A admiração do comandante refere-se a uma navegação complexa pelo rio cuja baixa profundidade, sem um conhecimento prévio e sem os instrumentos modernos de navegação.

"Como conseguiram? É impressionante! É preciso arte e engenho. Acho que eles eram mais observadores do que nós somos agora. Eram mais intuitivos. Como tinham menos informação já pré-trabalhada, tinham de ser muito mais observadores e tentar perceber, de uma forma mais intuitiva, o meio que os rodeava", admira-se o capitão-de-fragata.

Há 500 anos, o navegador português, Fernão de Magalhães, comandou cinco naus que, ao dobrarem o então Cabo de Santa Maria, atual Punta del Este, entraram no rio de Solis, hoje Rio da Prata, à procura de uma passagem para o Mar do Sul, hoje Pacífico.

A proeza de Magalhães consistiu em navegar pelos canais do Rio da Prata, um rio difícil de ser navegado sem ficar encalhado mesmo nos dias de hoje.

"Hoje em dia, temos um profundo conhecimento da configuração do fundo e da dificuldade de navegar o Rio da Prata, mas eu imagino cinco naus, há 500 anos, chegarem a esta zona, vindos do mar profundo e de um tipo de navegação completamente diferente, entrarem numa área em que praticamente não há água debaixo da quilha, não conhecendo exatamente onde estão os baixios e os canais por onde se pode passar", compara Maurício Camilo.

O argumento de que o calado das caravelas era menor do que um barco como a Sagres é desvalorizado pelo comandante.

"O calado era menor, mas não muito menor. A Sagres tem um calado de 5,5 metros. As naus carregadas teriam um calado de 3 metros ou 3,5 metros. Portanto, estamos a falar da altura de um homem", descarta.

A expedição de Fernão de Magalhães passou 28 dias no estuário do Rio da Prata à procura de uma saída ao Pacífico.

A frota concluiu que não podia haver um oceano do outro lado devido à coloração barrenta e turva e pelo sabor doce da água.

"Magalhães usava uma técnica que era espetacular e que nós experimentamos agora ao chegarmos aqui: provar a água. É mesmo doce", conta o comandante, explicando que "a cor acastanhada é muito semelhante a de um rio qualquer em Portugal quando chove muito e leva uma quantidade de sedimentos mar adentro".

Por tudo isso, para Maurício Camilo, era "impossível confundir" o rio com o mar.

"Conhecendo rios de outros sítios que o Fernão de Magalhães já conhecia, muito dificilmente poderia ser uma passagem de um oceano para outro porque as características da água aqui são muito marcantes", diz, sublinhando que a dúvida só pôde ter existido porque "eles tinham muito desejo e muita expectativa de que fosse aqui a passagem".

Hoje à noite, o navio será o cenário para um concerto da cantora Teresa Salgueiro acompanhada pela Orquestra da Armada Argentina. A ex-vocalista dos Madredeus terá ao fundo a Sagres, de onde sairá ao palco, e terá o Rio da Prata em frente.

O navio-escola Sagres chegou a Buenos Aires na tarde de sexta-feira, já noite em Lisboa, depois de navegar durante 19 horas desde Montevidéu, no Uruguai, onde 11 universitários argentinos embarcaram, todos futuros engenheiros navais, ambientalistas, oceanógrafos, meteorologistas e biólogos, da Universidade de Buenos Aires, integrante da Rede Mundial das Universidades de Magalhães.

Sebastián Alar (25), quarto ano de Engenharia Naval pôde fazer estudos sobre a potência das velas, procurando provar que a propulsão a vela pode ser usada em navios mercantes, para diminuir o uso de combustíveis.

"É possível adaptar a vela mesmo em navios com fins económicos e, ainda assim, ser eficiente. É como voltar um pouco ao passado, às navegações de 500 anos atrás", defende.

"Tivemos todos uma muito linda experiência. Fomos muito bem tratados, comemos muito bem. Vimos coisas que na faculdade não podemos ver. É preciso viver esta experiência", exalta Sebastián.

Celeste Antieco (33), prestes a tornar-se oceanógrafa, analisou a composição da água, a oxigenação, a coloração e o PH.

"Para mim, foi importante ver como se organiza um navio militar estrangeiro e poder capturar dados do ambiente no Rio da Prata. É uma prática importante porque não temos muita saída de campo", destaca.

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