Um dos exemplos foi o do jornal francês Libération que publicou na sua capa de 23 de março uma fotografia tirada por um amador, que mostrava a caminhada de um grupo de pessoas que seguiam pelo túnel do metro.

"As pessoas compreendem imediatamente o que acontece e sabem que são testemunhas privilegiadas de algo que todos vão ver. Sabem que é preciso pessoas para filmar, pois eles também procuram essas imagens nas redes sociais. Têm a impressão de ser úteis, agir e fazer parte do acontecimento, de dizer 'eu estive lá'", resume Nicolas Vanderbiest, doutorado e especialista em redes sociais na Universidade Católica de Lovaine, em França.

"Esta necessidade de contar um acontecimento excepcional, fazer parte do mesmo, chamar a atenção dos outros com o seu relato, é uma necessidade humana fundamental", destaca Stéphane Rusinek, professor de psicologia da Universidade de Lille, também em França. "E muita gente tem o desejo de ficar mais tempo no local para poder contar mais", completa.

Alguns reflexos tornaram-se habituais quando acontece um atentado. "Nos três atentados traumáticos, na Europa, apareceu uma mesma regra: enviar desenhos, um hashtag ou um grafismo, cobrir a fotografia com as cores de uma bandeira, declarar-se 'em segurança' no Facebook... Mais que uma dimensão narcisista, é uma necessidade de calor humano, de se comunicar, de se reunir", explica Benoît Raphaël, especialista em redes sociais.

"Depois do perigo imediato, que leva à fuga, quando as pessoas se sentem seguras e a salvo, tiram uma fotografia", conta Rusinek. "Há um desejo de comunicar o que acontece para proteger os outros. Isto permite controlar a angústia".

"O sucesso da 'hashtag' #Jesuischarlie" vai continuar a ser um dos exemplos mais excepcionais porque foi espontâneo. Depois, foram mais organizadas", destaca Nicolas Vanderbiest, que acompanha de perto os 'hashtags' que se tornam trending topics.

#Bruxelles foi usada em seis milhões de tuítes contra 40.000 no dia anterior. #Tousensemble teve 40.000 tuítes. Depois surgiram #jesuisbruxelles (280.000), #PrayforBrussels (250.000), #Prayforbelgium" (370.000). Em especial, #stopislam (530.000), um número muito elevado, mas também citado com muita frequência para denunciar o lema lançado pela extrema direita, afirma Vanderbiest.

Aumentar o medo?

"O ato de filmar um evento marcante tem-se intensificado porque as redes sociais tornaram-se maciças, com os smartphones e o 4G, que possibilitam a transmissão de imagens em tempo real, tanto no caso de atentados como no caso de fenómenos naturais. Isto não acontece porque as pessoas queiram protagonismo, mas por necessidade de partilhar, de expressar, de consolar", afirma Benoît Raphaël. "São enviados desenhos, smileys, mensagens, corações... As redes sociais são usada como um lugar de ajuda mútua, um instrumento colaborativo, como em Bruxelas e em Paris", prosseguiu.

Mas a circulação destas imagens pode ampliar o medo, adverte John Brewer, professor especializado em conflitos na Queen's University de Belfast. As redes sociais "derrubaram o mecanismo de distanciamento que praticamos para nos proteger" de acontecimentos ultraviolentos. "Estamos expostos a traumatismos mais importantes do que antes, pois a violência é registada nos telefones de pessoas que estão no local, o que pode traumatizar", advertiu, acrescentando que "as redes facilitam que todos partilhem a angústia, o que a torna mais difícil de suportar", alegou Brewer.

Para este sociólogo, especializado em conflitos no Sri Lanka e na Irlanda do Norte, as sociedades podem aprender a viver com o terror. "As pessoas continuam a vida normal, tentando manter a distância dos que sofrem mais". Mas as redes sociais "apagam este processo de distanciamento", conclui.

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