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É madrugada. Nos armazéns Grandella, no coração do centro histórico de Lisboa, há fogo. Lisboa acorda ante um espetáculo dantesco e o país assiste impotente às imagens transmitidas em direto pela RTP. No final de um dia escaldante, os imóveis que fizeram a história das compras natalícias de várias gerações tinham desaparecido do mapa.

Naquele dia, temia-se que o lume descesse rua abaixo. O medo da propagação do incêndio à Baixa, levou o autarca Pedro Feist (que na altura era vereador mas assumiu a presidência da Câmara de Lisboa, na ausência de Nuno Krus Abecassis) pediu para “retirar todos os processos que considerava importantes" dos Paços do Concelho, ali perto, lembrava em 2013 um bombeiro dos Sapadores de Lisboa.

A ausência do presidente da Câmara de Lisboa, que se encontrava de férias, foi criticada na altura, mas uma das principais polémicas foi a presença de floreiras na Rua do Carmo, que impediram a entrada de carros de bombeiros.

No entanto, essa barreira acabou por funcionar "a favor" dos bombeiros: "Se nós tivéssemos a rua desimpedida e tivéssemos colocado aqui várias viaturas, elas teriam ficado queimadas", com risco também para os homens, admite à Lusa Alcino Marques, que na altura se preparava para ir de férias, mas acabou a coordenar os meios que vinham de fora da cidade.

O incêndio, cujas causas nunca foram estabelecidas, começou de madrugada e chegou a ter seis frentes. Foi combatido por mais de 1.500 operacionais. No terreno estiveram ainda elementos da PSP, da Polícia Judiciária e de empresas de distribuição de eletricidade e de gás. As chamas foram dominadas pelas 11h e o fogo dado como extinto pelas 16h desse 25 de agosto.

Morreram duas pessoas. Um eletricista reformado do Arsenal da Marina com cerca de 70 anos, encontrado 58 dias após o fogo; e um bombeiro e 31 anos, Joaquim Ramos, que morreu no início de setembro de 1988 no Hospital de São José. Enquanto combatia o fogo na Rua do Carmo foi atingido por uma "língua de fogo" e "gases muito quentes". Ficou com 85% do corpo queimado.

O incêndio causou ainda vários feridos - mais de cinquenta - entre bombeiros (outros dois estiveram internados por vários dias no Hospital de Curry Cabral) e agentes de segurança com fraturas e queimaduras "mais ligeiras". O fogo destruiu 18 edifícios, desalojou cinco famílias, num total de 21 pessoas, e deixou duas mil desempregadas.

Hoje, o caos do Chiado pouco tem a ver com a água negra das cinzas que escorria cidade abaixo. Agora, escorrem turistas, escorrem tuk-tuks, escorre uma azáfama cosmopolita de uma Lisboa que demorou 25 anos a recuperar o charme ao Chiado.

Trinta anos depois, entre lojas de grandes cadeias internacionais e outras de lembranças turísticas exploradas por estrangeiros, encontrar quem atrás de um balcão ainda se lembre do dia 25 de agosto de 1988, não é a tarefa mais simples. Na rua do Carmo, que liga o Rossio à porta dos Grandes Armazéns, há ainda a luvaria e a joalharia, dentro das quais restam memórias. Mais abaixo, na rua do Ouro, a Discoteca Amália tem também quem se lembre ainda desse outro Chiado.

O Chiado de Álvaro Siza

A quatro de maio de 1989, a câmara municipal de Lisboa aprovava, por unaminidade, a proposta de Álvaro Siza para a recuperação da zona sinistrada pelo fogo. Numa reunião extraordinária, presidida por Krus Abecasis, aprovou-se a reconstrução dos edifícios numa obra com o custo previsto de 7,2 milhões de contos (perto de 36 milhões de euros) — a que se acrescia a reconstrução das áreas do domínio público, no valor calculado de 362.400 contos (cerca de 1,8 milhões de euros).

Para Álvaro Siza a missão era devolver a função habitacional ao Chiado, já que para o Pritzker 1992, foi a falta de habitação que permitiu que o incêndio “atingisse as proporções que atingiu” e “concorreu para a decadência do Chiado, antes do incêndio”.

Pensou-se, também, na harmonia. “Uma das características da Baixa reconstruída após o Terramoto [de 1755], são os quarteirões e fachadas tipo, que dão um certo ritmo aos elementos arquitectónicos. Foi esse ambiente do século XVIII que pretendemos refazer”, disse Álvaro Siza à agência Lusa na apresentação do plano de pormenor para a zona ao então presidente da autarquia Jorge Sampaio.

