eucaristia foram hoje presididos pelo arcebispo Edgar Peña Parra, substituto para os Assuntos Gerais da Secretaria de Estado do Vaticano, que na noite de quinta-feira referiu a situação de guerra na Ucrânia, lamentando que “no banquete da humanidade” falte “o vinho da fraternidade e da paz”;
  • Nas cerimónias deste dia 13, o recinto regista um número menor de crentes, mas uma grande representação do clero que acompanha o presidente da eucaristia, o arcebispo venezuelano Edgar Peña Parra;
  • No total, a acompanhar o Substituto para os Assuntos Gerais da Secretaria de Estado do Vaticano, estão presentes 11 diáconos, 318 padres e 28 bispos;
  • Quanto a grupos organizados de peregrinos, os serviços do santuário registaram 124, de mais de uma vintena de países;
  • O cálice utilizado na missa de hoje, em prata dourada, foi oferecido ao Santuário de Fátima pelo Papa João Paulo II a 13 de maio de 1991, na sua segunda peregrinação a Portugal. A primeira visita do pontífice à Cova da Iria aconteceu há precisamente 40 anos, em maio de 1982.

D. Edgar Peña Parra aproveitou ainda a ocasião para apelar ao acolhimento da "Palavra divina". Segundo o arcebispo venezuelano, "mais feliz do que a pessoa que nutre um corpo, é quem dá corpo à Palavra, pondo-a em prática. Há um vínculo novo, superior ao da carne e do sangue: é o vínculo da fé".

Jesus "declara felizes todos os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática", disse D. Edgar Peña Parra, destacando a importância da "escuta", que não é apenas "um gesto", mas antes "um comportamento de base, algo essencial e prioritário na vida cristã".

"Pensemos também como está desvalorizada a escuta na família, no trabalho, na vida quotidiana: dizemos e amplificamos muitas palavras, movidos pela pressa de dizer ou fazer sempre qualquer coisa, esquecendo de nos dessedentarmos com calma na fonte da vida e da paz, que é o Senhor, e dedicarmos tempo às relações mais importantes, que se preservam primariamente acolhendo o outro, as suas palavras, o seu olhar", afirmou o presidente da celebração eucarística.

"Mesmo a nível internacional, pensemos como seria importante escutar as razões do outro e dar prioridade ao diálogo e à negociação, os únicos caminhos para uma paz estável e duradoura, em vez de empreender ações inspiradas pela busca gananciosa e apressada dos próprios interesses. A escuta, feita de silêncio que abre o coração, ajuda a acalmar ressentimentos e rancores e reencontrar o caminho da paz", apontou.

Partindo do exemplo de Maria, que "não se limita a uma escolha acolhedora, mas torna-se vida prática", o arcebispo lamentou que hoje as pessoas tenham "a tentação de gerir tudo, incluindo a fé, segundo as emoções instáveis do momento".

Ao contrário, Maria mostra-nos que é preciso concretização e perseverança. A isto nos convida Fátima. Queridos irmãos e irmãs, estar aqui no 13 de maio significa também desejar que a mensagem de Fátima não seja apenas algo relevante do ponto de vista religioso e histórico, mas que se traduza na prática, pessoalmente, na nossa vida quotidiana, na vida quotidiana de todos aqui presentes", disse.

Por isso, numa referência dirigida aos peregrinos, convidou a que as famílias devem ser fonte de anúncio, convidando as pessoas a ir à missa dominical, "porque não existe domingo sem missa".

Nossa Senhora procura a conversão pessoal, procura quem se sacrifique e reze pelos outros. Lembra a nossa responsabilidade de crentes. Ajuda-nos a descobrir a maravilha duma fé que renasce da escuta e cresce na perseverança, na caridade operosa, na oferta jubilosa da vida, na concretização do anúncio", referiu.

O diplomata da Santa Sé apelou ainda à evangelização, aproveitando a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) que decorrerá em Lisboa em 2023 e que tem como tema "Maria levantou-Se e partiu apressadamente".

"Queridos peregrinos de Fátima, levantemo-nos e partamos apressadamente ao encontro de quantos nos rodeiam: sonhemos com eles e, com a ajuda de Deus, não nos cansemos de construir uma Igreja com rosto jovem e belo", concluiu o arcebispo Peña Parra, que deixou ainda uma referência aos 40 anos da primeira deslocação do Papa João Paulo II — "o Papa que convidou o mundo a não ter medo e a abrir o seu coração a Cristo" — à Cova da Iria.

