créditos: JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Eram 15:50 desta quinta-feira, 21 de novembro, quando a manifestação de profissionais da PSP e da GNR chegou às escadarias do parlamento, após um desfile pacífico desde o Marquês de Pombal.

O cortejo, que passou pelas ruas Braamcamp, Alexandre Herculano, Largo do Rato e São Bento, encabeçada por uma tarja branca com os dizeres “exigimos respeito”, chegou à Assembleia da República perante um forte aparato policial do Corpo de Intervenção da PSP e barreiras metálicas reforçadas com blocos de betão.

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As barreiras cercam um arco em torno do parlamento, fortemente reforçadas e com medidas de segurança que são inéditas em anteriores manifestações em frente à Assembleia da República, sendo que o acesso à parte de trás do palácio de São Bento, onde se situa a residência do primeiro-ministro, estava também vedado com barreiras metálicas e de cimento.

A grande maioria dos manifestantes envergava camisolas brancas e foram gritadas palavras de ordem como “Cabrita, escuta, os polícias estão em luta”, sendo visíveis também várias bandeiras de Portugal.

Para assegurar que a manifestação de hoje era pacífica foram pensados mecanismos como a exclusão de elementos provocadores e a não permissão de pessoas exteriores, explicou ontem fonte da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP/PSP) ao SAPO24.


Dizem que está “em causa a segurança pública”. Os baixos ordenados, os elevados riscos e o desgaste que não é reconhecido estão a ter implicações reais na resposta que as forças de segurança são capazes de dar no dia-a-dia. Dez perguntas e respostas para perceber o protesto


Nas convocatórias enviadas aos participantes a organização apelava ainda a que não fossem tomadas “atitudes que coloquem em causa o trabalho dos polícias que estão de serviço”, que não sejam criadas “situações de alteração de ordem pública” e que se garanta “a segurança das pessoas”.

Há 30 anos, em abril de 1989, uma manifestação de polícias, na Praça do Comércio, em Lisboa, foi reprimida com bastonadas, cães e canhões de água, ficando conhecida como "secos e molhados” (em que “secos” eram os polícias que controlavam o protesto, e "molhados", os polícias que se manifestavam).

Mais recentemente, em 2013, uma manifestação dos polícias do setor da segurança interna juntou cerca de 12 mil profissionais. Na altura, a organização disse tratar-se da maior manifestação de sempre. Nessa noite, a 21 de novembro, os ânimos exaltaram-se e os polícias invadiram a escadaria da Assembleia da República.

Também em março de 2014, chegou a haver confrontos entre o Corpo de Intervenção e os manifestantes, quando estes derrubaram as barreiras policiais e tentaram subir as escadarias do parlamento, tendo resultado em 10 feridos.

Hoje, o largo em frente ao parlamento, onde começaram a chegar as forças de segurança em protesto sem incidentes a registar, começou a ficar lotado por volta das 16:00, hora prevista para a concentração no local. Pelo caminho, foram recebendo muito apoio de pessoas às janelas das casas por onde o desfile passou. Foi o caso de um grupo de idosos do lar ‘Casa das Hortênsias’, que saiu à rua em apoio à manifestação.

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Em declarações à Lusa, a diretora do lar explicou que estavam ali por que são diariamente acompanhados pela polícia, num policiamento de proximidade.

Os idosos estavam junto ao cruzamento da rua Braamcamp com a Alexandre Herculano e em resposta ao apoio os manifestantes bateram palmas e agradeceram.

Já junto ao parlamento, pelas 16h30, ouviu-se o hino nacional, cantado de costas voltadas para a Assembleia da República, seguido de palmas e assobios. "Zero, zero", ouviu-se de seguida, acompanhado do gesto que está a marcar este protesto.

