A intervenção, desenhada pelo arquiteto Gonçalo Byrne, pretendia, “e conseguiu”, na opinião do presidente da Câmara de Alcobaça, Paulo Inácio, “devolver a monumentalidade ao Mosteiro [de Santa Maria de Alcobaça]”.

Para isso, reconhece, houve “um preço a pagar”, para além do custo da obra orçada em 5,3 milhões de euros e que revolucionou uma área superior a três hectares.

A ideia foi, segundo Paulo Inácio, “repor a praça como terra de ninguém”, num recuo revivalista aos tempos da Ordem de Cister, quando “não existia ali nada e o povo ali fazia trocas comerciais”.

O conceito implicava retirar o trânsito da frente do mosteiro (construindo uma circular alternativa à Estrada Nacional 8) e o estacionamento de viaturas e autocarros.

O projeto previa a construção de um parque de estacionamento subterrâneo, mas para diminuir custos foi substituído pela criação de cerca de 25 lugares à superfície), o que gerou polémica, sobretudo, junto dos comerciantes que contestaram a obra concluída em 2006.

Críticas continuam

“Fizeram disto uma cocheira”, reclama Fernando Adrião, há 38 anos a gerir a Cafetaria D. Pedro, que durante as obras esteve “alguns meses fechada em protesto”.

O comerciante não perdoa o desvio do trânsito nem a falta de estacionamento, que “diminuíram muito a clientela”. Mas desgosta-o, sobretudo, o “saibro de má qualidade” colocado na praça, que mais não é que “uma areia, que só faz pó”.

Mosteiro de Alcobaça

Paula Alves, proprietária da Alcoa, contesta também o saibro, “que envergonha os alcobacenses” e lamenta não ter havido “uma maior coordenação” na envolvente do mosteiro, criando “espaços de que as pessoas pudessem usufruir”.

Ainda assim, reconhece também “prós” na intervenção que permitiu aumentar o espaço de esplanadas junto ao monumento, melhorando condições “quer para os clientes quer o trabalho” no seu estabelecimento.

Naquela que é a pastelaria mais premiada do concelho, a requalificação (excetuando durante a obra) não resultou em diminuição da clientela e a empresa até aumentou o número de trabalhadores.

Já nas duas casas de venda de recordações turísticas os proprietários apontam o dedo aos 400 metros que os turistas têm de percorrer desde o local onde estacionam os autocarros.

“Vêm com as guias ao mosteiro e ninguém aqui para”, afirma Cecília Silvério, proprietária de uma loja cujas portas só não fecham “porque não tem empregados”.

Já Maria Dulce, há mais de 50 anos à frente da Casa Hipólito, admite ter reduzido o número de trabalhadores, por causa “da obra, da crise e do desvio do trânsito, que afastou o turismo”.

Paulo Inácio assegura, no entanto, haver “uma recuperação de visitantes do mosteiro”, onde são registadas anualmente quase 200 mil visitas pagas e, estima “mais do dobro de visitas não contabilizadas”, porque na igreja não são cobradas entradas.

"Monumento vivo"

Contas feitas, defende, “a requalificação teve mais prós que contras” para a cidade, onde há também quem aprecie a nova estética do rossio.

“O mosteiro é um monumento vivo e o seu rossio tem sofrido várias alterações ao longo dos anos”, lembra Pedro Tavares, da Associação de Defesa do Património, admitindo gostar “mais desta solução”.

A anterior, acrescenta, “tinha cerca de 50 anos, quando a coqueluche era ter o automóvel à porta” o que, no caso do mosteiro, significava “ficar tapado com os autocarros”.

Aos críticos da obra que devolveu a visibilidade aos 200 metros de fachada do monumento, Pedro Tavares recorda que “cada época teve o seu modelo de vivência daquele espaço” e o mais certo é que, com ou sem consenso, “esta não seja a última vez que o rossio muda”.

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