O que começou como um debate em torno de uma proposta apresentada na Assembleia da República pela deputada do Livre acabou em publicações de Facebook, primeiro de Andrè Ventura, deputado do Chega, e depois de um conjunto de pessoas em reação à mesma, incluindo a própria Joacine Katar Moreira.

Numa das  32 propostas de alteração ao Orçamento de Estado para 2020 que apresentou, o Livre propôs que o património das ex-colónias portuguesas atualmente na posse de museus e arquivos nacionais seja identificado e devolvido às comunidades de origem. Um trabalho a ser desenvolvido por um “grupo de trabalho composto por museólogos, curadores e investigadores científicos” e tendo em vista, segundo a proposta de Joacine Katar Moreira, a "descolonização da cultura".

Ontem, poucas horas depois da apresentação da proposta,  o tema saiu do parlamento para as redes sociais pelo punho do deputado do Chega, André Ventura, que na sua conta de Facebook publicou um post em que sugeria que "a própria deputada Joacine seja devolvida ao seu país de origem".

créditos: DR

Na sequência deste post, que motivou reações em vários quadrantes políticos, Joacine Katar Moreira reagiu também na sua conta de Facebook, escrevendo apenas: Não é “deportada”, é “deputada”.

Perante estas declarações, o Grupo de Contacto do Livre refere que “não pode deixar de repudiar veementemente esses ataques e o uso de uma linguagem depreciativa e difamatória, que perpetua estigmas racistas e sexistas na sociedade portuguesa”.

Em comunicado enviado às redações, o partido fala em “contínuos ataques de caráter e referências de índole racista por parte de deputados e dirigentes partidários da direita”.

“As divergências políticas não podem dar lugar nunca a manifestações discriminatórias, ainda mais por representantes eleitos para a Assembleia da República e por responsáveis políticos e partidários, num Estado de direito democrático assente no pluralismo de expressão, no respeito e garantia de liberdades fundamentais”, assinala a direção do partido.

As palavras dirigiam-se não apenas a André Ventura, mas também ao recém-eleito líder do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos que, noutro contexto, também ontem se referiu à deputada do Livre.

À saída de uma audiência com o Presidente da República, o novo líder do CDS-PP comentou a relação entre a direção do partido e o grupo parlamentar centrista, tendo manifestado uma “confiança inabalável em todos os deputados no CDS”. “No CDS não existem Joacines, existe um grupo de pessoas que partilham dos mesmos valores, estão sintonizados na mensagem que querem passar para o país”, assinalou, referindo-se à crise interna entre a deputada Joacine Katar Moreira e os órgãos do partido.

O Livre sublinhou assim que “está e estará sempre na linha da frente no combate a todas as discriminações, repudiando as declarações sexistas e deselegantes de Francisco Rodrigues dos Santos e as palavras deploráveis e racistas de André Ventura, deputado da extrema-direita portuguesa”.

Também o líder do grupo parlamentar do BE, Pedro Filipe Soares, reagiu à polémica através de uma publicação na sua conta oficial da rede social 'Twitter', na qual acusa André Ventura de ter manifestado uma "expressão de racismo e falta de noção democrática". "Este ato exige de todos uma frontal condenação, é isso que proporemos ao presidente da Assembleia da República e a todos os parlamentares", anunciou.

A presidente do Departamento das Mulheres Socialistas acusou também o deputado do Chega, André Ventura, de "racismo" e de "sexismo", violando os princípios fundamentais da Constituição. Uma posição veiculada por Elza Pais, também através do Facebook."Já chega. O comentário de André Ventura à Joacine [Katar-Moreira] propondo que seja devolvida ao seu país de origem é inadmissível num Estado de Direito democrático por violar os princípios fundamentais da Constituição e da democracia", considerou. Segundo Elza Pais, André Ventura fez "um comentário racista e sexista que não se pode tolerar". "É um atentado à dignidade de todas e de todos nós, à dignidade da pessoa humana. Absolutamente intolerável", escreveu.

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