Nos primeiros meses de 2015, os habitantes desta cidade localizada a 50 km de Salvador, na Baía, sentiam-se angustiados  por causa de uma doença desconhecida que afetava cada vez mais pessoas. A doença misteriosa passou a ser chamada de "síndrome eczematosa indeterminada" pelos médicos devido, à irritação que causava na pele.

"Meus dois filhos e eu ficamos doentes. Em meu bairro, todo mundo foi infectado", conta à AFP Vanessa Machado dos Santos, de 35 anos e que ganha a vida a vender água de coco na tórrida Camaçari. "Começou a picar a pele, tínhamos febre, dor de cabeça e no corpo, muita dor nas articulações", descreveu. Pouco tempo depois informaram-na de que tudo isso que sentia era por causa de um vírus chamado zika, mas as suas dúvidas persistiam. "Ninguém sabia muito bem do que se tratava. Diziam que parecia com dengue, era causada por um mosquito, que vinha de outro país. Eram muitas as histórias sobre o famoso zika", recorda. "Se sentia medo? Claro! Não sabíamos o que viria depois. As pessoas sempre têm medo do desconhecido".

Pedido de ajuda

Em abril de 2015, os centros médicos desta cidade de 200.000 habitantes estavam apinhados. O Dr. António Carlos Bandeira, do hospital Santa Helena, considerou urgente determinar o que era esta síndrome e contactou o virologista Gubio Soares, da Universidade Federal da Bahia, um seu conhecido. Pelos sintomas que os pacientes apresentavam e pelo contágio explosivo - havia prédios inteiros lotados por pessoas doentes, segundo ele -, presumiram que se tratava de um 'arbovirus', nome genérico para vírus transmitidos por algum inseto ou outro animal semelhante.

"Naquela época havia um caos devido ao número de consultas. Enviámos um verdadeiro pedido de socorro ao pesquisador Gubio para que nos ajudasse na parte de identificação do agente infeccioso", contou. No seu laboratório do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Federal da Bahia, em Salvador, Soares e a colega Silvia Sardi dedicaram-se a investigar cerca de 20 amostras de pacientes enviadas de Camaçarí.

Até que acharam o vilão da história: zika, identificado pela primeira vez no mundo em 1947, na África, e que já apareceu nas ilhas do Pacífico em 2007 e 2013, mas que, pelas características geográficas, não tinha causado o mesmo impacto. Conta Soares: "Já havia lido trabalhos interessantes sobre o zika. Paralelamente, vi as fotos de pessoas contagiadas com o vírus e como havia muitos em Camaçarí, achei que se tratava do zika. Discuti isso com Silvia Sardi, fizemos os testes e foram conclusivos. E assim identificamos o vírus pela primeira vez no Brasil", relatou.

Isto foi em 28 de abril de 2015. No dia seguinte, as autoridades sanitárias brasileiras comunicaram publicamente a descoberta.

Pela TV

Do Brasil, o vírus expandiu-se vertiginosamente pelas Américas. Calcula-se que chegou ao país durante o Mundial de Futebol, em meados de 2014, com os primeiros casos registrados no Rio Grande do Norte - só confirmados mais tarde, depois da sua identificação.

No final de abril, Luciene Ferreira sentia-se mal. Tinha picadas, manchas na pele, um pouco de febre e nenhum ânimo para trabalhar na sua loja de frangos na feira de Candeias, a 30 km de Camaçarí. "Fiquei o dia todo com febre e mal-estar. Mas, à noite, vendo as notícias na tv, disseram que havia um novo vírus, o zika. Foi assim que me informei pela televisão", contou à AFP, rindo. "E depois, quando fui ao médico, ele mesmo disse que não sabia de nada. Que para eles ainda era um mistério", prosseguiu.

Ainda não foi confirmado oficialmente se este vírus é responsável pelo aumento dos casos de bebés nascidos com microcefalia ou pelo desenvolvimento em adultos de uma síndrome que pode gerar paralisia. No ano seguinte ao seu surgimento no Brasil, o zika continua rodeado de mistério. 

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