Na sua audição na segunda comissão parlamentar de inquérito à recapitalização e gestão do banco, o presidente da CGD entre 2008 e 2010 considerou que o relatório da EY "está enviesado na sua conceção, viciado em várias das suas ilações e descuidado, por culpa própria ou por falhas de obtenção da informação, em vários dados e conclusões".

Faria de Oliveira disse que "estes vícios (...) vieram influenciar e enformar, de forma notória, quer o quadro mental e a perceção de quem tem de fazer a apreciação do exercício, quer as conclusões grosseiras e erradas que imediatamente qualquer um menos conhecedor do tema retira".

O gestor identificou no documento "dezenas de inconsistências e erros", que considerou "um número muito elevado para um relatório proveniente de uma entidade com credibilidade como a EY, sobre um assunto da máxima seriedade".

Na conclusão da sua intervenção inicial, o antigo responsável da CGD disse que o relatório da EY "não distingue suficientemente os diferentes mandatos ao longo do período em análise" e "não efetua o 'benchmarking' em relação aos outros bancos".

Reuniões e telefonemas de ministros não constituíram pressão

"Tive [...] de ministros setoriais algumas reuniões ou alguns telefonemas no sentido de olhar para um determinado número de operações e ver se a Caixa podia apoiar essas operações. Nunca tive uma indicação 'faça-se isto' em relação a essas operações", disse o ex-presidente do banco público.

Para o agora presidente da Associação Portuguesa de Bancos, de um "ponto de vista pessoal", é "perfeitamente normal que isso aconteça, desde que não haja qualquer tipo de pressão para realizar uma determinada operação".

"A minha relação com a minha tutela, o meu acionista, penso que não pode ter sido mais construtiva e mais realista face à situação que o país vivia, e tive várias orientações em função da evolução da economia nesse sentido, do meu ponto de vista perfeitamente legítimas", disse o antigo presidente da CGD.

Questionado pelo deputado do PS Fernando Rocha Andrade se alguma das 25 operações que geraram maiores perdas para a Caixa tiveram este tipo de contactos com membros do Governo, Faria de Oliveira disse que "sim", nos casos da La Seda e da Aquinova (Pescanova, em Mira).

Anteriormente, Faria de Oliveira tinha dito que se perguntava muitas vezes se "depois de saber que corria mal tinha tomado a mesma decisão" sobre o projeto La Seda, e disse estar "absolutamente convicto" que "se defendesse os interesses da instituição Caixa nunca o aprovaria", mas que "se defendesse os interesses da economia portuguesa" já ficava dividido.

Faria de Oliveira disse ainda, durante a audição, que "a Caixa tinha 4,5 mil milhões de euros garantidos por ações quando entrei na Caixa, do qual apenas uma parte estava em situação de não se começar a cumprir as garantias fixadas nesse tipo de crédito".

O ex-presidente do banco público disse que nessa altura "a principal preocupação foi reforçar as garantias", e que "uma das lições que a crise trouxe tem que ver com a necessidade de a um todo conjunto de valores dados como garantia ter de haver precauções muito fortes".

Na sequência de uma troca de palavras com a deputada do BE Mariana Mortágua, Faria de Oliveira referiu-se aos casos de Joe Berardo e Manuel Fino, e que no caso do empresário madeirense, a avaliação de património "só aconteceu numa operação de 2011, num parecer da direção de grandes empresas", em que "foi explícito que tinha sido feita a avaliação desse senhor e só tinha sido detetada uma garagem".

"Nessa altura era considerado um passo ter sido conseguido um aval pessoal", disse Faria de Oliveira.

Sobre o financiamento a Manuel Fino para compra de ações da Cimpor, Mariana Mortágua disse, referindo-se a um documento do Banco de Portugal que a garantia partia do princípio de "recompra, vende, tem mais-valia e o amortizar crédito conta como garantia", que classificou de "impensável".

Faria de Oliveira não corroborou da versão de Mariana Mortágua, dizendo que a garantia eram as próprias ações, e considerou que o caso da Cimpor "nada tinha a ver" com o financiamento para o mesmo efeito no BCP.

De acordo com o antigo presidente do banco público, a Caixa queria contribuir "para a estabilização" da empresa, apesar de "por força das imposições da 'troika' o que se veio a verificar foi o desmembramento da Cimpor".

"Parecia-nos da maior importância salvaguardar esse ativo nacional", justificou Faria de Oliveira.

"Infelizmente não temos em Portugal muitas empresas internacionais" com a dimensão da Cimpor, à data, acrescentou.

(Notícia atualizada às 22h28)

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