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As reivindicações que deram origem a este protesto não são novas. Na anterior legislatura, o Governo “fez promessas que não cumpriu”, diz a organização no comunicado conjunto que anunciou a marcação da greve. E agora não querem esperar mais. Daí, o lema da manifestação: “tolerância zero”. Estes são alguns dos motivos que levaram as forças de segurança a sair à rua esta quinta-feira:

  • Aumentos salariais - O salário bruto para quem entra na GNR ou na PSP é de 789 euros. “É inconcebível que um agente de autoridade ganhe apenas mais 100 euros do que o ordenado mínimo nacional”, consideram os organizadores do protesto.
  • Pagamento dos suplementos em tempo de férias que foram retirados desde 2011 - Em setembro de 2018, o Supremo Tribunal Administrativo considerou ilegal este corte e mandou pagar a dívida aos trabalhadores. Eduardo Cabrita, ministro da Administração Interna, apresentou agora uma proposta, podendo os suplementos ser pagos faseadamente até ao final desta legislatura.
  • Pagamento de um subsídio de risco e consideração da profissão de polícia como sendo de desgaste rápido - Ainda recentemente foi noticiada a morte de um militar da GNR em serviço, na sequência de um acidente rodoviário.
  • Fiscalização das condições de higiene, saúde e segurança no trabalho.
  • Cumprimento do estatuto na parte referente à pré-aposentação, “com desvinculação dos polícias, se o desejarem, aos 55 anos ou 36 de serviço”.
  • Definição de um Programa Plurianual de Admissões, para garantir o rejuvenescimento das forças de segurança - O Balanço Social Consolidado do Ministério da Administração Interna de 2017, publicado este ano, destaca que, além da falta de recursos humanos, há um envelhecimento estrutural das forças de segurança.

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BE, PCP e Iniciativa Liberal solidarizaram-se com os milhares de polícias e elementos da Guarda Nacional Republicana (GNR) na manifestação. Os deputados dos três partidos optaram por estar logo no arranque da manifestação e não no seu destino final, junto às escadarias principais da Assembleia da República, como é costume nestas ocasiões, por considerarem existirem assim melhores condições de segurança e de diálogo com os representantes sindicais.

Já o deputado único do Chega, André Ventura, apresentou-se na sessão plenária do parlamento envergando uma t-shirt branca com símbolos do movimento Zero, no peito e nas costas, e um autocolante com a bandeira portuguesa à frente, do lado esquerdo. Este movimento é composto por um conjunto anónimo de elementos das forças de segurança, cujos membros comunicam através das redes sociais, alegadamente ligado à extrema-direita. Mais tarde, já junto dos manifestantes, André Ventura tomou a palavra para se dirigir às forças de segurança em protesto.

Discursando aos manifestantes, André Ventura, disse que estes mostraram que "a polícia unida jamais será vencida". "Não queriam que aqui viesse, montaram uma barreira para impedir-nos de falar", afirmou, numa referência às barreiras de cimento que reforçaram as barreiras de ferro que costumam separar os manifestantes da escadaria da Assembleia da República. André Ventura disse que vai "continuar a lutar porque os polícias e as forças de segurança tenham as melhores condições possíveis". A sua curta intervenção terminou com gritos de "Viva a polícia, Viva Portugal".

“Infelizmente isso aconteceu”, comentou César Nogueira, presidente da Associação dos Profissionais da Guarda (APG/GNR), que considerou que o deputado do Chega “não deveria usar da palavra para os manifestantes” num protesto que se queria “apartidário”.

“Eu percebo que os manifestantes que são apoiantes do deputado André Ventura quisessem ouvir algumas palavras. Já não entendemos é como é que o deputado utilizou uma manifestação que é apartidária, é dos polícias, para usar da palavra”, disse César Nogueira em declarações aos jornalista da RTP. “Não o deveria ter feito”, reforçou.

O deputado do CDS-PP Telmo Correia e a líder parlamentar do PAN, Inês Sousa Real, também desceram à manifestação, manifestando compreensão quanto às suas reivindicações.

As associações de profissionais da PSP e da GNR anunciaram para 21 de janeiro um novo protesto, caso o Governo não atenda às suas reivindicações. O anúncio foi feito por megafone, em frente à Assembleia da República.

Pelas 17h30 e sem incidentes a relatar, os manifestantes começaram a dispersar. A organização estima que tenham estado no protesto 13 mil participantes.

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