Os donativos para a reconstrução vieram de todo o lado. O Conselho da Europa prometeu ajudar com 20 milhões de dólares e a diáspora, os emigrantes, juntou-se também para ajudar Lisboa e os “desempregados do Chiado”, aqueles que perderam o trabalho nos armazéns e lojas afetados. Diziam, na altura: “somos todos carenciados”.

É que um ano depois das chamas, cerca de 700 trabalhadores da zona continuavam sem garantias de futuro — com os subsídios especiais criados na altura a chegar ao fim.

Só quase três anos depois de ter sido devorado pelas chamas, o Chiado via a reconstrução a começar — num processo que se rodeou de polémica. O edifício dos antigos Grandes Armazéns (hoje Armazéns do Chiado) foi expropriado pela autarquia devido à recusa do proprietário, o entretanto extinto Banif, em aceitar construir no local um hotel de luxo, como previa o plano de Álvaro Siza Vieira.

Logo em 1988, a autarquia avançou com obras de consolidação de algumas fachadas e a demolição de elementos dos edifícios que ameaçavam ruína. Depois, “ficou à espera de que os proprietários se decidissem, como lhes competia, a avançar na reconstrução”, explicava a Lusa no arranque das obras.

A juntar aos impasse dos proprietários, o conflito político — ou “divergências cerradas entre a
vereação camarária, colocando de um lado, a maioria socialista/comunista, e de outro a minoria social-democrata, que não conseguiu fazer vingar os seus pontos de vista”, escrevia na altura a agência portuguesa.

E mais: atrasos. Com o início da reconstrução, descobriram-se imprevistos, Atrasos imprevistos "uns devidos à antiguidade histórica da zona (os restos arqueológicos apareceram e teem de ser analisados e pesquisados, e a câmara de Lisboa pensa que outros mais vão saltar à luz do dia)”. “Outros atingem, em particular o comércio, e os detentores deste querem o mínimo prejuízo nas suas bolsas e interesses”, acrescentava a Lusa, três anos depois do fogo.

Mas nem tudo é mau: “ao mexer nos ‘cacos’ históricos do Chiado queimado, novos ‘cacos’ mais profundos — e preciosos — estão a aparecer”, escrevia a agência. “No inicio de agosto [de 1991] várias sepulturas, uma arcada de um convento pré-pombalino e um semi-arco que se prolonga pelas fundações dos antigos armazéns do Chiado. Alguns edifícios têm, segundo especialistas, fundações de apenas 75 centímetros, pelo que é admissível que mais escavações venham a encontrar outros achados históricos.”

Cinco anos depois, regressavam a água, luz e telefone à zona. Em agosto de 1993, apenas dois prédios estavam reconstruídos e quatro em fase de acabamento. Os primeiros edifícios a ser dados como terminados foram o prédio onde existia o ‘snack-bar’ Ivens, na rua com o mesmo nome, e o Jerónimo Martins, na rua Garrett.

Em acabamento, estavam, na Rua Nova do Almada, o edifico da pastelaria Ferrari, o da joalharia Morais e a loja Valentim de Carvalho. Na rua do Carmo, os dos estabelecimentos Martins e Costa e Melodia.

A começar os acabamentos estavam os prédios das casas Batalha e Eduardo Martins. O edifício da Santa Casa, na esquina da rua Garrett, rua do Carmo e calçada do Sacramento, começava a ver os trabalhos de arranque da estrutura.

Baixa mais segura

Após o incêndio de 25 de Agosto de 1988, o Regimento de Sapadores Bombeiros (RSB), por decisão municipal, vistoriou prédio a prédio, fogo a fogo, tudo quanto existe construído nas zonas da Baixa, Chiado, incluindo as zonas envolvidas pelas ruas de S. Nicolau e do Alecrim até ao Camões.

A conclusão final apontou para o que já se sabia, mas que só a tragédia do Chiado deixou a claro: toda a zona era um verdadeiro "barril de pólvora" propício a dramas semelhantes ou ainda mais graves.

Poeiras altamente inflamáveis acumuladas nos e sob os telhados, falta de extintores ou outros meios de combate a incêndios, elevadas cargas térmicas acumuladas em muitos prédios donde os moradores saíram para dar lugar a armazéns e serviços, vãos abertos e ausência de portas corta-fogo, muitas instalações eléctricas antigas, constituíram os aspetos mais salientes do relatório do RSB, citado pela agência Lusa em 1994.

Em agosto desse ano, mais de metade dos 411 prédios da Baixa de Lisboa tinham já sido objecto de obras de beneficiação, em resultado de intimações feitas pela autarquia.

“O Pai Tirano” para reconstruir o Grandella

1995 foi o ano apontado para o regresso do edifício Grandella à sua imponência. A empresa que assumiu a reconstrução comprometia-se a restaurar as fachadas da rua do Ouro e da Assunção, danificadas pelo incêndio, e a refazer totalmente a fachada da rua do Carmo.

