No vidro das janelas de sacada que rasgam as paredes de alto a baixo refletem-se os cadeirões alinhados, num quarteirão de cubículos que a partir de agora acolherão os doentes urgentes do Centro Hospitalar Universitário São João (CHUSJ), no Porto.

O serviço de urgência não dedicada à covid-19 do São João abre hoje uma nova ala para aumentar o conforto e a segurança dos pacientes. A vontade já existia, mas foi a pandemia que a "antecipou e provocou".

Umas salas administrativas com amplas janelas no rés-do-chão do maior hospital do Norte dão lugar, a partir das oito horas desta quarta-feira, a uma nova unidade de urgência para os doentes não covid-19. O espaço ficou pronto em mês e meio e é fruto de um investimento a rondar os 300 mil euros. Vai funcionar em paralelo com as antigas urgências.

Apesar de equipada para todas as situações, esta nova ala receberá os doentes menos graves que chegarem às urgências do São João. Os doentes mais graves serão na mesma encaminhados para as urgências já em funcionamento, no corpo central da unidade (e que também vão ser alvo de intervenção no futuro), até pela proximidade à sala de emergência.

"Só o espaço físico em si é logo uma mais valia: a luz, o podermos ver o sol quando é de dia", conta ao SAPO24 Cristina Marujo, diretora do Serviço de Urgência. "Acima de tudo, podemos ter os doentes mais separados e divididos. Esta pandemia trouxe-nos muitas informações — já sabíamos que eles estavam demasiado juntos, não era preciso que a pandemia no-lo dissesse, mas ela sublinhou-o, temos a noção de que os doentes não podem continuar maca com maca, cadeira com cadeira."

Também Nelson Pereira, diretor da Unidade Autónoma de Gestão de Urgência de Urgência e Medicina Intensiva, destaca o "momento muito importante para o serviço de urgência do Hospital de São João" que a abertura deste espaço com cerca de 500 metros quadrados representa.

"Vai permitir transformar radicalmente a forma de trabalhar no serviço de urgência do Hospital de São João. É algo que ansiávamos há muito tempo, perante as dificuldades — que sempre tivemos e de alguma forma continuaremos a ter — com o volume de doentes que todos os dias nos procuram. Estamos a falar de quase 500 doentes por dia a entrar neste serviço", explica o médico.

"Quando a pandemia surgiu verificámos que tínhamos de retirar os doentes suspeitos do contacto com os outros e isso obrigou-nos a reformular completamente os espaços, obrigou-nos a criar novos espaços: temos contentores, temos o hospital de campanha. Mas os doentes não-covid nunca saíram da nossa cabeça e das nossas preocupações", garante.

Porém, com o aumento da área dedicada aos doentes infetados ou com suspeitas de infeção com o coronavírus SARS-CoV-2, identificado há um ano na China, surgiram "dificuldades de gestão dos doentes não-covid", admite Nelson.

Agora, a nova ala para os doentes urgentes serve não para aumentar a capacidade de resposta do hospital, mas para melhorar as condições em que os pacientes são atendidos: "é um alargamento físico, para os mesmos doentes, com os mesmos profissionais, mas em melhores condições", esclarece o diretor.

"Quando estamos em pandemia percebemos mais, percebemos melhor que os doentes não podem estar sentados uns ao lado dos outros, as macas colocadas umas ao lado das outras — e a pandemia veio acelerar este processo", explica Nelson.

Assim, este novo espaço, antecipado pela covid-19, mas desenhado a pensar no futuro, responde a outras questões como a segurança, o conforto e a privacidade: "como sempre aconteceu nos serviços de urgência de todo o país, e o serviço de urgência do Hospital de São João não é diferente, sempre viveram com sobrepopulação e se antes já não era aceitável que as pessoas estivessem todas metidas no mesmo espaço, umas ao lado das outras, é evidente que numa situação de pandemia isto nos preocupa dez vezes mais".

"Percebemos que tínhamos de crescer e entrar uma forma de tratar os nossos doentes não-covid com mais dignidade, com mais conforto, com mais espaçamento e, por isso, com mais segurança e privacidade", explica. "A privacidade é uma das nossas maiores preocupações para os doentes em tratamento", refere o médico, sublinhando que em Portugal "os serviços de urgência não são nada bons neste ponto de vista — e essa é uma das grandes queixas que as pessoas apresentam quando vou aos serviços de urgência: estarem expostos."

"Era um passo que já precisava de ser dado", acrescenta Cristina Marujo. "Independentemente da pandemia, já tínhamos a noção de que precisávamos de estender o serviço de urgência, que não chegava, que era preciso alargar para algum lado. Claro que é sempre difícil perceber para onde vamos e às vezes coisas como esta pandemia são o motor."