A bênção da Imagem doada à Ucrânia

A bênção de uma imagem réplica da Virgem Peregrina de Fátima com destino à catedral de Lviv, na Ucrânia, foi um dos últimos momentos da peregrinação aniversária de maio ao santuário da Cova da Iria, que hoje termina.

Depois de benzer os objetos religiosos, D. José Ornelas, bispo de Leiria-Fátima, abençoou a Imagem. "Bendizei, Senhor, de modo especial, esta imagem da Vossa Mãe, que enviaremos para a Ucrânia", disse, acrescentando que será "um sinal e fundamento de paz para a Ucrânia e para todos no mundo".

De seguida, na sua intervenção final, D. José Ornelas lembrou que a celebração que encerra com "este gesto de paz" é primeira em que toma parte como bispo de Leiria-Fátima.

"Desejo, antes de mais, dar graças a Deus que veio trazer uma mensagem motivadora de conversão, de vida e de paz, à Igreja e ao mundo, revelando-se, através da sua Mãe, a três humildes crianças desta nossa terra, desta Igreja de que todos fazemos parte", começou por dizer.

"Que a presença materna de Maria, modelo da Igreja que cuida dos mais pequenos e frágeis, resplandeça neste momento difícil, pois encontramo-nos ainda a braços com uma pandemia que condiciona toda a humanidade e uma guerra que atinge com trágica e destrutiva ferocidade a Ucrânia e tantos outros lugares do planeta. Que a mensagem de paz que Ela veio nos veio trazer em Fátima, seja acolhida no coração dos que alimentam esta guerra, a fim de que se pare a barbárie e se possa construir o mundo novo, na justiça, na solidariedade fraterna e na paz", acrescentou.

Dirigindo-se a D. Edgar Peña Parra, o também presidente da Conferência Episcopal Portuguesa agradeceu a presença do arcebispo venezuelano no Santuário — e pediu que leve uma mensagem até ao Vaticano. "Peço-lhe que transmita ao Santo Padre Francisco a nossa estima e comunhão com o seu ministério, bem como a promessa da nossa oração", afirmou.

O novo bispo de Leiria-Fátima deixou ainda algumas palavras ao seu antecessor, o cardeal D. António Marto, "que em continuação do ministério de D. Serafim, durante os últimos 16 anos, foi a voz de acolhimento" da Diocese "os peregrinos que convergem para a Cova da Iria", e também ao reitor do Santuário, padre Carlos Cabecinhas, e a todos os seus colaboradores por estarem "ao serviço daqueles que vêm buscar paz, inspiração e força aos pés da Virgem Maria em Fátima".

D. José Ornelas continuou também a tradição de D. António Marto, ao dirigir-se aos peregrinos mais pequenos, anteriormente designados por "amiguitos e amiguitas".

A vós, queridos meninos e meninas que estais na assembleia, hoje quero dizer-vos que a Mãe do Céu e o Senhor Jesus gostam muito de vos ver aqui na Cova da Iria", disse o bispo, que reforçou que Fátima será sempre "a casa" de todas as crianças, já que foi "onde a Mãe do Céu veio ao encontro de três crianças como vós, Francisco, Jacinta e Lúcia".

"Respondei com amor igual ao deles, para que possais sentir a presença carinhosa do Pai do Céu na vossa vida", rematou.

A todos os peregrinos que visitaram a Cova da Iria, uma mensagem final: "Que Maria, a mãe de Jesus e Mãe da Igreja nos revele sempre o Coração misericordioso do seu Filho Jesus, nos reúna em Igreja e nos torne solidários e misericordiosos com quem precisa, para estarmos presentes e ativos na construção de um mundo de justiça e de Paz".

No final da celebração, a emoção voltou a marcar a peregrinação de 13 de maio ao Santuário de Fátima, com milhares de lenços brancos a serem acenados na procissão do Adeus.

Muitas lágrimas, acompanhadas de muitas palmas, cerca de 170 mil fiéis que estiveram no santuário e acompanharam o percurso do regresso da imagem de Nossa Senhora de Fátima do altar do recinto até à Capelinha das Aparições.

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