Habituados a ver partir os familiares para o mar, sentem orgulho nos que vão.  É esse o espírito dos muitos que hoje acorreram ao Terminal dos Cruzeiros de Santa Apolónia, em Lisboa, para se despedir de maridos, filhos, netos, primos, irmãos, amigos, num total de 144 pessoas que embarcaram na Sagres para uma viagem de 371 dias à volta do mundo na rota de Fernão de Magalhães.  Marcelo Rebelo de Sousa, presidente da República e Comandante Supremo das Forças Armadas, também lá esteve, a bordo da Sagres, orgulhoso da vocação portuguesa de ser universal e não esqueceu aqueles que ficaram a ver o navio partir. Nem a marinha, nem as forças armadas, nesta viagem que irá reviver e reafirmar Portugal e os portugais no mundo.

Cais de Santa Apolónia. Um local que está umbilicalmente ligado a histórias de partidas em Portugal. Dali, em 1961, partiram milhares de militares para a guerra do Ultramar. Daquele “porto” despediram-se dos familiares chorosos, naquela que é uma das icónicas imagens do século XX português.

Hoje, 5 de janeiro de 2020, a história é outra. E não se trata de guerra, embora o choro e as despedidas (e alguns lenços brancos) tenham marcado a manhã. No novo terminal de Cruzeiros de Santa Apolónia, um barco – navio-escola Sagres – com 144 tripulantes capitaneados pelo comandante Maurício Camilo, capitão-de-fragata, partiu para uma reedição da viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães, efetuada há 500 anos (1519-1522). Durará 371 dias, regressando a Lisboa a 10 de janeiro de 2021, depois da passagem por 22 portos de 19 países diferentes, em cinco continentes, visitando, de acordo com as previsões da Marinha, 12 cidades da rede Mundial de Cidades Magalhânicas, fazendo escala em Tóquio, durante os Jogos Olímpicos, onde será a casa de Portugal durante as olimpíadas.

Na hora da partida, Marcelo Rebelo de Sousa não esqueceu aqueles que ficam a ver o navio partir: os familiares e os marinheiros da Marinha portuguesa. Foram, inclusive, para estes as primeiras palavras, o que lhe valeu um forte e sentido aplauso que seria, mais tarde, retribuído e transformado numa pausada romaria de afetos a filhos, irmãos, cônjuges, pais e avós que ficaram em terra a acenar para quem partia de barco.

Vindos da Nazaré, a família Portugal que também tem Santos no nome, viajou em peso para se despedir de Wilson Portugal Santos, 31 anos. “É um orgulho no homem e no militar que ele é”, soluçou a mulher Raquel, abraçada às duas filhas, Filipa e Sara. “É um orgulho para a família a viagem que vai fazer”, reforçou a irmã de Wilson, Andreza Santos. “Choro de orgulho e também de dor da separação”, continuou Raquel, um sentimento partilhado pela mãe, Ana Maria Portugal.

“É a primeira vez, depois de 11 anos juntos. O mais longo tinha sido duas semanas, mas assim tanto tempo fora de nós nunca aconteceu ...”, sublinhou a mulher de Wilson, o marinheiro que partiu a bordo da Sagres para mais de um ano de viagem pelo mundo. Entre choros e sorrisos de nervosismo, Filipa, a filha, confortou-se a si mesma com palavras. “Vai passar rápido”, atirou, merecendo a aprovação da irmã, Sara.

Maria Antónia Portugal, 76 anos, a verdadeira matriarca da família, de saia nazarena que identifica o local de nascimento e vivência, Nazaré, aparentava mais calma, ou não fosse ela oriunda de uma família de pescadores e, por isso, habituada às ausências, quer do pai, quer do marido, Augusto Santos. “O meu homem ainda era como era, agora um neto custa mais”, soltou. “Até porque o meu marido está, agora, ao pé de mim”, sorriu.

E lá estava, ao seu lado, Augusto, sem soltar um pingo de lágrimas. “O que o meu neto vai fazer, já eu fiz três vezes. Três voltas ao mundo”, exclamou, tantas quantas o navio no qual o neto embarcou já fez até então (1978/79, 1983/84 e 2010). “Filipinas, Indonésias e isso tudo...já andei por lá”, recordou o antigo pescador de “bacalhau e carapau” que passou grande parte da vida na Marinha Mercante. “Comecei no mar a pescar aos 13 anos. Aos 17 fui para a pesca do bacalhau, dos 27 aos 65 andei na Marinha Mercante, voltei à pesca até aos setenta e tal anos. Tenho 80 e parei faz quatro anos”, enumerou na hora de despedida já com o NRP Sagres a ser puxado por dois rebocadores.

“Celebrar o passado, afirmar o presente e construir o futuro”

Passavam 42 minutos das 10 horas quando o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, ele também Comandante Supremo das Forças Armadas, subiu a bordo da Sagres para a cerimónia oficial de despedidas e entrega da bandeira ao comandante, Maurício Camilo. Uma cerimónia que contou com a presença dos ministros da Defesa Nacional, João Gomes Cravinho e do Mar, Ricardo Serrão Santos, do ministro do Ambiente, João Matos Fernandes e do presidente do Comité Olímpico de Portugal, José Manuel Constantino.

Orgulhoso pela “vocação colada na nossa pele que é ser universal”, Marcelo estendeu o sentimento aos mais diversos quadrantes. “A circum-navegação coincide com um momento significativo para Portugal. É um momento português e celebrar este momento, é celebrar aquilo que nos orgulha na história de Portugal. Orgulham-nos as nossas Forças Armadas, orgulha-nos a nossa Armada, orgulha-nos a nossa paixão pelo mar, orgulha-nos a travessia dos oceanos e o chegar a continentes, orgulha-nos o estarmos permanentemente a fazer pontes entre culturas e civilizações”, disse sobre esta viagem em que a Sagres, um “veículo de portugalidade” conforme a descreveu o Ministro do Mar, terá a honra de “celebrar o passado, afirmar o presente e construir o futuro”, de Portugal, avançou Rebelo de Sousa.

“Durante um ano, seguem dia por dia, semana por semana e mês por mês, a reviver Portugal no mundo. Em Tóquio será a afirmação do presente de Portugal, assim como de porto em porto, nas comunidades  portuguesas, nos portuguais pelo mundo. Estamos em todo o mundo e a nossa força é superior ao território de Portugal”, finalizou o presidente não por acaso “o presidente dos afetos”.

A cerimónia encerrou às 11h05 e quase dez minutos depois, Marcelo Rebelo de Sousa, deixou o navio-escola Sagres e mergulhou na população que procurava no presidente, mais que uma selfie, um conforto. Família Portugal incluída.

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