No momento em que os resultados confirmaram a vitória do antigo chefe de Estado do Brasil, a alegria transbordou as paredes daquele espaço de Lisboa e encheu a rua.

Os gritos de contentamento ouviam-se cá fora como uma voz única, enquanto lá dentro se viam lágrimas, abraços e muita emoção.

Logo depois da confirmação da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, Pedro Prola, jurista, coordenador do núcleo do Partido dos Trabalhadores (PT) e líder do Comité Lula a Presidente em Portugal, estimou, em declarações à Lusa, que estariam entre 1.500 a 2.000 pessoas na Fábrica de Braço de Prata, àquela hora.

"O pessoal está muito feliz, porque a gente derrotou esse período terrível do Brasil". E acrescentou: "vamos lutar para que Lula vá tomar posse. Não adianta Bolsonaro inventar nenhuma desculpa, porque Lula vai tomar posse no dia 01 de janeiro".

Pedro Prola lembrou que não é só o atual Presidente, Jair Bolsonaro, que manda no país. "São os tribunais, as forças militares, o povo", que deverão não aceitar que "haja qualquer tentação antidemocrática", sublinhou.

Por isso, disse esperar que sejam “aceites os resultados das urnas e que se procure, em conjunto, "alcançar um Brasil que esteja reconciliado consigo próprio".

Para muitos dos que festejavam a vitória do candidato da esquerda, esta foi "a vitória da democracia", "da liberdade" e representa uma viragem no Brasil.

Mas quase todos sentem o receio do que possa ainda acontecer até o Presidente eleito tomar posse, e mesmo sobre a forma como conseguirá governar o país com a polarização existente no Brasil de hoje.

"O nosso país agora é livre, livre de novo", afirmou à Lusa Valéria Machado. "Como o Conrado disse, o nosso país está de volta", acrescentou aquela mulher brasileira ainda de lágrimas nos olhos, referindo-se a um dos dois filhos que a acompanhavam na conversa com a Lusa. Conrado foi precisamente aquele ao qual Valéria se abraçou no momento em que os resultados confirmaram a vitória de Lula da Silva.

Mãe e filho abraçaram-se e beijaram-se algum tempo, sempre a chorar, depois da confirmação daquilo que mais ambicionavam, a vitória do candidato favorito.

Para Valéria, o que o Brasil estava a perder nestes últimos anos era aquilo que de mais importante tinha, "a democracia". Uma opinião partilhada pelos dois filhos, Conrado e Mateus. A família não esconde que deixou o Brasil por medo, em 2018.

"As pessoas se odeiam hoje no Brasil", sublinhou Valéria, acrescentando ter vindo com o marido e os dois filhos para Portugal.

"O meu marido era policial federal e iniciou as investigações à 'Lava Jato', depois disso a gente percebeu toda a situação colocada e de um momento para a frente foi impossível ele trabalhar, foi aposentado e aí resolvemos sair do país", referiu, sem pormenorizar.

Por isso, Valéria e os filhos manifestaram recear o que possa acontecer até janeiro, no Brasil, mês em Lula da Silva deverá tomar posse como Presidente do Brasil.

"A gente ainda tem de dar um tempinho" para deixar "baixar um pouco os ânimos", disse Valéria, assumindo a vontade da família em regressar ao Brasil. "O Lula só é Presidente em janeiro, até lá Bolsonaro pode fazer muita coisa, tem a polícia, tem o exército, tem muitos apoiadores armados, ele pode fazer muita coisa", concluiu Conrado, de 34 anos, psicólogo.

Edmond Feturi é português, filho de pai brasileiro e mãe portuguesa, nasceu e viveu em Portugal até à vida adulta, depois foi para o Brasil e casou com uma cidadã brasileira. Com 42 anos, viu a vitória de Lula como "muito necessária". "Porque o Brasil precisa de um rumo mais do que tudo de valores", afirmou.

Para o operador de áudio visual, o país está "muito perdido e alienado", por isso voltou a viver em Portugal. Na festa da vitória de Lula da Silva disse apenas querer acreditar que tudo vai correr bem.

Leonor Soares é portuguesa e neste domingo à noite, de cerveja na mão, festejou a vitória de Lula com o namorado, brasileiro, e vários amigos.

A farmacêutica, de 28 anos, não escondeu a alegria pela vitória do antigo Presidente do Brasil, mas também manifestou receios. "Era o que eu queria. Estou contente. Mas acho que vai ser muito difícil" governar o Brasil, afirmou.

Na opinião da jovem portuguesa, Lula da Silva não vai ter uma tarefa fácil pela frente, porque "existe uma grande polarização no país".

Mas considerou que "tinha de ser dado este passo, pela democracia, pelo Brasil, mas também pelo mundo".

Porque o Brasil é um país "muito importante e tinha de haver mudança, pelo mal que ele [Bolsonaro] tem feito, não só para o Brasil, mas também para o mundo", sublinhou.

Leonor disse acreditar, porém, que "a postura de diálogo" de Lula da Silva pode fazê-lo alcançar muita coisa, mas não escondeu ter "ficou chocada" porque não esperava uma diferença tão curta entre os dois candidatos na segunda volta das presidenciais.

Larissa, de 30 anos, há um ano a tirar um mestrado em Portugal veio do Nordeste do Brasil e de 'cervejinha' na mão confessou que para o Brasil a vitória do antigo chefe de Estado é "muito importante”, mas para o seu Estado ainda mais: “a gente sente que não foi esquecido”. Porque quando Lula da Silva governou o país não se esqueceu do Nordeste e da educação, frisou.

O candidato do PT (esquerda) Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito, no domingo, Presidente do Brasil, com com 50,9% (60.329.149) dos votos, derrotando Jair Bolsonaro (extrema-direita), que obteve 49,1% (58.197.923), quando estão apuradas 99,97% das secções de voto.

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