Para a associação ambientalista Zero, há "uma perigosa falta de ambição climática" e um "fracasso dos governos em abordar as ligações inerentes entre justiça social, ecológica e climática".

A Zero defende que, na 25.ª Conferência das Partes (COP25) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, que acontece para a semana em Madrid, os países devem concentrar-se nas perdas e danos que algumas nações já sofrem por causa dos fenómenos climáticos extremos", que afetam "milhões de pessoas que são as menos responsáveis por causar a crise que estão a encontrar nas suas vidas".

O presidente da Quercus, Paulo do Carmo, disse, por sua vez, que sucesso seria ver "anunciadas mais medidas no sentido de aliviar as alterações climáticas e a responsabilidade dos países", destacando a aplicação de sanções às nações que não cumprissem os seus compromissos.

"A próxima COP devia prever medidas sancionatórias para os países que não cumprem o que prometem, como já existem em casos de direitos humanos. Agora, a quem não cumpre não acontece nada", criticou.

"A COP é o mais importante encontro mundial para as políticas na área do ambiente. São um ponto de encontro para a discussão, decisão e execução, mas a execução não tem sido feita por alguns países, nomeadamente os Estados Unidos da América, que anunciaram que se vão retirar do encontro de Paris", observou.

Nações Unidas e União Europeia são atualmente os dois principais líderes no combate às alterações climáticas e isso "é um sinal muito positivo e um forte exemplo para outros países", necessário porque, "apesar de já haver países a descarbonizar, a procura do petróleo ainda não diminuiu", referiu.

Já para a professora universitária Júlia Seixas, as cimeiras da ONU sobre o clima, como a da próxima semana em Madrid, são “uma deceção total”, admitindo mesmo que contribuam mais para as emissões de gases do que para a redução.

Qualquer reunião do género, que junte dezenas de milhares de pessoas de todo o mundo, tem “uma pegada carbónica gigantesca”, explica a docente em declarações à Lusa.

Júlia Seixas, que é presidente do Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologia, da Universidade Nova de Lisboa, diz por outro lado que o problema das alterações climáticas, por ser global, “não tem outro sítio para ser discutido, em termos formais, que não seja a ONU”.

No entanto, “o processo decisório na ONU é por consenso e não por votação, e isso limita muito as negociações. Se os Estados Unidos e a China decidirem no mesmo sentido, de não cumprir o Acordo de Paris, não vai sair nada da COP25. Se a China se quiser alinhar do lado da União Europeia pode ser que saia alguma coisa”, afirma a professora para justificar a deceção que sente em relação à utilidade das cimeiras da ONU sobre as alterações climáticas e as dúvidas sobre os resultados práticos.

“Muito devemos” a Greta Thunberg

Professora nas áreas da Deteção Remota em Ambiente e Energia e Alterações Climáticas, coordenadora da linha Energia e Clima do Centro de Investigação CENSE (Center for Environmental and Sustainability Research), dedicada à investigação sobre neutralidade carbónica, Júlia Seixas deposita no entanto grandes esperanças nas novas gerações.

“Nós andamos na nossa vida, por muito que os cientistas alertem para as alterações climáticas”, mas “muito devemos” à jovem sueca Greta Thunberg, que sensibilizou uma geração, a geração que começa a votar nos próximos anos, e que por isso merece “todo o respeito”.

Por agora vive-se num mundo em que uma viagem de avião de Lisboa a Madrid é substancialmente mais barata do que uma viagem de comboio, “o que significa que alguma coisa está errada”.

“Na área da aviação está tudo com a cabeça enterrada na areia”, diz Júlia Seixas, que tem mais de 60 publicações em revistas científicas internacionais e que coordena estudos de suporte a política pública nacional de mitigação climática há mais de 20 anos.

Enquanto diminuíram as viagens de negócios aumentaram exponencialmente as viagens de lazer, com a perspetiva de que continuem, à boleia das “low cost”. E tudo sem pagar impactos ambientais.

“A aviação é um dos elefantes na sala. A viagem de avião não paga impacto ambiental. Os combustíveis de avião não têm impostos. Para todos os efeitos são subsídios que todos pagamos”, salienta a professora.

A sociedade que, e de forma legítima, viaja mais de avião é a mesma que só tem uma limitação financeira no acesso a bens e serviços, mas não qualquer limitação “ética ou de valores”. Explica a especialista que se alguém quiser dar cinco voltas ao mundo por ano, ou comprar todas as roupas da moda em cada estação, “até lhe agradecem”.

“Essas emissões de gases com efeito de estufa não são as grandes empresas que as fazem, somos nós os donos dessas emissões”, frisa Júlia Seixas, acrescentando que os consumidores no mundo continuam a aumentar, e advertindo que numa perspetiva de descarbonização não faz sentido apenas trocar um automóvel a diesel por outro elétrico.

A comunidade científica tem vindo a alertar para a urgência de diminuir a emissão de gases com efeito de estufa, para controlar o aumento global da temperatura. Portugal foi o primeiro país do mundo a apresentar um roteiro para a neutralidade carbónica em 2050, o que significa ser neutro em emissões de gases para a atmosfera.

“Os roteiros têm um papel importante, são um sinal para os cidadãos e são uma segurança na atração de investimento”, diz Júlia Seixas, que se congratula pela publicação recente do decreto-lei que regula as comunidades de energia e autoconsumo.

