Olhemos para a forma como foi recebido “Heavy”, primeiro single do novo (possivelmente o último) álbum dos Linkin Park, One More Light. Nas redes sociais, as reações sobretudo negativas dos fãs de longa data não se fizeram esperar, assim que se aperceberam que a banda norte-americana havia colocado de lado o híbrido de rock radiofónico e hip-hop (muitos chamaram-lhe nu metal) pelo qual se tornou conhecida, em nome de uma sonoridade mais próxima do r&b e da pop que enche estádios. Um “escândalo”, disseram alguns. Outros tantos relembraram com saudosismo os sons de Hybrid Theory, o álbum de estreia dos Linkin Park, e houve mesmo quem fizesse uma versão de “Heavy” nos mesmos moldes deste disco, mais orientado para o mundo rock e metal.

Isto em fevereiro. Cinco meses depois, o choque sentido pelos fãs dos Linkin Park é muito maior do que aquele que “Heavy” proporcionou: Chester Bennington, o vocalista de sempre da banda e considerado, por vários críticos especializados, como uma das vozes mais versáteis do mundo do rock, foi encontrado morto na sua própria casa, em Los Angeles. A causa: suicídio por enforcamento. Exatamente 64 dias após Chris Cornell, vocalista dos Soundgarden, figura de proa do movimento grunge e grande amigo de Bennington ter falecido do mesmo modo.

Falar de “maldições” ou de qualquer outro tipo de acontecimentos sobrenaturais dentro do mundo do rock n' roll será demasiado bizarro. Mas poderemos, eventualmente, falar de depressão; de abuso de álcool e drogas com o objetivo de fugir a essa mesma depressão; daquilo que sente verdadeiramente um artista que se julga sozinho no mundo, pese embora a fama e as contas bancárias recheadas – e o qual não relata por vergonha, ou para que a máscara que o ajuda a sobreviver dentro do mundo do espetáculo não seja quebrada. Sabe-se que Chester Bennington tinha um longo historial de problemas com as supracitadas drogas e álcool. Também se sabe que já havia pensado em suicidar-se, após relatar ter sido abusado sexualmente, em criança. Não se sabe, para já, se algum desses fatores – uma recaída, talvez – pesaram na sua decisão final de pôr termo à vida esta quinta-feira, 20 de julho.

Os sinais, esses, pareciam estar nas letras das canções dos Linkin Park, especialmente nos primeiros discos, onde parecem imbuídas de uma tristeza assoladora e adolescente, o que ajuda também a explicar porque se tornaram num fenómeno mundial. De crawling in my skin / these wounds, they will not heal a I tried so hard, and got so far / But in the end, it doesn't even matter, são vários os exemplos. Foram estas canções (juntamente com “Numb”, com “Faint”, com “Papercut”, com “Somewhere I Belong” e com tantas outras) que levaram milhões de pessoas a juntarem-se à volta dos Linkin Park, na busca de um propósito básico e comum na música pop: sentir que, do outro lado, do lado do artista, há alguém que nos compreende enquanto indivíduos e que canta como se nos conhecesse.

Hybrid Theory e Meteora, lançados em 2000 e 2003 respetivamente, foram verdadeiros sucessos de vendas: ao todo, venderam mais de 18 milhões de cópias nos Estados Unidos, isto numa fase em que as vendas de CDs já não eram as de outros tempos (culpa da Internet e de serviços como o Napster e o Kazaa). Mesmo entre aqueles que já não são jovens e que há muito colocaram de parte os Linkin Park, em nome de sonoridades “diferentes”, são álbuns que ainda despertam algum carinho. Não é por nada, aliás, que muitos dizem ter descoberto o heavy metal através dos Linkin Park; era música emotiva, era sobretudo pop/rock, mas também sabia ser pesada quando queria.

No entanto, o grande triunfo dos Linkin Park – e olhando para as suas origens de fusão entre rock e hip-hop, num aproximar de dois mundos que por algum motivo querem ser separados – é Collision Course, curto EP editado a meias com Jay-Z, no qual juntam os raps deste aos seus próprios instrumentais. O cruzamento “Numb/Encore” venceu, inclusive, um Grammy. E não será pateta pensar que este EP terá ajudado inúmeros jovens melómanos a sintonizarem não só o rock e o hip-hop como também o mundo das mashups, onde a música de um artista se alia à voz de outro, uma outra forma de se fazer música de pleno direito. 

Seguiram-se Minutes to Midnight (2007), também ele bastante bem recebido pelos fãs e que mostra uns Linkin Park já em busca de um outro tipo de som, Living Things (2012) e The Hunting Party (2014), todos eles sucessos à sua medida. Mas é de Hybrid Theory e de Meteora que mais se falará no presente e no futuro, quando a música dos Linkin Park voltar a ser avaliada sob uma perspetiva crítica. E, talvez, se faça o mesmo com One More Light, extremamente mal amado agora mas que provavelmente irá ser encarado como aquilo que é: o som de uma banda sedenta de vontade de experimentar. Que é, também, a melhor descrição possível para a sua carreira.

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