A partir do Dubai, Sedat Peker publica todas as semanas vídeos de 90 minutos no YouTube com acusações escandalosas — mas ainda por provar — contra membros do partido do presidente turco Recep Tayyip Erdogan.

Com mais de 75 milhões de visualizações, este líder do crime organizado, que um dia apoiou o Partido da Justiça e Desenvolvimento de Erdogan, cativou a nação turca e tornou-se um fenómeno das redes sociais, escreve a Associated Press.

Nestes vídeos, Sedat Peker denuncia casos de corrupção estatal e expõe divisões entre fações rivais dentro do partido do governo.

Os primeiros vídeos de Peker visaram o ex-ministro do Interior Mehmet Agar, a quem acusou de se apropriar indevidamente de uma marina de luxo para utilizar em operações de tráfico de droga, e o seu filho Tolga, que acusa de ter violado uma jovem cazaque e mais tarde encobrir o seu assassinato como suicídio.

Nos vídeos seguintes, dirigiu acusações contra empresários e personalidade próximas do governo, bem como contra o filho do ex-primeiro-ministro Binali Yildirim. Segundo Peker, este estaria envolvido em operações de tráfico de drogas com ligações à Venezuela.

O ataque mais violento, porém, foi contra o ministro do Interior Suleyman Soylu, que Peker acusa de abuso de poder e corrupção. O líder do crime convertido em fenómeno do YouTube diz que Soylu o traiu apesar de ter beneficiado da sua ajuda para derrotar uma fação rival dentro do partido no poder. E é isto que justifica a sua animosidade. 

Todos os visados rejeitaram as acusações.

Uma das acusações de Peker com dimensões internacionais visou um ex-conselheiro de segurança de Erdogan, acusado de liderar uma força paramilitar que enviou armas para a síria, destinadas a militantes ligados à Al-Qaeda.

O presidente turco ignorou os vídeos de Peker durante semanas, mas quebrou o silêncio a 26 de maio, altura em que rejeitou as alegações do líder do crime organizado, dizendo que são parte de uma conspiração contra a Turquia.

"Vamos acabar com estes jogos e enredos. Ninguém deve duvidar que vamos acabar com esta operação duvidosa", prometeu Erdogan. "Vamos perseguir criminosos onde quer que estejam no mundo... e não os deixaremos em paz até que os consigamos trazer de volta para o país e os entreguemos à justiça", acrescentou.

Peker já respondeu ao presidente turco, sugerindo que Erdogan poderá ser visados nos próximos vídeos.

Apesar de as alegações não estarem ainda provadas, os partidos da oposição aumentaram a pressão e exigem inquéritos judiciais e demissões.

Can Selcuki, analista da plataforma Turkiye Raporu, lembra que Peker é "um criminoso", mas encontra justificação para a sua popularidade: "Parece que as pessoas estão a fazer estas perguntas a um fora da lei porque não conseguem respostas em mais lado nenhum. E isso diz-nos que há uma exigência crescente por transparência na sociedade turca", diz.

Quem é Sedat Peker?

Nacionalista, tem andado dentro e fora da cadeia desde que tinha 17 anos por crime organizado e outras ofensas.

Depois de ser libertado, em 2014, fez manifestações de apoio ao partido de Erdogan e ameaças contra os seus opositores.

Em 2015, o casamento com a sua advogada, Ozge Peker, atraiu várias celebridades.

Em abril deste ano, uma operação policial contra o grupo de Peker resultou na detenção de cerca de 60 pessoas.

Pai de duas filhas, diz que se viu forçado a falar depois de a polícia maltratar e humilhar a sua família durante as buscas que as sua casa em Istambul foi alvo.

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