Como se congratula com o “sinal fortíssimo” dado este mês pelo Banco Europeu de Investimentos, ao anunciar que vai deixar de financiar projetos de combustíveis fósseis.

“Vejo imensas oportunidades para resolver o problema [do aumento da temperatura] mas vejo com apreensão que as petrolíferas não estão a dar passos para mudar. Significa que vão lutar até ao limite. E a História mostra que as multinacionais têm um poder gigantesco”, afirma.

De acordo com o portal “visualcapitalist” há 20 empresas que de 1965 até hoje foram responsáveis por 35% de todas as emissões de dióxido de carbono para a atmosfera.

Em primeiro lugar está a Saudi Aramco (Arábia Saudita), seguida da Chevron (Estados Unidos), Gazprom (Rússia), ExxonMobil (Estados Unidos), National Iranian Oil Co (Irão), e BP (Reino Unido), para citar apenas as mais poluidoras, que tem no 20.º lugar a brasileira Petrobras, segundo a página. São todas empresas ligadas a combustíveis fósseis e 70% são estatais.

Júlia Seixas não é pessimista. Ou pelo menos diz que nem todos os dias é pessimista. À Lusa fala ainda de uma esperança nova, a da consciência das populações que está a despertar, a da exigência de mudança que vai acelerar as políticas públicas.

O que se pede a Portugal e ao mundo nesta COP25

Quanto a Portugal, a Zero considera que "o legítimo anúncio da ambição não deve esconder incoerências e insuficiências", frisando que a participação do primeiro-ministro, António Costa, num grupo seleto de países que vai intervir na cerimónia de abertura no dia 02 de dezembro, é uma oportunidade para afirmar Portugal como "um país ambicioso nas suas políticas climáticas".

"É preciso acelerar o ritmo de implementação das políticas climáticas, antecipar objetivos e ser coerente nas ações para salvar o planeta de um aquecimento global excessivo", defende a Zero, que contrapõe sinais contraditórios como o avanço da exploração de gás natural na zona de Leiria

"A Zero apela ao governo, em particular ao ministro das Finanças e em sede de Orçamento do Estado para 2020, para se comprometer com pelo menos a duplicação das contribuições de Portugal (relativamente aos anteriores 2,68 milhões), a que se podem acrescentar contribuições privadas, de modo a que, por português, se atinja pelo menos um euro de contribuição anual", indica a Zero.

Para a associação, "o mundo precisa mais uma vez da liderança da União Europeia, mas também de Portugal, para apoiar o momento global que pode proporcionar as reduções de emissões necessárias que correspondem ao imperativo científico e à garantia de um futuro seguro do planeta".

O presidente da Quercus, Paulo do Carmo, considera que "os movimentos da sociedade civil", que acompanham a COP25 com uma cimeira social paralela e uma manifestação do movimento grevista climático no dia 06 em Madrid são "uma forma importante de reforçar a pressão junto do poder local".

"Eles são os vindouros e as alterações climáticas e o ambiente estão no centro das preocupações de todas as pessoas", argumentou, referindo que isso é "mais uma evidência dos resultados dos estudos de milhares de cientistas".

Greta Thunberg, a ativista sueca que tem sido o rosto das greves climáticas estudantis desde o ano passado e que passará por Lisboa a caminho de Madrid, é exemplo disso, considerou.

Pela Plataforma Salvar o Clima, que espera levar cerca de 200 ativistas até Madrid, o sucesso seria nada menos que "uma revolução no sistema político e ambiental que pense na sustentabilidade".

O ativista Noah Zino, que estará na comitiva que vai seguir para a capital espanhola "de autocarro ou de comboio", conforme a opção ideológica, reconheceu em declarações à Lusa que "há demasiados obstáculos económicos e políticos, demasiada influência dos lóbis petrolíferos e demasiada vontade de manter tudo como está, rumo à catástrofe".

De 02 a 13 de dezembro, os coletivos ambientalistas como a Salvar o Clima, que na sua "Operação Madrid" inclui membros do Bloco de Esquerda, SOS Racismo, Oikos, PAN, Zero ou Climáximo, vão apostar numa "contra-cimeira" em que o foco estará na "justiça climática".

Do manifesto da plataforma constam propostas que "não são partilhadas pelos governos", destacando-se a necessidade de chegar à neutralidade carbónica [não emitir mais do que as florestas e oceanos sejam capazes de absorver "muito rapidamente", o que implicaria "a remodelação total dos transportes públicos, porque num mundo neutro, o transporte privado tem que desaparecer, tal como o investimento na pecuária extensiva e insustentável".

Noah Zino lamentou que, "mais uma vez", a discussão esteja sediada num país do "norte global", quando os países mais afetados estão no hemisfério sul.

A Cimeira do Clima, COP25 no caso da que se realiza em Madrid, é há 25 anos o fórum político mundial ao mais alto nível para debater as alterações climáticas, as medidas para as mitigar e enfrentar. Também conhecida como Conferência das Partes, a COP reúne-se em cada ano num país diferente e resulta da Convenção Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas, adotada em 1992 e que entrou em vigor dois anos depois.

A COP25 devia realizar-se no Chile, depois de a COP24 se ter realizado na Europa (Polónia), mas o Governo acabou por desistir da organização, devido a revoltas sociais e situações de violência no país nos últimos meses. Espanha aceirou organizar a cimeira, que decorre entre os dias 02 e 13 de dezembro.

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