No espaço de uma semana, a descrença deu lugar à euforia — pelo menos no que concerne ao futebol. De arriscar falhar a primeira presença num Campeonato do Mundo de futebol desde 1998, a seleção nacional conseguiu carimbar a sua presença em novembro no Qatar ao vencer a Turquia e a Macedónia do Norte.

Além disso, apesar do percurso periclitante que Portugal fez nesta caminhada, a seleção acabou por granjear no privilégio de ser colocada no pote 1 do sorteio. Se não entende grande coisa de futebol ou de como este tipo de organização de torneios se processa, tal posição implicou estar no mesma poule de sorteio com nações como França, Brasil ou Espanha e não apanhar com nenhuma delas na fase de grupos.

Terá sido o sorteio simpático para Portugal? Depende da perspetiva. Por um lado, evitar os tubarões do pote 1 seria sempre uma dádiva — e não calhar com equipas difíceis de outros potes, como Alemanha, Países Baixos ou mesmo a Sérvia, também; por outro, a seleção nacional acabou num grupo que pode obrigar a algumas sessões de psicanálise.

Se está neste momento a coçar a cabeça, essa aparente necessidade de expurgar traumas tem a ver com o facto de Portugal ter calhado num grupo com o Uruguai, a Coreia do Sul e o Gana, três equipas todas elas ligadas a maus momentos da história do futebol português.

Pode ler tudo aqui, mas em jeito de resumo:

  • O Uruguai foi a equipa que eliminou Portugal nos oitavos de final do Campeonato do Mundo de 2018, na Rússia;
  • A Coreia do Sul, na única partida que jamais disputou com a seleção das quinas, mandou Portugal de malas para casa em 2002, a ganhar por 1-0 e impedir a equipa lusa de progredir além da fase de grupos. Pior, foi o célebre jogo em que houve duas expulsões, uma delas o infame cartão vermelho direto para João Pinto por agredir o árbitro;
  • O Gana até traz a memória de uma vitória... que não serviu de nada. No Mundial de 2014, no Brasil, Portugal já tinha perdido com a Alemanha e empatado com os EUA e precisava de ganhar por uma enorme margem de golos à equipa africana para conseguir passar a fase de grupos. Em vez disso, a magra conquista por 2-1 de pouco valeu, com os norte-americanos a passar e nós a ter de atravessar o Atlântico de volta a casa.

Além de tudo isto, junte-se mais um dado capaz de obrigar à compra de medicamentos para a ansiedade. Portugal não só joga contra a Coreia do Sul, mas o seu selecionador é Paulo Bento — o antecessor de Fernando Santos à frente da seleção nacional. Passado e presente, portanto, vão encontrar-se no Qatar. Paulo Bento, porém, já tratou de colocar sal na fervura, ao dizer à Antena 1 que considera "Portugal e Uruguai os favoritos, à partida". "A maior parte das pessoas concordarão”, adiantou.

Já o selecionador do Uruguai, Diego Alonso, considerou hoje que o grupo é equilibrado e todas as equipas têm possibilidades de seguir para os oitavos de final. "É um grupo muito equilibrado, no qual creio que os quatro têm possibilidades e são fortes. Estamos muito entusiasmados com o que pode vir a acontecer. Apostamos em ganhar os jogos que temos pela frente, mas será difícil superar qualquer uma das equipas. Fosse qual fosse o adversário, seria sempre bom”, observou o técnico, de 46 anos.

No entanto, já se sabe do jeito português de ser e Fernando Santos é, de certa maneira, a encarnação desse espírito luso — ou não fosse um treinador que, mal acaba um jogo, puxa logo de um cigarro para acalmar os nervos.

“Não há grupos fáceis nem grupos difíceis, há sorteio. [É um grupo que integra] Futebol de quatro continentes diferentes”, começou por avisar o técnico, logo após o sorteio. “É com grande expectativa que vejo o sorteio. São equipas a que estamos menos habituados, sobretudo a Coreia do Sul e o Gana, que conhecemos menos bem em termos de desempenhos. Conheço bem a Coreia do Sul, por estar lá o Paulo [Bento], mas temos de ter muita atenção agora e procurar conhecer bem as equipas. O Uruguai defrontámos no último Campeonato do Mundo”, referiu.

Por outro lado, Fernando Santos confessou que o sorteio acabou por ser “positivo”, tendo em conta que Portugal irá estrear-se no Mundial em 24 de novembro, com o Gana, três dias após o arranque da prova, o que permite mais algum tempo de preparação, face a uma edição atípica, que pela primeira vez será realizada a meio de uma temporada do futebol europeu.

“Nesse aspeto, o sorteio foi positivo. Podendo os jogadores saírem dos clubes a 14 de novembro, havendo Liga dos Campeões e Liga Europa na semana anterior, os jogadores com muitos jogos em cima, obviamente que ter mais três ou quatro dias é melhor para começar”, disse.

Copo meio vazio ou meio cheio? Depende da sede de cada um — e no deserto arábico, esta vai ser testada.

Certo é que, caso Portugal ultrapasse o seu grupo, o percurso que se segue vai apenas ser mais difícil, uma vez que o Grupo H, no qual consta a seleção nacional, cruza com o G.

Isso significa que Portugal pode enfrentar o Brasil, a Sérvia, a Suíça e os Camarões na fase a eliminar. Se dos dois últimos, com todo o respeito, há pouco a temer, dos dois primeiros estamos a falar nos pentacampeões do mundo e da equipa que remeteu Portugal para o segundo lugar na fase de qualificação.

No que respeita aos quartos de final, a formação comandada por Fernando Santos já sabe que poderá encontrar um adversário proveniente dos agrupamentos E ou F e que jogará em 9 ou 10 de dezembro.

O Grupo E é liderado pela tetracampeã Alemanha (1954, 1974, 1990 e 2014) e pela Espanha, campeã em 2010, enquanto o F conta com a Bélgica, a equipa que arredou Portugal do Euro2020, e a Croácia, vice-campeã mundial em título.

Japão ou o vencedor do ‘play-off’ entre Nova Zelândia e Costa Rica, do Grupo E, e Marrocos e Canadá, do Grupo F, são hipóteses menos prováveis, mas nunca se sabe, pois Portugal também ‘deveria’ ter disputado o acesso ao Mundial2022 com a Itália e, afinal, cruzou-se com a Macedónia do Norte.

Agora é uma questão de esperar — e não desesperar.

*com Lusa

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