Obra prima do cinema contemporâneo, o Titanic (1997), de James Cameron, traz agarradas lições de ética que, em jeito de parábola, bem assentam nos tempos de agora.

São muitas: os ricos que têm acesso ao salvamento muito antes dos pobres; os trabalhadores que continuam no posto enquanto toda a gente se salva; e os líderes que arranjam maneira de fugir sem ninguém ver.

Tudo isto temos visto acontecer por estes dias. As justificações variam, mas é já claro que a carência socioeconómica precipita infeções (mais não seja porque leva a maior exposição a situações de risco).

Depois, não é de admirar ler quem fure a fila, quem seja empurrado para uma sobra qualquer, para aqui, acolá, acoli — distinção para os funcionários da tal pastelaria no Porto. Fazendo fé nas explicações do agora ex-delegado do INEM para o Norte, mesmo que a escolha tenha sido questionável, não se trata de um caso de rebelião do proletariado da doçaria pelas vacinas, mas só isso: uma decisão questionável para não desperdiçar vacinas.

Finalmente, o ministério da Saúde determinou hoje que “a ‘Task-Force’ reforce instruções para que as entidades responsáveis pela operacionalização do plano preparem, de antemão, uma lista de outras pessoas prioritárias a quem poderão administrar as vacinas, no caso de impossibilidade superveniente de alguma das pessoas inicialmente definidas, devendo, ainda, tal circunstância ser devidamente reportada”.

O comunicado do Ministério da Saúde surge depois de terem sido conhecidas estas situações de pessoas que não estariam entre os grupos prioritários da primeira fase de vacinação.

A covid-19 já matou em Portugal 12.482 pessoas dos 720.516 casos de infeção confirmados, segundo dados da Direção-Geral da Saúde hoje divulgados. Na frente continuam os mesmos de sempre: os profissionais da saúde; os profissionais da morte; os profissionais do retalho; os profissionais da distribuição; os profissionais que asseguram os pormenores insignificantes para que a vida corra.

Eles são os violinistas, as mãos que nos enchem os ouvidos de confiança, que nos afagam a alma, mesmo que nem sequer cheguemos a dar por eles.

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