Esta nova unidade conta com oito gabinetes e 28 "boxes", pequenos espaços individuais, separados por vidro fosco, que permitem prestar os cuidados. Com uma área "muito generosa", os doentes podem estar em avaliação e em tratamento "completamente separados uns dos outros", conta Nelson Pereira.

"Separados de uma forma que lhes dá segurança, porque não estão na proximidade de outros doentes. Apesar de ser uma área não-covid, como sabemos, muitas vezes os doentes são assintomáticos ou têm poucos sintomas ou sintomas atípicos; portanto, mesmo nas áreas não-covid, queremos que os doentes estejam separados — e é isso que aqui conseguimos", afirma ainda.

A vontade de reformular o serviço de urgência já era anterior à pandemia, mas a doença que paralisou o mundo em 2020 acelerou a necessidade de mais espaço. No futuro, o serviço de urgência original, no corpo central do edifício, será também "objeto de uma reformulação e de uma melhoria", adianta Nelson, que a aproximará do esquema usado nesta nova ala.

Para já, ambos os espaços funcionarão em simultâneo: "nós precisamos do espaço", explica Cristina Marujo. "Durante a obra poderemos ter de fazer alguma alteração, mas para já pelo menos vai continuar a funcionar — e a ideia é que continue a funcionar sempre."

"Desde a primavera que o Conselho de Administração entendeu dar início a este projeto, que agora se conclui e que vai permitir tratar os doentes não-covid com outro tipo de condições de segurança e de conforto, que são a nossa grande preocupação".

Gripe pode chegar mais tarde e não ser tão grave

O responsável pela urgência e medicina intensiva do São João admite que"pode haver um menor impacte da gripe neste outono-inverno", tendo em conta as medidas de proteção e etiqueta respiratória recomendadas, dando como exemplo aquilo que aconteceu no inverno do hemisfério sul.

"Até este momento, não temos nota de nenhum doente com gripe que tenha entrado no serviço de urgência do Hospital de São João, o que quer dizer que ainda não começou a época gripal e acreditamos que ela vai chegar mais tarde e com menor intensidade que nos outros anos", acrescenta Nelson Pereira.

Para além disso, os circuitos devem manter-se tal como estão desde março: "os doentes com sintomatologia de gripe entrarão obviamente no fluxo dos doentes com queixas respiratórias".

Ainda assim, "a época gripal faz parte da segunda vaga da pandemia", pelo que "não há diferenças nenhumas" face à preparação especial para a gripe neste ano, explica.

Afluência total às urgências recupera números anteriores à pandemia

A área médica das urgências do CHUSJ recebe cerca de 80 a 85 doentes em simultâneo, são à volta de 430 doentes todos os dias, pouco menos do que a média de 462 doentes urgentes registada no ano passado. Nelson Pereira diz que na segunda vaga da pandemia não se nota uma diminuição na afluência às urgências gerais, como a registada no início dos primeiros casos em Portugal.

"Neste momento estamos com números totais muito próximos do que eram antes da primeira vaga — o que temos é uma alteração dos doentes covid vs. não-covid. Temos menos doentes não-covid, mas temos muitos doentes covid", assume, o que faz a soma chegar aos níveis habituais.

"Muitos dos doentes que vêm ao serviço de urgência chegam com queixas respiratórias: infeções respiratórias, pneumonias, asma, dores de garganta, amigdalite, etc. Isto são tudo doentes que já vinham ao serviço de urgência e que eram, em teoria, não-covid. Mas agora quando estamos em pandemia, os doentes com este tipo de sintomatologia são suspeitos até prova em contrário."

"As áreas dos doentes respiratórios estão bem definidas desde março e a funcionar em pleno", diz ainda Nelson Pereira.

Para lá dos doentes respiratórios, que são encaminhados para as vias covid-19, chegam às urgências todos os outros: "com dores de barriga, com alterações neurológicas, com enfartes, com AVC — e esses continuam a vir ao serviço de urgência em segurança", diz.

"O número de doentes que continuamos a internar diariamente com esse tipo de patologias não mudou. Não achamos neste momento que haja uma diminuição dos doentes não-covid que precisam efetivamente de vir ao serviço de urgência. Estamos com números muito semelhantes ao passado".

Não querendo falar da resposta à pandemia, Nelson Pereira afirma que o reforço das equipas dedicadas aos doentes covid-19 teve como objetivo diminuir os impactes nas outras urgências, "precisamente para que os doentes não-covid não fossem prejudicados", diz. Reorganização, aliás, que arrancou ainda durante o verão.

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