“É um inferno, isto é um inferno. Estamos cercados”, disse Cristina Garcia, acompanhada pelo filho Tiago, de 10 anos, e do marido, apontando para o outro lado da estrada, onde se situa a casa que construíram há 18 anos, na povoação de Louriceira.

No outro extremo lavrava outro foco de incêndio, que obrigou à retirada das pessoas do lugar de Ouzenda.

“O eucalipto é danado. E depois está tudo seco”, disse à Lusa, referindo que a Louriceira é terra de habitações dispersas no meio da mata, um "sobressalto" perante chamas que "não há meio de cederem".

A coluna de fumo crescia junto a uma habitação há muito abandonada, onde se concentraram três carros de combate a incêndios que aguardavam instruções, não escondendo alguns dos bombeiros o receio de ficarem encurralados pelas chamas.

A chegada de uma equipa do Grupo de Intervenção de Proteção e Socorro (GIPS) da GNR foi decisiva para o ataque ao fogo, que só cedeu com a chegada de meios aéreos da proteção civil francesa e espanhola.

Só aí os proprietários do que foi um estabelecimento comercial, agora desativado, na nacional 2, mas onde ainda residem no primeiro andar, descansaram.

Antes, um dos elementos da GNR verificou eventuais perigos, como a existência de botijas de gás ou outros materiais combustíveis, num reconhecimento em que lhe foi mostrada, numa das encostas, a umas centenas de metros, uma casa recentemente recuperada por cidadãos ingleses e rodeada por árvores, que acabou por escapar ilesa.

No jardim junto à Câmara de Pedrógão Grande, Maria Rosa desfiava o terço, pedindo a Deus para “abrandar isto” e “dar coragem a esta gente”.

Veio de manhã a Pedrógão para ir às compras e já não regressou a casa, em Ouzenda, porque o marido a avisou que estavam a evacuar a povoação, juntando-se a ela à espera da hora de poderem regressar, talvez ainda hoje.

“Só trago a roupa que tenho no corpo, os meus documentos e o telemóvel”, disse, confiante que, caso fosse necessário, alguém em Pedrógão a iria acolher.

“Isto é um meio pequeno. As pessoas são conhecidas. É quase como uma família”, disse.

Pelo centro da vila cruzavam-se militares que vieram ajudar ao combate dos incêndios e muitos residentes (vários deles estrangeiros) de aldeias do concelho que procuraram refúgio na sede do concelho.

Sentada numa esplanada, a inglesa Susana espera, com o filho, que a casa de ambos, em Mó Grande, volte a ter água e luz.

Prefere ficar na rua, porque a televisão ligada dentro do café, com as imagens constantes sobre o drama que se abateu sobre a região, lhe faz “muito 'stress'”, sobretudo depois de ter recebido a notícia, pelo telemóvel, de que o namorado de uma amiga portuguesa, bombeiro, morreu na segunda-feira.

O incêndio que deflagrou no sábado à tarde em Pedrógão Grande, no distrito de Leiria, provocou pelo menos 64 mortos e mais de 150 feridos, segundo um balanço divulgado hoje.

O fogo começou em Escalos Fundeiros, e alastrou depois a Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pera, no distrito de Leiria.

Desde então, as chamas chegaram aos distritos de Castelo Branco, através do concelho da Sertã, e de Coimbra, pela Pampilhosa da Serra.

Este incêndio já consumiu cerca de 26.000 hectares de floresta, de acordo com dados do Sistema Europeu de Informação de Incêndios Florestais.

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