Datado de 1904, o antigo edifício Grandella era conhecido pelas suas "belas fachadas", como foi dito na imprensa da altura, e albergava os grandes armazéns de Francisco Grandella, que empregavam, em 1907, 160 pessoas.

“Já em decadência no período anterior ao incêndio, os armazéns passam definitivamente à história em 1995, quando no novo edifício surgirem centros comerciais e escritórios”, escrevia a Lusa em outubro de 1994.

Celebrizado cinematograficamente pelo filme "O Pai Tirano", o edifício Grandella, totalmente reconstruído, abre portas pelas mãos da francesa Printemps. Atualmente, aloja, entre outros, a sueca H&M.

“A reconstrução fiel do edifício deve-se em parte ao filme "O Pai Tirano", centenas de vezes visionado pelos arquitectos responsáveis pelo projeto”, dizia a Lusa.

Oito anos e um dia depois do incêndio, arranca finalmente a construção daquele que é considerado o símbolo da zona — o edifício dos antigos Grandes Armazéns do Chiado. Só a 26 de outubro de 1999 viriam a abrir, com um novo modelo de comércio no interior, mas respeitando a fachada antiga.

“No interior, o ambiente é algo luxuoso, com muita iluminação natural, que entra pelas grandes janelas, e uma privilegiada vista do rio, do castelo e da Sé”, descrevia a agência Lusa.

Entre as lojas e restaurantes, “o que não vai existir mesmo é o McDonald’s e as pizzarias, porque não correspondem ‘ao ambiente’ dos armazéns”, consideram na altura os responsáveis. Hoje, há McDonald’s e Starbuck’s. Pizzas ou saladas também por lá se encontram.

Uma década depois, ainda havia desempregados do fogo

Dez anos depois do incêndio, em 1998, o problema dos trabalhadores do Chiado que perderam o emprego na sequência do fogo ainda estava em discussão na Assembleia da República, motivado por uma petição que reuniu mais de quatro mil assinaturas.

O documento foi entregue no Parlamento pelo Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços do Distrito de Lisboa, reunindo cerca de 4.300 assinaturas.

Durante a discussão, o deputado do PS Barbosa de Oliveira lembrou que em 1997 os ministérios do Emprego e Solidariedade aprovaram um despacho com vista a solucionar o problema, dado que dos 300 trabalhadores que ficaram sem emprego aquando do incêndio, 9 anos depois, 120 ainda se encontravam no desemprego.

Por sua vez, Nuno Abecasis, deputado do PP e presidente da câmara municipal de Lisboa na altura do incêndio de 1988 no Chiado, interveio para se mostrar indignado por 10 anos passados da tragédia ainda não ter sido solucionado este problema. "Não esperava 10 anos depois ainda encontrar ente dramático problema", disse, citado pela Lusa.

António Rodrigues, deputado do PSD, acusou o PS por não ter solucionado a questão, apesar de deter a presidência da autarquia há nove anos, desde 1989.

Só em junho de 2000 os trabalhadores da zona destruída pelo incêndio tiveram nas mãos o recibo provisório da compensação.

Objetivos do plano de reconstrução do Chiado atingidos 20 anos depois

Vinte anos depois, eram “atingidos e estão percetíveis” os objetivos do Plano para a Reconstrução da Área Sinistrada, segundo disse à agência Lusa o arquiteto coordenador do projeto.

Jorge Carvalho, que foi o “braço direito” de Álvaro Siza Vieira no projeto, explicava em 2008 à Lusa que “foram introduzidas melhorias nas ligações urbanas entre a Baixa e a Alta [Chiado], foi integrada uma estação de metro e criou-se habitação como fator de revitalização e segurança da zona”.

“Agora vê-se vida intensa no Chiado a várias horas do dia. Há 20 anos, o incêndio demorou a ser notado e a ser dado o alarme devido à inexistência de habitação”, reiterou.

E trinta anos depois?

Hoje, o Chiado é uma correria. A subir e a descer cada uma das principais ruas do bairro, vão turistas de pele brilhante pelo sol que queima numa tarde de agosto. As lojas são sobretudo internacionais, grandes cadeias. Os carros são tuk-tuk. Nalguns recantos, há marcas de outros tempos. Há a Sá da Costa, a luvaria e a Joalharia do Carmo. Lá dentro há quem se lembre do antes.

É aliás na Joalharia do Carmo, ali debaixo da sombra do elevador, e depois de uma breve incursão à Discoteca Amália na rua do Ouro para pedir indicações, que um ourives vai polindo a memória a olhar para as fotografias da agência Lusa. "É Ferrari, pastelaria Ferrari", diz.

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